SUMÁRIO
O Presidente declarou aberta a sessão às 15 horas e 30 minutos.
No âmbito da ordem do dia, fixada a requerimento do PS, foram discutidas as Apreciações Parlamentares n.os 6/XVII/1.ª (PS) — Decreto-Lei n.º 1-A/2026, de 6 de janeiro, que altera o Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, que define um novo modelo para a atribuição de um subsídio social de mobilidade no âmbito dos serviços aéreos entre o continente e as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e entre estas Regiões, e 7/XVII/1.ª (CH) — Decreto-Lei n.º 1-A/2026, de 6 de janeiro — Altera o Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, que define um novo modelo para a atribuição de um subsídio social de mobilidade no âmbito dos serviços aéreos entre o continente e as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e entre estas Regiões, juntamente com as Propostas de Lei n.os 51/XVII/1.ª (ALRAA) — Altera o Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, que define um novo modelo para a atribuição de um subsídio social de mobilidade no âmbito dos serviços aéreos entre o continente e as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e entre estas regiões, e 55/XVII/1.ª (ALRAM) — Altera o Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, que define um novo modelo para a atribuição de um subsídio social de mobilidade no âmbito dos serviços aéreos entre o continente e as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e entre estas regiões, na redação dada pelo Decreto-Lei n.º 1-A/2026, de 6 de janeiro, e revoga as respetivas normas regulamentares, e com o Projeto de Lei n.º 409/XVII/1.ª (CH) — Procede à alteração ao Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, afirmando a mobilidade aérea como direito dos cidadãos portugueses das regiões autónomas, reforçando a coesão e a continuidade territorial e alterando a designação do Subsídio Social de Mobilidade, que foram aprovados. Usaram da palavra, a diverso título, os Deputados Francisco César (PS), Pedro Pinto (CH), Francisco Gomes (CH), Hugo Soares (PSD), Filipe Sousa (JPP), Idalina Durães (CH), Jorge Pinto (L), Carlos Pereira (PS), Ana Martins (CH), Marta Patrícia Silva (IL), Inês de Sousa Real (PAN), Fabian Figueiredo (BE), Paula Santos (PCP), Lina Pinheiro (CH), Hugo Soares (PSD), Carlos Pereira (PS), Patrícia Almeida (CH), João Pinho de Almeida (CDS-PP), João Tilly (CH) e Emanuel Câmara (PS).
O Sr. Presidente: — Boa tarde. Peço aos Srs. Agentes da autoridade o favor de abrirem as portas, para o público que quer assistir aos nossos trabalhos.
Eram 15 horas e 30 minutos.
A
nossa agenda de hoje tem no seu primeiro ponto uma fixação da ordem do dia,
requerida pelo PS, relativa às Apreciações Parlamentares n.os 6/XVII/1.ª (PS) —
Decreto-Lei n.º 1-A/2026, de 6 de janeiro, que altera o Decreto-Lei n.º
37-A/2025, de 24 de março, que define um novo modelo para a atribuição de um subsídio
social de mobilidade no âmbito dos serviços aéreos entre o continente e as
Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e entre estas regiões, e 7/XVII/1.ª
(CH) — Decreto-Lei n.º 1-A/2026, de 6 de janeiro — Altera o Decreto-Lei n.º
37-A/2025, de 24 de março, que define um novo modelo para a atribuição de um
subsídio social de mobilidade no âmbito dos serviços aéreos entre o continente
e as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e entre estas regiões, que serão
debatidas conjuntamente com as Propostas de Lei n.os 51/XVII/1.ª (ALRAA) —
Altera o Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, que define um novo modelo
para a atribuição de um subsídio social de mobilidade no âmbito dos serviços
aéreos entre o continente e as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e
entre estas regiões, e 55/XVII/1.ª (ALRAM) — Altera o Decreto-Lei n.º
37-A/2025, de 24 de março, que define um novo modelo para a atribuição de um
subsídio social de mobilidade no âmbito dos serviços aéreos entre o continente
e as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e entre estas regiões, na
redação dada pelo Decreto-Lei n.º 1-A/2026, de 6 de janeiro, e revoga as
respetivas normas regulamentares, e com o Projeto de Lei n.º 409/XVII/1.ª (CH)
— Procede à alteração ao Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, afirmando a
mobilidade aérea como direito dos cidadãos portugueses das regiões autónomas,
reforçando a coesão e a continuidade territorial e alterando a designação do
Subsídio Social de Mobilidade.
O segundo ponto consiste na discussão da conta de gerência da AR (Assembleia da República) de 2024 e o terceiro ponto consiste em votações.
Burburinho na Sala.
Pausa.
Srs. Deputados, gostava de dar início aos trabalhos e gostava de dar a palavra ao primeiro orador, o que só acontecerá quando estiverem reunidas as condições na Sala.
Burburinho na Sala.
Pausa.
Podemos então começar os nossos trabalhos. Tem a palavra o Sr. Secretário de Mesa.
O Sr. Presidente: — Vou então dar a palavra ao Sr. Deputado Francisco César, para uma intervenção, quanto ao ponto um da ordem do dia.
O Sr.
Francisco César (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Subsídio Social
de Mobilidade, no âmbito dos serviços aéreos entre o continente português e as
Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira — assunto recorrente no debate
político regional e um dos temas que mais mobiliza e preocupa o povo açoriano e
o povo madeirense. Tantas, tantas vezes aqui trazido, discutido e, quando nos
deixaram, melhorado.
«Porquê?»,
talvez perguntem alguns membros do Governo, a começar pelo Primeiro-Ministro e
outros tecnocratas e burocratas da nossa Administração.Comecemos pelo óbvio. Ao
contrário de outros cidadãos portugueses que vivem no território continental,
para nos deslocarmos para fora da nossa região em Portugal, não há alternativa
viável que não seja o avião.
Para
o fazermos, temos de nos sujeitar, independentemente da nossa urgência ou
motivo, à disponibilidade de lugares, aos horários e aos preços exorbitantes
praticados pelas companhias aéreas, com o especial requinte de serem, muitas
vezes, as companhias aéreas públicas, detidas pelos contribuintes, as que mais
oneram os cidadãos insulares.
Por
tudo isso, a lei que estabelece o Subsídio Social de Mobilidade não é um favor,
não é um privilégio e não é uma benesse. É um instrumento de justiça
territorial. É um mecanismo encontrado pelo Estado português para permitir aos
cidadãos insulares o exercício pleno da sua cidadania, ao nível da mobilidade,
da continuidade e da coesão territorial.
É, portanto, um direito. E um direito, ao contrário daquilo que o Sr. Primeiro-Ministro aqui afirmou, não é uma transação entre o cidadão e o Estado. O direito à mobilidade não é uma recompensa. O direito à mobilidade não é uma moeda de troca. O direito à mobilidade é inerente à condição de cidadão português.
Aplausos do PS.
Seja
este cidadão de Vila Real, de Faro, de Santa Cruz das Flores ou do Funchal,
cabe sempre ao Estado atenuar ou eliminar barreiras, não criar novas. É tão
evidente, que até forças políticas com visões opostas da do Partido Socialista
acompanharam a nossa indignação perante a tentativa de condicionar este
direito, condicionando isso à situação contributiva dos cidadãos.
Sr.as
e Srs. Deputados, o modelo de Subsídio Social de Mobilidade em vigor, ou seja,
o de reembolso de passagens, nasceu em 2015. Teve méritos, trouxe ganhos
enormes, ajudou centenas de milhares de açorianos e madeirenses a viajar mais e
melhor, mas hoje, 10 anos depois, é um modelo envelhecido.
É um
modelo que, apesar dos seus benefícios, apresenta carências claras, penaliza
quem compra apenas uma ida, cria barreiras burocráticas desnecessárias, afasta
os cidadãos com menor literacia digital e ameaça transformar um direito num
processo punitivo.
É para corrigir estes problemas, já, que apresentamos esta proposta.
O Sr. Hugo Soares (PSD): — Qual proposta?
