terça-feira, dezembro 08, 2020

Sondagem: Pandemia arrasa com o bem-estar emocional dos portugueses

 


A pandemia de covid-19 está mesmo a arrasar os portugueses: 92% dos inquiridos numa sondagem da Aximage para o JN e a TSF estão muito ou bastante preocupados com a crise e 55% sofrem um impacto grande ou muito grande na saúde e bem-estar emocional. Nada que surpreenda o psiquiatra Pedro Morgado, "tendo em conta a dimensão dos problemas que se abateram sobre a nossa sociedade".

Os entrevistados mostram-se mais preocupados com os efeitos na economia (31%) e a saúde e o bem-estar emocional (21%). Destacam-se, neste caso, os jovens: 69% estão afetados. A classe mais baixa é a que mais sofre (68%). O professor da Universidade do Minho crê que "cerca de 24% das pessoas poderão estar a sofrer significativamente com as medidas". Face às ameaças, "foram ativados os mecanismos de resposta ao stresse que incorporam sintomas de ansiedade e ativação, o que gera uma sensação de mal-estar e preocupação permanente". É evidente o "agravamento da insatisfação com a vida em diferentes domínios", diz.

Antes da covid, 79% dos inquiridos estavam satisfeitos ou muito satisfeitos com a vida social. Agora, são 27%, menos 52 pontos percentuais. Os insatisfeitos/muito insatisfeitos são agora 49%. Quanto à saúde, a satisfação/muita satisfação desce para 61% e a insatisfação sobe para 15%.

Modificação brutal

Isso "é explicável pelo facto de vivermos uma emergência de saúde pública que modificou de forma brutal os nossos hábitos sociais" . De facto, "deixámos de poder ver a cara uns dos outros, de nos podermos tocar, abraçar ou beijar e de conviver como antigamente". O sofrimento que o isolamento gera e o "consequente descontentamento com a vida social não tem, necessariamente, um impacto na saúde. E isso é muito positivo".


Antes da covid, os idosos eram os mais satisfeitos (90%) com a vida social. Agora, a satisfação cai para os 36% (-54 pontos) e a insatisfação trepa 48 pontos, de 5% para 53%. As variações são significativas também nos outros grupos. "A vida social é muito importante para a nossa saúde" e a covid "condicionou a forma como nos relacionamos socialmente, mas não extinguiu a nossa vida social. Passámos a comunicar de outras formas que, não substituindo aquilo a que estávamos habituados, justificam o descontentamento com esta estranha normalidade".

Vida familiar alterada

O nível de vida regista o segundo maior impacto. Apenas 44% dos inquiridos estão satisfeitos e a taxa de insatisfeitos atinge 26%. Os idosos ainda estão no topo (86% antes, 68% agora), mas jovens baixaram 41 pontos, de 79% para 38%. "A maioria dos idosos depende dos rendimentos das suas pensões, que não sofreram alterações durante a pandemia", ao contrário de setores como o comércio, o turismo e a restauração, explica Pedro Morgado. Já a insatisfação dos jovens está "seguramente relacionada com o impacto na saúde e bem-estar emocional".

Quanto à vida familiar, o grau de satisfação desce 28 pontos e o de insatisfação agrava-se em dez. O caso das mulheres é singular: antes, era idêntico ao dos homens (82%). Agora é menor, baixando elas para 52% e eles para 60%.

"A vida familiar também se reconfigurou", nota o psiquiatra. "Passámos a viver mais tempo em família o que , em algumas situações, reforçou as disfunções existentes e noutras contribuiu para reforçar os laços". Mas a vida em família "também se viu muito limitada nos espaços e nos momentos de fruição". E "o teletrabalho sobrecarregou em particular as mulheres, que, infelizmente, continuam a acumular com o trabalho grande parte das tarefas domésticas. Isto explica a maior quebra na satisfação".

Jovens afetados por quebra de socialização

Na autoavaliação do impacto na saúde e bem-estar emocional, 69% dos jovens (18-34 anos) referem um impacto grande ou muito grande , uma percentagem maior do que nos outros grupos e superior em 19 pontos ao dos idosos (65+). De facto, comenta o psiquiatra, "aparecem particularmente afetados, o que poderá estar relacionado com a quebra da socialização, que é muito relevante nesta fase do desenvolvimento. Além disso, as perspetivas acerca do futuro alteraram-se radicalmente, o que coloca em causa os projetos e as expectativas que muitos jovens idealizavam para o seu futuro a curto e médio prazo" (Jornal de Notícias, texto do jornalista Alfredo Maia)

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