O Sr. Francisco César (PS): — Não é uma revolução, é uma correção.
Protestos do Deputado do PSD Hugo Soares.
É uma correção para garantir três coisas simples.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Qual é a proposta?!
O Sr. Francisco César (PS): — Primeiro, que ninguém perde direitos. Segundo, que ninguém é excluído. Terceiro, que ninguém é penalizado por ser pobre, por ser idoso, por ser jovem, por ter dificuldades digitais ou por apenas precisar de fazer uma viagem de ida.
Aplausos do PS.
A
nossa proposta assegura que o valor máximo de subsídio é aplicado quer o
cidadão compre ida e volta quer o cidadão compre apenas ida; que o acesso ao
subsídio não depende da atual situação fiscal contributiva; que agências de
viagens possam submeter pedidos em nome dos passageiros, permitindo que muitos
residentes passem a pagar logo, no momento da compra, apenas o máximo previsto
na lei — por exemplo, para os Açores,
não mais do que 119 €; e que existem mecanismos alternativos, quando a
plataforma falha.
Isto
é defender as pessoas reais. Isto é defender o estudante deslocado; é defender
o doente oncológico; é defender a família que precisa de viajar por urgência; é
defender quem vive numa região autónoma.
Sr.
Presidente, só para termos uma ordem de grandeza: todos os anos, centenas de
milhares de residentes das regiões autónomas utilizam o Subsídio Social de
Mobilidade, o reembolso das passagens.
Estamos
a falar de um instrumento que custa dezenas de milhões de euros ao Estado, mas
que vale muito mais em coesão nacional, em igualdade de oportunidades e em
dignidade.
E
deixo claro: esta proposta que apresentamos aqui é para resolver os problemas
de hoje, mas não chega.
Nos
próximos tempos, nós devemos estudar seriamente modelos alternativos, modelos
que mantenham os direitos dos residentes, modelos que sejam mais simples,
modelos que sejam financeiramente viáveis, modelos que não incentivem a
inflação de preços e tragam a concorrência.
Devemos também ter a coragem de discutir se não devem ser as próprias regiões autónomas, conhecedoras da sua realidade, a desenhar os seus modelos de transporte aéreo, cabendo ao Estado garantir o respetivo envelope financeiro, por exemplo, através de um fundo nacional de mobilidade.
Aplausos do PS.
Isto
é mais autonomia, com responsabilidade, é mais proximidade com os cidadãos, é
mais eficiência, com justiça.
Sr.as
e Srs. Deputados, nós hoje damos um passo essencial: corrigir o que está mal,
proteger direitos e afirmar um princípio simples. Ser português numa ilha não
pode significar ser português com menos direitos.
Deixo, por isso, um apelo aos Deputados do PSD e, em particular, aos Deputados eleitos pelos Açores e pela Madeira, para que acompanhem esta proposta do Partido Socialista e ajudem a corrigir o erro do Sr. Primeiro-Ministro, que escolham as suas terras, que escolham as pessoas e que apoiem esta medida.
Aplausos do PS.
O Sr. Presidente: — O Sr. Deputado tem um pedido de esclarecimento.
Sr. Deputado Pedro Pinto, do Chega, faça favor, para o pedido de esclarecimento.
O Sr. Pedro Pinto (CH): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, Sr. Deputado Francisco César, eu creio que, nesta Câmara, é das primeiras vezes que estamos de acordo.
O Sr. Mário Amorim Lopes (IL): — Claro!
O Sr.
Paulo Núncio (CDS-PP): — A primeira vez?!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Estamos de acordo em que existe um problema neste subsídio
de mobilidade e estamos de acordo…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Oh, tantas vezes!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Eu percebo que é um tema que incomoda muito o PSD, e por
isto este bruaá na bancada do PSD.
Aplausos
do CH.
Eu
estou ainda à procura dos Deputados das regiões autónomas, que estão ali atrás.
Eu esperava que eles falassem hoje. Eu espero que eles hoje falem, que tenha a
coragem de os meter a falar, que era para saber o que é que os Deputados das
regiões autónomas têm a dizer em relação a este subsídio de mobilidade. Este
subsídio de mobilidade tem três ii: injusto, indecente e inqualificável. É isto
que nós achamos sobre este subsídio de mobilidade.
Aplausos
do CH.
A
maneira de tratar madeirenses e açorianos é como portugueses não de segunda,
mas de terceira. A mobilidade é fundamental, para virem, inclusive, ao
continente, ao médico. Muitos deles têm consultas médicas no continente.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Muito bem!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Muitos deles vêm estudar. Os nossos jovens madeirenses e
açorianos vêm estudar para o continente e nós estamos a impedir isso.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Muito bem!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — E muitos vêm trabalhar. Eu sei que, nesta Casa, há muita
gente que não gosta de quem vem trabalhar.
Aplausos
do CH.
Aliás,
preferem dar subsídios aos imigrantes, que entram com as portas abertas no
nosso País, do que ajudar quem realmente precisa e quem vem da Madeira e dos
Açores trabalhar para o continente. Este Governo criou uma plataforma online
para receber o subsídio de mobilidade. Mas como é que vão os idosos da Madeira
e dos Açores…
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Ora aí está!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — … utilizar essa plataforma online? Até porque mais de 12 %
das pessoas, na Madeira e dos Açores, não têm acesso à internet.
Aplausos
do CH.
O
modelo que o Chega hoje aqui apresenta acaba com a burocracia e respeita a
mobilidade dos madeirenses e açorianos. Sr. Deputado Francisco César, a
pergunta que lhe faço é muito fácil e muito simples. Está nas mãos do PS se vai
estar ao lado da verdade, ao lado da razão de quem defende madeirenses e
açorianos, ou se vai estar ao lado de quem traiu as regiões autónomas, como foi
o caso do PSD.
Aplausos
do CH.
O Sr.
Presidente: — Tem a palavra o Sr. Deputado Francisco César.
O Sr.
Francisco César (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, é verdade, Sr.
Deputado Pedro Pinto, a situação do PSD é uma espécie de «Olívia patroa, Olívia
empregada». Aqui, os Srs. Deputados, sobretudo os das regiões autónomas, ouvem
o Primeiro-Ministro tratar os cidadãos das regiões autónomas como cidadãos de
segunda, como se o seu direito à coesão territorial, à continuidade
territorial, à mobilidade dentro do território, fosse algo transacionável. Isso
existe. Os senhores têm o direito, se pagarem ao Estado, de andar dentro do
próprio Estado.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Os senhores não têm direito nenhum!
O Sr.
Francisco César (PS): — E, na verdade,…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Zero!
O Sr.
Francisco César (PS): — … eles aqui aplaudem o Sr. Primeiro-Ministro, mas,
quando chegam às regiões autónomas,…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Zero!
O Sr.
Francisco César (PS): — … esquecendo todo esse trabalho, tudo aquilo que aqui
fizeram, fazem propostas exatamente no sentido contrário.
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Que lata!
O Sr.
Francisco César (PS): — Deviam ter vergonha. Em segundo lugar, todas as
alterações que foram feitas no Subsídio Social de Mobilidade não foram para
melhor. Foram no sentido de criar mais dificuldades burocráticas, foram no
sentido de criar um teto para quem viaja, que muitas vezes tem passagens com
valores superiores a 600 €;…
O Sr.
Paulo Núncio (CDS-PP): — E a palavra rigor?!
O Sr.
Francisco César (PS): — … e foram incapazes, aqui, de defender a sua terra e
preferiram o seguidismo partidário. Há algo que lhe posso garantir, independentemente
da força política: se defenderem os Açores, se garantirem e propiciarem aquilo
que são os direitos dos cidadãos das regiões autónomas, podem contar sempre com
o Partido Socialista para aprovar qualquer proposta, seja do Chega ou de outra
bancada.
Aplausos
do PS.
Protestos
do Deputado do PSD Hugo Soares e do Deputado do CH André Ventura
Para
uma intervenção, dava agora a palavra ao Sr. Deputado Francisco Gomes, do
Chega.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Tão simples
quanto isto — uma traição, uma traição!
Aplausos
do CH.
É
exatamente isso que este Governo fez a meio milhão de portugueses que vivem nas
autonomias. E não o fizeram com o mínimo de honra, não o fizeram com o mínimo
de dignidade — não! Fizeram-no com a covardia de uma portaria…
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Muito bem!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — … cozinhada na penumbra de um Conselho de Ministros…
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Muito bem!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — … e nas costas dos madeirenses.
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Grupo de trabalho, pá! Só dizes mentiras! Mentiroso!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Mas foram apanhados, foram apanhados…
Aplausos
do CH.
… e
vêm cá ouvir o que não querem ouvir. Vêm cá ouvir, olhos nos olhos — e é olhos
nos olhos! —, sem hesitação, sem medo, aquilo que vos queremos dizer muito
claramente, aquilo que vocês não querem ouvir — com as autonomias, vocês não
brincam! Com as autonomias, vocês não brincam!
Aplausos
do CH.
Porque
aquilo a que chamam Subsídio Social de Mobilidade foi sempre um sistema
inquinado, que transformou madeirenses e açorianos em fiadores. Fiadores de um
sistema que nunca pediram, que nunca quiseram, que nunca os serviu. Um sistema
que não foi criado para os proteger, mas para garantir bolsos cheios às
companhias aéreas. Tudo com a bênção do Estado, euro por milha.
Com
um euro por milha, o Estado fez da ligação Lisboa-Funchal a rota mais cara do
mundo. E à custa dos ilhéus, meteu mais de mil milhões — mil milhões! — numa
companhia que se diz de bandeira, mas despreza terras com 600 anos de história:
são 150 milhões para viagens de Ministros, mas põe as autonomias a pagar; 370
milhões para vadios de café, mas põe as autonomias a pagar; 400 milhões para a
ideologia de género, mas põe as autonomias a pagar!
Aplausos
do CH.
Enchem
a boca com autonomia, como vocês enchem a boca com autonomia. Mas sabem que
mais? Rasgaram o legado de Mota Amaral,…
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Vai treinar!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — … rasgaram o legado de Alberto João Jardim, e agora
sabem o que é que fazem? Tratam as ilhas como colónias de segunda — pura
vergonha, pura vergonha!
Aplausos
de Deputados do CH.
E vão
tão baixo, tão baixo, que usam esta portaria para fazer acertos com o fisco. Não
exigem certidões no passe Navegante, não exigem certidões nos cacilheiros, não
exigem certidões no
metro
de Lisboa, no metro do Porto, na CP (Comboios de Portugal), na Carris, mas aos
portugueses das ilhas tratam-nos aos pontapés.
Mas
enganam-se, enganam-se porque está cá o Chega, que traz a esta Casa um projeto
que exige três mudanças simples:…
Protestos
do Deputado do PSD Hugo Soares.
… que
se deixe de chamar subsídio ao que é um direito compensatório por via da
continuidade territorial; que se acabe com exigências que trancam ilhéus em
jaulas de mar; que madeirenses e açorianos paguem só, apenas e à cabeça, o
custo fixo de virem a um país que também é seu.
E
quem não compreende isto, quem não aceita isto, quem não vota a favor disto,
não pode estar sentado nesta Casa, porque como portugueses que são, madeirenses
e açorianos são também titulares da soberania que esta Casa exerce.
É em
nome desse povo que dizemos muito claramente: esta portaria não vai passar, não
vai passar!
Aplausos
do CH.
Porque
do Funchal a São Miguel, de Rabo de Peixe a Caniçal, do azul e amarelo
autonómico ao verde e vermelho patriótico, onde está um ilhéu, está um filho
deste País. Onde está um ilhéu, está um português que nunca se rende!
Aplausos
do CH, com Deputados de pé.
O Sr.
Presidente: — Dou a palavra ao…
O
Deputado do PSD Hugo Soares faz sinal à Mesa a pedir a palavra mediante um
estalar de dedos.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — É que ele não sabe fazer! Eu sei fazer, ele não sabe!
O Sr.
Presidente: — Para um pedido de esclarecimento, dou a palavra ao Sr. Deputado
Hugo Soares.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Olha, mas castanholas é assim…!
Neste
momento o Deputado do CH Pedro Pinto exemplifica com um estalar de dedos.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Sr. Presidente, Srs. Deputados, Sr. Deputado do Chega,
apenas uma pergunta…
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Ele tem um nome!
A
Sr.ª Rita Matias (CH): — Isto é indecente!
O Sr.
André Ventura (CH): — É Francisco Gomes!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Sr. Deputado do Chega, uma pergunta apenas…
O Sr.
André Ventura (CH): — A partir de agora vais começar a ser «Deputado do PSD»!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Ó Sr. Presidente, eu não consigo entender qual é o bruaá,
mas se me quiserem explicar, eu tenho toda a paciência do mundo para perceber.
Protestos
do CH.
O Sr.
Presidente: — O hábito de dirigir-se a um Deputado é também pelo nome, é só por
isso que penso…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Sr. Presidente, confesso que não me recordo do nome,…
Protestos
do CH.
… se
me recordar tenho todo…
O Sr.
Presidente: — Sr. Deputado Francisco Gomes…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Sr. Presidente, a Câmara sabe, se há coisa que eu faço é
respeitar as regras de todo o urbanismo e educação.
Protestos
do CH.
Com
franqueza, não sabia o nome do Sr. Deputado.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Pinóquio! Pinóquio!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Mas se dizer que eles são do Chega é uma ofensa, eu
lamento, eles são mesmo do Chega!
Aplausos
do PSD.
Quando
se dirigirem a mim, se me tratarem por «Sr. Deputado do PSD», isso é um
orgulho, é um orgulho, não há problema nenhum!
O Sr.
Presidente: — Sr. Deputado, não…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — A única pergunta para o Sr. Deputado Francisco, é a
seguinte…
Vozes
do CH: — Gomes!…
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — É lamentável!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — O Sr. Deputado,…
A
Sr.ª Rita Matias (CH): — Francisco Gomes!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — … do alto daquela tribuna, usou da palavra para dizer às
portuguesas e aos portugueses, às madeirenses e aos açorianos, o seguinte:
connosco a portaria não passará e em momento algum vai ser exigida uma
declaração ou o Governo deixará de pagar um subsídio de apoio a quem tiver
dívidas
fiscais.
Eu
queria perguntar ao Sr. Deputado apenas o seguinte: nas propostas do Chega,
onde é que terminam com essa exigência do Governo?
Aplausos
do PSD.
O Sr.
Presidente: — Para responder, tem a palavra o Sr. Deputado Francisco Gomes.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, Sr. Deputado
Hugo Soares,…
Vozes
do CH: — Muito bem!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — … começo por querer facilitar-lhe a vida: da próxima
vez que não souber o meu nome, é fácil, peça apenas para falar com o madeirense
mais autonomista desta Casa — sou eu e eu estou aqui!
Aplausos
do CH.
E
ouvi-lo falar trouxe-me à memória tanto ruído, muito ruído criado pelo líder do
seu partido, Primeiro-Ministro, quando vai à Madeira e nos brinda, da última
vez, com pérolas como esta: «a melhor maneira de combater a pobreza é criando
riqueza». La Palisse não diria melhor!
Risos
do Deputado do CH Pedro Pinto.
É o
nosso Primeiro-Ministro! Sabe, Sr. Deputado, há um problema,…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Zero! É zero!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — … é que na mesma visita vocês disseram: «Nós, no PSD
nacional, temos muito orgulho no PSD/Madeira.» Por isso é que cinco meses
depois estavam a comer de cebolada os vossos amigos na Madeira com esta
portaria.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Zero!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Mas já que não quer falar, se me permite, eu vou
deixar-lhe aqui um bom conselho. Vocês insistem sempre com a frase «deixem o
Luís trabalhar», só que há um problema, é que de cada vez que o Luís trabalha,
a Madeira enterra-se. Por isso era melhor que o Luís ficasse quietinho, em
casa, a ver a Sport TV, porque ficava tudo bem!
Aplausos
do CH.
Protestos
do PSD.
No
que toca à Madeira, e termino com isto, para ficarmos muito bem claros:…
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Qual é a proposta?!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — … nem o Sr. Deputado, nem a sua bancada nem o Sr.
Primeiro-Ministro têm nada para dar aos madeirenses — nada! E porquê? Porque
isto de ser autonomista não é para todos, não é para todos. Como diria o povo,
e como diz tão bem o povo, «quem nasceu para lagartixa nunca chega à jacaré!» —
nunca!
Aplausos
do CH.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — A seguir trato disto! Já resolvi a primeira parte!
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Qual é a proposta?!
A
Sr.ª Rita Matias (CH): — Agenda-a no dia!
Protestos
do PSD.
A
Sr.ª Rita Matias (CH): — Quem é o mal-educado cá da Casa?
O Sr.
Presidente: — Agora, para uma intervenção, vou dar a palavra ao Sr. Deputado
Filipe Sousa, do JPP, que dispõe de apenas 2 minutos e precisa de os aproveitar
bem. Para esse efeito é preciso que a Câmara ouça com atenção e com o mesmo
respeito que a qualquer outro Sr. Deputado.
Sr.
Deputado Filipe Sousa, faz favor, tem 2 minutos.
O Sr.
Filipe Sousa (JPP): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: O que hoje aqui
discutimos não é apenas mobilidade aérea — é respeito, é dignidade, é igualdade
entre portugueses.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Muito bem!
O Sr.
Filipe Sousa (JPP): — O Governo criou uma plataforma que prometia simplificar,
mas conseguiu complicar. Prometeu justificar, mas entregou burocracia. Prometeu
libertar os insulares, mas continua a tratá-los como fiadores do Estado.
Os
madeirenses, porto-santenses e açorianos não são portugueses de segunda, não
vivem num regime experimental, não estão à espera da boa vontade de Lisboa, não
querem plataformas; querem, acima de tudo, respeito pelas autonomias e pelo
princípio da continuidade territorial
E o
que vemos? Um PSD/Madeira obediente às cúpulas partidárias e um governo
regional completamente submisso, aplaudindo regimes transitórios. Regimes
transitórios são a institucionalização da dependência, são a normalização da
desigualdade, são o pedido envergonhado daquilo que já é um direito. E cada vez
que
aceitamos
um modelo provisório transitório, estamos a aceitar uma cidadania provisória.
A
continuidade territorial não é um favor político — está na Constituição, é
obrigação do Estado e não é esmola administrativa.
O JPP
apresentou uma solução clara, definitiva e responsável, que infelizmente não
mereceu a aprovação daqueles que agora defendem plataformas e regimes
transitórios. Dava previsibilidade às companhias aéreas e estabilidade às
agências de viagens. Mereceu parecer favorável da DECO (Associação Portuguesa
de Defesa do Consumidor) e algumas companhias aéreas estavam dispostas a
dialogar. Isso sim, é ambição política. Tudo o resto é resignação e submissão
ao centralismo de Lisboa.
Por
isso, não aceitamos uma igualdade a prestações. Não aceitamos uma autonomia
tutelada. Não aceitamos que os direitos dos insulares dependam de soluções
provisórias, porque quando um direito é transitório, a igualdade também é. E o
JPP, Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, não aceita igualdade a prazo.
O Sr.
Presidente: — O Sr. Deputado tem um pedido de esclarecimento,…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Retórico…
O Sr.
Presidente: — … não tem é tempo disponível para responder.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Peça ao PS, que eles são amigos!
O Sr.
Presidente: — De qualquer maneira, poderá vir a responder por outra forma,
outra via, que não aqui no Plenário.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Ou então peça ao Livre, que não tem nada para dizer!
A
Sr.ª Rita Matias (CH): — Também tiveram um resultado miserável!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Tiveram 300 votos na Madeira!
O Sr.
Presidente: — Entretanto, a Mesa foi informada de que houve uma cedência de
tempo de 1 minuto, do Livre para o JPP.
Agora
sim, para um pedido de esclarecimento, tem a palavra a Sr.a Deputada Idalina
Durães, dispondo de 2 minutos.
A
Sr.ª Idalina Durães (CH): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, estamos
aqui, uma vez mais, a discutir um remendo num sistema que nasceu torto. É disso
exemplo do Decreto-Lei n.º 37-A/2025, sendo o exemplo perfeito da
insensibilidade do decisor político instalado em Lisboa perante os cidadãos das
Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Muito bem!
A
Sr.ª Idalina Durães (CH): — Prometeram simplificação, mas entregaram apenas
burocracia. Prometeram justiça, mas entregaram uma plataforma digital que
exclui os nossos idosos. E quanto às regras fiscais, essas então, são surreais,
tendo em conta que tratam o passageiro como um criminoso sob suspeita perante a
devassa da vida privada.
O
Chega não aceita esta devassa, que até pode mesmo comparar-se como sendo um Big
Brother da mobilidade. É vergonhoso, é humilhante quando os cidadãos das
regiões autónomas têm de pedir autorização às Finanças ou à Segurança Social
para exercerem o seu direito constitucional à mobilidade.
Enquanto
os partidos do sistema se perdem em trapalhadas e regulamentos que entendem, os
cidadãos insulares continuam a ser obrigados a financiar o Estado, adiantando
centenas de euros para, passados alguns meses, mendigar um reembolso.
Ouvimos
aqui o JPP alertar para denúncias e pedidos de inconstitucionalidade, mas a
verdade é que, no momento da decisão, o ruído que se faz não se traduz em
soluções reais para quem está na fila dos CTT (Correios de Portugal), e os
cidadãos madeirenses e açorianos continuam a ser espoliados nas bilheteiras.
Termino,
por isso, com uma questão ao Sr. Deputado Filipe Sousa. O vosso partido diz
defender o povo, mas depois de meses a gritar contra este diploma e de verem as
vossas propostas de preço fixo serem sucessivamente reprovadas por falta de
viabilidade financeira e política, o que é que o JPP tem a dizer aos
madeirenses, que continuam a pagar valores de 400 ou 500 € por um bilhete, porque
a vossa retórica não conseguiu travar, nem um milímetro, esta trapalhada do
Governo?
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Muito bem!
Aplausos
do CH.
O Sr.
Presidente: — O Sr. Deputado tem 46 segundos, mais os 15 de tolerância, para
responder.
O Sr.
Filipe Sousa (JPP): — Sr. Presidente, Sr. as e Srs. Deputados, Sr.ª Deputada
Idalina Durães, agradeço a sua frontalidade e a sua questão.
Como
sabe, o JPP, desde a primeira hora, tem vindo a defender que os cidadãos
portugueses residentes nas ilhas paguem somente a componente que lhes diz
respeito. Daí que nós tenhamos construído uma proposta completamente coerente
com o princípio de que há pouco falei, que, infelizmente, como disse ali da
tribuna, não mereceu a aprovação desta Casa. Mas não desistimos, tanto mais que
temos já em apreciação um novo diploma legal, que vai precisamente neste
sentido e, de uma forma responsável, nós temos vindo, aos poucos, a criar aqui
uma alternativa que faça com que o Governo perceba a nossa condição de sermos
ilhéus e os nossos constrangimentos. É dessa forma que eu estou aqui, nesta
Casa, para construir, não para destruir, e acredito muito sinceramente que o
Governo, mais tarde ou mais cedo, irá ceder nesta nossa pretensão. É aquilo por
que anseio, Sr.ª Deputada,…
Por
ter excedido o tempo de intervenção, o microfone do orador foi automaticamente
desligado.
O Sr.
Presidente: — Sr. Deputado, está dado o esclarecimento. Tem a palavra o Sr.
Deputado Jorge Pinto, do Livre, para uma intervenção.
A
Sr.ª Rita Matias (CH): — Quantos votos é que o Jorge Pinto teve nas regiões
autónomas?
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Ah, o Manuel João Vieira? Teve p’raí 200 votos!… E o Jorge
vai levar horas a falar, mas eu não posso falar nisso!…
O Sr.
Jorge Pinto (L): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, Caros Concidadãos
nas galerias: Este é um assunto importante que, uma vez mais, volta a esta
Câmara e por uma boa razão. E é por isso que importa olhar para aquilo que o
subsídio social de mobilidade deveria ser, ou deveria verdadeiramente ser: um
instrumento de coesão territorial, de materialização do princípio de
continuidade territorial do nosso País; um subsídio pensado e colocado em
prática para compensar o custo acrescido de viver numa região ultraperiférica
e, com isso, garantir o direito à mobilidade.
No
entanto, transformar a mobilidade num mecanismo indireto de coerção fiscal é
algo com o qual não podemos concordar. Alguém aceitaria, por exemplo, que para
ter acesso ao passe ferroviário verde a 20 €, as pessoas tivessem de declarar
não dívidas à Autoridade Tributária ou à Segurança Social? Ou o mesmo para ter
direito a um passe para maiores de 65 anos ou ao passe Navegante? Evidentemente
que não aceitaríamos. E isto — e esperando não dar ideias ao Governo — é o que
está a acontecer nas regiões autónomas.
Tratar
o subsídio social de mobilidade de forma diferente é, portanto, criar uma
diferenciação relativamente a quem vive nas regiões autónomas e já tem
condicionalismos, e não são poucos, no acesso à educação, à saúde e ao
trabalho. E, no nosso entender, o Estado está atualmente a usar a sua posição
de regulador e financiador no mercado essencial, como é o transporte aéreo
insular para impor sanções colaterais a devedores, e isto é abusivo, vindo de
quem está numa posição institucional dominante.
Como
tal, este modelo de subsídio social de mobilidade continua a tratar a
mobilidade como um problema a resolver, em vez de o assumir como um verdadeiro
direito à cidadania, direito esse certamente aplicável para quem vive nas
regiões autónomas.
O Sr.
Nuno Gabriel (CH): — Óbvio!
O Sr.
Jorge Pinto (L): — E é por isso que esta alteração é uma alteração
significativa ao modelo universal vigente, tratando-se de uma medida
regressiva, profundamente injusta, num mecanismo que se pretende de compensação
territorial, gerador de oportunidades e não associado à capacidade económica ou
condicionado pela regularidade dos pagamentos do beneficiário ao Estado.
Este
Governo afirmou, várias vezes, que iria tornar o subsídio de mobilidade mais
justo, mais rápido, mas aquilo que temos visto é tudo menos isso. Em vez de um
regime claro num só diploma, temos uma manta de retalhos, um decreto-lei
inicial que determina um novo modelo, um decreto-lei a seguir que altera este
decreto-lei original e portarias que introduzem requisitos novos avulso e que
mudam radicalmente as regras de acesso ao subsídio de mobilidade que funciona,
com as suas fragilidades, é certo, desde 2015. E esta retórica da simplificação
que ouvimos em cada intervenção do Governo contrasta, e muito, com a
experiência material de quem tenta aceder ao subsídio. A cada portaria ou a
cada novo decreto-lei ajusta-se o modelo e acrescentam-se camadas de incerteza,
conceitos que deveriam ter sido claros desde a primeira hora, deveres
adicionais introduzidos à má-fila e uma plataforma eletrónica, que, apesar de
nos parecer uma boa ideia, teima em não querer ficar operacional.
O Sr.
Alexandre Poço (PSD): — Já está!
O Sr.
Jorge Pinto (L): — E mais, um ponto importante e já aqui trazido hoje, a
transição digital. Por mais importante que seja, ela não pode nunca ser feita à
custa daqueles que têm menos literacia digital, menos recursos ou que vivem em
contextos mais vulneráveis, nomeadamente as pessoas mais idosas. Trata-se de um
complemento necessário para que a digitalização não se transforme numa nova
barreira de acesso a direitos, mas sim num aumento das possibilidades. Este é,
aliás, um dos pontos resolutivos que o Livre introduziu no seu projeto de
resolução no início de janeiro e ao qual hoje aqui voltamos. Mais, neste nosso
projeto de resolução, o Livre acompanha muitas das preocupações e também das
soluções apresentadas aqui, hoje, nos projetos de lei trazidos à discussão
pelas assembleias legislativas das duas regiões autónomas, nomeadamente no que
diz respeito à reversão da condição de acesso e de inexistência de dívidas
fiscais; a necessidade de assegurar canais presenciais de atendimento; o
funcionamento pleno da plataforma eletrónica e a necessidade de suprir o vazio
legal que se observou entre 1 e 6 de janeiro de 2026. E é por isso mesmo que
iremos acompanhar estas iniciativas e também o debate na especialidade.
Por
fim, um ponto não menos importante, o do reembolso. Enquanto este modelo
assentar no pagamento do reembolso a posteriori, continuará a ser injusto e
pouco funcional para muitas famílias. Um verdadeiro subsídio social de
mobilidade justo deve operar à cabeça. No momento da compra, o residente
deveria pagar apenas o valor final que lhe corresponde, ficando o acerto entre
o Estado e a transportadora resolvido entre dois intervenientes, que têm, à
partida, mais liquidez e a capacidade de lidar com atrasos e burocracia.
Em
resumo, estamos aqui hoje a discutir coesão territorial, continuidade
territorial e justiça. Esperemos que saibamos fazer justiça para com os nossos
concidadãos das regiões autónomas.
Aplausos
do L.
O Sr.
Presidente: — Tem a palavra o Sr. Deputado Carlos Pereira, do Partido
Socialista, para uma intervenção.
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — Sr. Presidente, Sr. as e Srs. Deputados: Devo dizer que
estou algo estupefacto com este debate.
Vozes
do PSD: — Ah!…
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — E começo por dizer que não compreendo a ausência do
Governo no debate.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Ora aí está!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — Estamos perante uma apreciação parlamentar de algo
extremamente importante, que implica 500 000 portugueses. São 500 000
portugueses que vivem nas regiões autónomas, a meio do Atlântico, um tema
estrutural, e o Governo decide não estar presente.
Aplausos
do PS.
Este
é, aliás, o primeiro aspeto negativo deste debate, mas não é o único. Fiquei
sentado deliberadamente mais tempo do que estava à espera,…
O Sr.
Alexandre Poço (PSD): — Uh!…
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — … porque fiquei à espera de que os Deputados do PSD da
Madeira e do PSD dos Açores estivessem sentados na primeira fila,…
Vozes
do PS: — Ora bem!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — … para discutir um tema que interessa à Madeira,
interessa aos madeirenses e interessa àqueles que eles dizem representar.
Aplausos
do PS.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Ora bem!
O Sr.
Sérgio Ávila (PS): — E os açorianos!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — Sr. as e Srs. Deputados do PSD da Madeira e do PSD dos
Açores,…
O Sr.
Hugo Soares (PS): — Do PSD são só seis!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — … este debate só está a existir, porque o Governo que os
senhores apoiam, o Governo da AD (Aliança Democrática), puxou o tapete aos
madeirenses e aos açorianos no que diz respeito ao subsídio de mobilidade.
Aplausos
do PS.
Os
senhores implementaram um modelo que é pior do que o que estava e disseram que
era melhor. É muito pior em relação à burocracia, às condições, aos apoios. E o
que nós esperávamos era que os senhores se sentassem na primeira fila, para
defender aqueles que os elegeram.
O Sr.
Sérgio Ávila (PS): — Oiçam! Oiçam!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — O que esperávamos era que o Sr. Deputado Paulo Moniz, o
Sr. Deputado Francisco Pimentel, o Sr. Deputado Paulo Neves, o Sr. Deputado
Pedro Coelho e a Sr.ª Deputada Vânia Jesus, se sentassem na primeira fila para
defenderem os madeirenses e os açorianos.
Aplausos
do PS.
Protestos
do Deputado do PSD Paulo Moniz.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Seis, seis!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — É absolutamente lamentável e fica demonstrado que o PSD
da Madeira e o PSD dos Açores transformaram-se em sucursais da AD na Assembleia
da República.
Aplausos
do PS.
O que
é preciso perguntar, Sr. Deputado Hugo Soares, é quem é que os colocou lá
atrás: foi o Miguel Albuquerque ou foi o Sr. Deputado Hugo Soares?
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Seis!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — Quem é que os colocou nas terceira, quarta e quinta
filas? Foi o Sr. Deputado Hugo Soares ou foram os governos da Região Autónoma
da Madeira e dos Açores? Aliás, Srs. Deputados do PSD/Madeira, eu não resisto:
o Presidente do governo regional escreveu: «Albuquerque diz que declarações de
Montenegro sobre subsídio de mobilidade são ofensivas.»
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Foi preciso vir um Deputado de Setúbal defender o Miguel
Albuquerque!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — Ora bem, Srs. Deputados, Srs. Deputados do PSD da
Madeira, Paulo Neves, Pedro Coelho e Vânia Jesus, se o Presidente do Governo
Regional da Madeira, Presidente do PSD da Madeira,…
A
Sr.ª Rita Matias (CH): — E do Chega?!…
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — … diz que as declarações são ofensivas, porque é que os
senhores não estão aqui, na primeira fila, a defender os madeirenses e a
sublinhar que elas são mesmo ofensivas?
Aplausos
do PS.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — São seis! Seis!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — Portanto, Sr. Presidente, Sr. as e Srs. Deputados, hoje
estamos perante um debate atípico, um debate em que aqueles que têm de defender
a Madeira e os Açores se esconderam. Estão de cócoras perante a AD, estão de
cócaras perante Luís Montenegro, estão de cócoras perante Hugo Soares, que os
colocou lá atrás para não falarem, para não defenderem aquilo que interessa.
Aplausos
do PS.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — O senhor foi para Setúbal! Foi para Setúbal defendê-los?!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — O Sr. Deputado Hugo Soares está perturbado, porque mesmo
um Deputado de Setúbal é capaz de vir para a primeira fila defender os
madeirenses, enquanto os Deputados da Madeira ficam na última fila.
Aplausos
do PS.
O Sr.
Deputado está preocupado com isso, eu não estou. Eu defenderei sempre a Madeira
desde que ela esteja em causa. E os senhores, o vosso Governo, o Sr. Deputado
Hugo Soares…
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — E onde está o Cafôfo?…
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — … colocou em causa aquilo que era a mobilidade para a
Madeira e para os Açores. Portanto, fico à espera, porque o debate ainda não
acabou, que os Deputados que referi venham para a primeira fila e façam o que
têm de fazer, que é defender a Madeira e os madeirenses.
Aplausos
do PS.
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Essa é que é a vossa grande preocupação?!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — O senhor foi para Setúbal! Foi preciso ir para Setúbal
para concordar com o Miguel Albuquerque!
O Sr.
Presidente: — Tem a palavra a Sr.ª Deputada Ana Martins, do Chega, para uma
intervenção. Faça favor.
A
Sr.ª Ana Martins (CH): — Sr. Presidente, Srs. Deputados: O subsídio social de
mobilidade é um instrumento de política pública que concretiza o princípio da
unidade nacional num Estado territorialmente descontínuo. Não é uma política
setorial, mas sim um dever constitucional, estrutural e profundamente político,
que toca o núcleo da coesão nacional e a condição de cidadania plena.Cerca de
11 anos passados desde a sua criação, pergunto-me: este novo modelo representa
uma mudança de paradigma? Não, pelo contrário, o Estado continua a não garantir
diretamente a mobilidade e transfere para os cidadãos o ónus financeiro e
administrativo.
Temos
um sistema centralizado, digitalmente dependente, com critérios administrativos
vagos, prazos de reembolso não vinculativos e procedimentos que ignoram a
realidade social das regiões autónomas.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Muito bem!
A
Sr.ª Ana Martins (CH): — Estamos perante uma violação do princípio de igualdade
material, porque penaliza os cidadãos com menor capacidade financeira e menor
literacia digital. Uma avaliação do princípio da continuidade territorial, ao
criar obstáculos económicos e administrativos ao exercício da mobilidade. Uma
avaliação do princípio da administração de proximidade, discriminando as
populações idosas e mais isoladas.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Muito bem!
A
Sr.ª Ana Martins (CH): — E, mais grave, este Governo decidiu que acompanhar uma
criança doente, um adulto ou um idoso para tratamento fora da região é um luxo
administrativo. Não o reconhecem como categoria protegida, neste novo modelo.
Tratam o acompanhante como um passageiro comum, violando os direitos
constitucionais de direito à saúde, proteção da família e da dignidade da
pessoa humana.
As
múltiplas iniciativas apresentadas, hoje, perante esta Câmara, são, para o
Chega, um sinal político inequívoco.
Aplausos
do CH.
O
modelo centralista imposto pelo Governo falhou.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Muito bem!
A
Sr.ª Ana Martins (CH): — Falhou porque foi concebido sem um diálogo
institucional sério com o governo regional. Falhou porque ignora a realidade
socioeconómica e demográfica das ilhas. Falhou porque viola princípios
constitucionais estruturantes.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Muito bem!
A
Sr.ª Ana Martins (CH): — O Chega defende uma política de mobilidade que une o
País e respeita a autonomia. Um modelo simples, previsível, garantindo que
nenhum português é discriminado pela sua localização geográfica e com garantia
efetiva de igualdade material.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Muito bem!
Aplausos
do CH.
O Sr.
Presidente: — Tem a palavra a Sr.ª Deputada Marta Patrícia Silva, da Iniciativa
Liberal, para uma intervenção.
A
Sr.ª Marta Patrícia Silva (IL): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Hoje
falamos do subsídio social de mobilidade para as regiões autónomas da Madeira e
dos Açores, um instrumento que nasceu com um propósito claro, garantir a
continuidade territorial, reforçar a igualdade de oportunidades e afirmar que a
mobilidade é, também, uma expressão concreta de liberdade. Mas aquilo a que
assistimos, com a entrada em vigor da Portaria n.º 12-A/2026/1, de 6 de
janeiro, que regula o acesso a este direito, não foi um mero ajuste técnico.
Foi uma inversão política do espírito da lei.
O
Governo liderado por Luís Montenegro aproveitou um instrumento regulamentar,
que deveria servir para simplificar e reduzir o período de reembolso, para
passar a restringir o acesso e criar novas barreiras. E fê-lo, impondo aos
cidadãos das regiões autónomas um critério que transforma um direito num
privilégio condicionado, transformando-os em reféns da sua própria
insularidade.
Vamos
por partes.
Primeiro,
direitos não são prémios de comportamento.
O Sr.
Mário Amorim Lopes (IL): — Muito bem!
A
Sr.ª Marta Patrícia Silva (IL): — Direitos são garantias constitucionais e
condicionar a mobilidade territorial ao cumprimento fiscal é misturar planos
que a Constituição separa — o plano das obrigações com o plano das liberdades.
O Sr.
Mário Amorim Lopes (IL): — Muito bem! Isso mesmo!
A
Sr.ª Marta Patrícia Silva (IL): — Aliás, a reação institucional das regiões
autónomas foi clara. Tanto os representantes dos Açores como da Madeira, em
sede de comissão e na emissão de parceiros formais, manifestaram indignação e
rejeição perante um instrumento que consideram lesivo dos direitos dos seus
cidadãos. E quando duas regiões autónomas convergem na crítica, talvez o
problema não esteja nelas.
Srs.
Deputados, imaginem um residente de Bragança ser impedido de viajar até Lisboa
por ter dívidas à Autoridade Tributária e à segurança social. Com toda a
certeza, tal iria gerar uma imensa indignação por parte de todos nós.
Em
segundo lugar, e sobre a nova plataforma, reconhecemos o esforço que tem sido
feito na elaboração da mesma, mas este é um exemplo clássico de como a
burocracia pode destituir um direito sem o revogar.
Plataformas
que não funcionam, procedimentos confusos e reembolsos demorados, tudo isso
cria um labirinto administrativo que exclui, precisamente, quem mais precisa,
sobretudo quando falamos das duas regiões do País com maior risco de pobreza.
Já
agora, permitam-me, Srs. Deputados, também não podemos deixar de reforçar que
este é o Governo que tem como bandeira a reforma do Estado, que visa, entre
outros, simplificar processos e que, nesta proposta de plataforma, exige que um
cidadão tenha de se tornar um especialista administrativo para poder viajar
dentro do seu próprio País. Se esta for a regra, bem, não haverá reforma de
Estado alguma, algo que começa a ficar claro para todos os portugueses e que, a
nós, na Iniciativa Liberal, já tínhamos como certeza.
Em
terceiro lugar, ao auscultar a população e responsáveis que estiveram presentes
nas audições, resulta claro que todos almejam mesmo:…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Nunca foi a plataforma!…
A
Sr.ª Marta Patrícia Silva (IL): — … evoluir para um modelo de tarifa justa,
transparente e conhecido à partida. Um sistema previsível que proteja os
passageiros, reduza encargos administrativos, mas que não coloque em cima das
companhias aéreas uma responsabilidade que é, única e exclusivamente, do
Estado.
Por
fim, mas não menos importante, é imperativo criar um sistema que promova a
entrada de novas companhias, que estimule rotas concorrenciais e que imponha
transparência tarifária. Onde há concorrência real, há preços mais baixos,
melhor serviço e mais inovação.
Sr.as
e Srs. Deputados, a mobilidade aérea das regiões autónomas não pode nunca ser
vista como um privilégio condicionado pelo Estado. É um direito dos portugueses
insulares e, por isso mesmo, a Iniciativa Liberal apresenta um conjunto de
propostas de alteração que visam dar resposta aos problemas anunciados
anteriormente, reforçando o nosso compromisso de aproximar o País e deixando
claro que não há portugueses a serem tratados como reféns.
O Sr.
Mário Amorim Lopes (IL): — Muito bem!
A
Sr.ª Marta Patrícia Silva (IL): — Queremos uma maior agilidade no reembolso e
garantias de que todos os mecanismos introduzidos melhoram, de facto, a vida
dos portugueses. Garantir não é complicar, garantir é assegurar que funciona, é
assegurar que todos têm acesso e é assegurar que os Açores e a Madeira integram
de forma plena o resto do País.
Aplausos
da IL.
O Sr.
Presidente: — Chegamos àquele momento, de alguma ansiedade, que é o de não ter
inscrições e, ao não ter inscrições, e ao falar devagar, para ver se alguém se
inscreve, normalmente o telefone toca…
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Normalmente!
O Sr.
Presidente: — Vou jogar ao Euromilhões esta semana.
Sr.ª
Deputada Inês de Sousa Real, tem a palavra para uma intervenção. Faça favor.
A
Sr.ª Inês de Sousa Real (PAN): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados:
Agradeço, desde já, a apreciação parlamentar apresentada, não só porque,
efetivamente, discutimos muitas vezes a necessidade de diminuirmos as
assimetrias regionais que persistem em relação às regiões autónomas, mas porque
não nos podemos esquecer de que, neste caso, a mobilidade e o próprio subsídio
têm um objetivo muito concreto, não só visando diminuir essas assimetrias.
Também
importa relembrar que há um caminho próprio, que o mesmo tem sido feito ao
longo dos anos e que várias iniciativas já aqui foram apresentadas. Mas este
mecanismo, que deveria estar assente numa maior coesão territorial, tem, neste
momento, algumas barreiras ao seu acesso, nomeadamente perante a lógica, até,
de reembolso; mas também ao não permitir que pessoas com dívidas tenham acesso
ao mesmo, excluindo o acesso seja em matéria de educação ou, até mais
relevante, em matéria de tratamentos e de saúde, porque, bem sabemos, nas
regiões autónomas nem sempre têm esta possibilidade.
Ora,
aquilo que ainda não ficou claro neste debate, é se, efetivamente, as demais
forças políticas, em particular a bancada do PSD, está disponível para que, em
especialidade, seja feito este caminho, ou seja, melhorar aquilo que neste
momento são limites a todos os nossos concidadãos, em particular das regiões
autónomas, para que este aspeto fundamental da mobilidade e da igualdade de
oportunidades possa ser efetivamente posto em prática e não ser apenas um mero
princípio que, de alguma forma, depois, não se traduz nesta alteração.
Da
parte do PAN, cientes de que temos acompanhado desde o início aquelas que têm
sido as melhorias a este regime, acompanhamos favoravelmente, como é evidente,
os próprios diplomas que estão em vigor, mas com a consciência de que eles têm
de ser melhorados.
Portanto,
não está em causa aquilo que já é um direito. Aquilo que está em causa é o seu
aprofundamento para garantir que chegue, efetivamente, a quem mais precisa.
O Sr.
Presidente: — Tem a palavra, para uma intervenção, o Sr. Deputado Fabian
Figueiredo, do Bloco de Esquerda.
O Sr.
Fabian Figueiredo (BE): — Sr. Presidente: O Governo tinha prometido reformar o
subsídio social de mobilidade, mas em vez de consagrar um direito, consagrou
uma barreira, um percurso de obstáculos, que, esperamos nós, hoje tenha o seu
fim aqui consagrado.
Mantém-se,
antes de mais, uma barreira de liquidez incompreensível, que faz com que nas
regiões autónomas, nos Açores e na Madeira, vigore um esquema do «pague
primeiro e reze pelo reembolso»,transformando uma viagem de uma família de
quatro pessoas num verdadeiro investimento financeiro de luxo, em vez da
consagração do exercício de um direito.
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — É mentira!
O Sr.
Fabian Figueiredo (BE): — Segundo, introduz-se uma estranha exigência fiscal.
Há uns dias, ouvimos os Deputados do PSD e do CDS, dizendo que iriam
uniformizar a data para o pagamento do IUC (imposto único de circulação). Um
cidadão das regiões autónomas que tem uma dívida à Autoridade Tributária,
porque se enganou com a data do IUC passa a não poder aceder ao subsídio social
de mobilidade. Isto não faz nenhum sentido.
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Isso é mentira!
O Sr.
Fabian Figueiredo (BE): — A mesma coisa, já agora, Sr. Deputado João Almeida,
que está tão interveniente nos apartes, acontece com um cidadão que trabalhe
por recibos verdes, que tenha tido um problema com a segurança social, como
acontece tão frequentemente, também passa a não poder aceder ao subsídio de
mobilidade.
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Falso! Falso!
O Sr.
Fabian Figueiredo (BE): — Isto não faz nenhum sentido!
Se
não é pedido a nenhum cidadão da Área Metropolitana de Lisboa, ou do Porto, uma
declaração de não-dívida, porque é que há de ser exigido a um cidadão dos
Açores e da Madeira,…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Também não é exigido!
O Sr.
Fabian Figueiredo (BE): — … quando se trata do elementar exercício do direito
de mobilidade e do elementar exercício de um direito que um cidadão da
República Portuguesa tem, de direito à continuidade geográfica e territorial?
Não deve ser submetido.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Isso é diferente!
O Sr.
Fabian Figueiredo (BE): — Portanto, esperamos que esta inovação regulamentar,
por parte do Governo, tenha hoje os dias contados e que se restabeleça a ponte
aérea entre o continente e as regiões autónomas e se acabe com a portagem de
luxo que PSD e CDS lhe introduziram.
O Sr.
Presidente: — Segundo round para as inscrições. Bom, seria uma surpresa não ter
um telefone a tocar,…
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Exatamente!
O Sr.
Presidente: — … mas também não quero forçar os Srs. Deputados a falarem.
Portanto, vamos para o encerramento.
Pausa.
A
Sr.ª Deputada Paula Santos pretende intervir, mas está a tirar uma cópia, pelo
que esperamos que venha a cópia.
O Sr.
Fabian Figueiredo (BE): — Não tem impressora!
O Sr.
Presidente: — Estou convencido de que o Partido Socialista não se importa que
seja a Sr.ª Deputada a falar em primeiro lugar.
O Sr.
Rodrigo Alves Taxa (CH): — São muito amigos!
O Sr.
Presidente: — Devo dizer que o PCP nunca deixa de estar no momento certo, na
hora certa, com rigor habitual,…
O Sr.
Paulo Núncio (CDS-PP): — Exceto no debate do 25 de Novembro, em que não
apareceu!
O Sr.
Presidente: — … portanto, tenho tolerância, pois depende da impressora, não
depende do PCP.
Já
pode? Então, Sr.ª Deputada Paula Santos, faça favor, tem a palavra para uma
intervenção.
A
Sr.ª Paula Santos (PCP): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: A indignação
que se levantou na sequência dos diplomas aprovados pelo Governo, que
condicionaram o acesso dos cidadãos ao subsídio social de mobilidade, tem toda
a razão de ser. É como se, afinal, esses cidadãos não o fossem de pleno
direito. Caso algum litígio se verificasse com as finanças, perdiam o direito à
mobilidade. Querer colocar como condição para aceder ao subsídio social de
mobilidade não ter dívidas às finanças e à segurança social é inadmissível. Em
mais nenhum lugar do País isso se verifica. No território continental, os
cidadãos que adquirem o passe não têm de comprovar que não têm dívidas ao
Estado. Porque é que os cidadãos das regiões
autónomas têm de o fazer para se deslocarem ao território continental para
estudar, trabalhar ou ir a uma consulta? É injusto e constitui uma
discriminação para quem reside nas regiões autónomas.
Entretanto,
a resposta do PS e do Chega foi suscitar a apreciação parlamentar de um outro
decreto, de 2026, procurando aproveitar para alterar essa norma. Já a proposta
de lei da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, em apreciação,
responde diretamente a esse problema e pode, aliás, ser integrada no processo
legislativo que decorre nesta Assembleia. Quanto à proposta da Assembleia
Legislativa da Região Autónoma da Madeira, apesar de ter propósitos e objetivos
meritórios, depois define mecanismos que se tornam mais complexos e
redundantes.
A
melhor opção está à vista. É o projeto de lei do PCP, tendo, aliás, em conta as
conclusões dos debates já realizados. Melhor uma lei justa, que seja aplicada,
do que mil discussões e iniciativas que se arrastem.
Aqui
chegados, não deixaremos de intervir neste processo para remover as injustiças
e, perante o decreto-lei que está em apreciação, o PCP irá propor alterações
para assegurar que o acesso ao subsídio social de mobilidade não fique
condicionado à apresentação de comprovativos de não dívida dos cidadãos
beneficiários ao Estado, mas também com alterações no texto do diploma,
propondo que se elimine a norma que coloca a AT (Autoridade Tributária) a fazer
cobranças coercivas, em sede de processo tributário, aos cidadãos em casos de
devolução por pagamento indevido.
Importa
não perder de vista que, neste momento, na Assembleia da República, está a
decorrer a discussão na especialidade do projeto de lei do PCP, que responde
aos problemas que são sentidos, há anos, pelas populações das Regiões Autónomas
dos Açores e da Madeira. A proposta que o PCP apresentou, e que foi aprovada em
Plenário, é de elementar justiça: permitir que o beneficiário que cumpra os
critérios legais possa adquirir o bilhete, já com o subsídio social de
mobilidade descontado no momento da compra.
Neste
debate reafirmamos o essencial. Não é justo que os beneficiários tenham de
pagar o valor total da viagem, para só mais tarde serem ressarcidos. É preciso
acabar com esta penalização que, atualmente, recai sobre as populações e que
muitas delas não podem, de forma alguma, assumir. Por outro lado, também
reafirmamos que não pode ser ignorado o problema de fundo, ou seja, o grave
problema lesivo do interesse nacional, que resulta da liberalização do
transporte aéreo neste contexto, desde logo com a subsidiação em milhões de
euros, por dinheiro público, de companhias aéreas nacionais, para mitigar o
impacto das tarifas exorbitantes para as populações e residentes.
É
incontornável a necessidade de uma opção política que faça prevalecer o
interesse público e que salvaguarde uma oferta de serviço público, desde logo,
defendendo e mobilizando os recursos e as capacidades das companhias aéreas TAP
(Transportes Aéreos Portugueses) e SATA (Serviço Açoriano de Transportes
Aéreos).
O
Governo PSD/CDS e algumas entidades na sua órbita estão muito preocupados com
os interesses de algumas companhias e não querem que o projeto de lei do PCP vá
por diante. Talvez por isso, estamos, desde julho do ano passado, com um
processo na especialidade que se vai arrastando na Comissão desde que o nosso
projeto de lei foi aprovado na generalidade, em Plenário, e que teve o voto
contra do PSD e do CDS.
O que
PS, PSD, CDS, Chega, IL e JPP chamam de «benefícios de concorrência» está bem à
vista: é o oligopólio de algumas companhias…
A
Sr.ª Angélique Da Teresa (IL): — Ah!…
A
Sr.ª Paula Santos (PCP): — … que utilizam a liberalização do transporte aéreo
para fazerem da coesão territorial um verbo de encher,…
O Sr.
Mário Amorim Lopes (IL): — Sempre a mesma coisa!
A
Sr.ª Paula Santos (PCP): — … para espremerem os cofres do Estado e as carteiras
dos açorianos, madeirenses e porto-santenses.
Os
que tanto falam do dinheiro dos contribuintes não hesitam, afinal, em manter,
custe o que custar, um sistema que canaliza milhões de euros, com pagamento à
cabeça, para essas companhias, e são os principais porta-vozes de uma
propaganda de ameaças e chantagens que acena com o propalado abandono de
algumas dessas companhias.
Pois,
entre os interesses de algumas companhias multinacionais e os direitos das
populações das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, nós sabemos de que
lado estamos, estamos ao lado das populações.
O Sr.
Alfredo Maia (PCP): — Muito bem!
Aplausos
do PCP.
Entretanto,
assumiu a presidência a Vice-Presidente Teresa Morais.
A
Sr.ª Presidente: — A Sr.ª Deputada tem um pedido de esclarecimento da Sr.ª
Deputada Marta Patrícia Silva, do Grupo Parlamentar da Iniciativa Liberal.
Faça
favor, Sr.ª Deputada.
A
Sr.ª Marta Patrícia Silva (IL): — Sr.ª Presidente, Sr.ª Deputada Paula Santos,
eu ouvi-a com atenção, mas não me recordo de a ter visto nas comissões quando
estávamos a discutir exatamente a proposta do seu partido.
O Sr.
Mário Amorim Lopes (IL): — Pois, não estava lá o PCP!
A
Sr.ª Marta Patrícia Silva (IL): — Se tivesse estado lá, se tivesse ouvido
aquilo que, nomeadamente, as companhias aéreas nos disseram… É que elas, se
fizéssemos avançar a proposta do PCP, iriam abandonar essas mesmas rotas. Por
isso, pergunto-lhe: esteve presente nessas comissões e ouviu com atenção,…
O Sr.
Mário Amorim Lopes (IL): — Ouvir para quê? Não é preciso!…
A
Sr.ª Marta Patrícia Silva (IL): — … tudo aquilo que foi dito sobre o seu
projeto?
Aplausos
da IL.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — É verdade!
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Para responder, tem a palavra a Sr.ª
Deputada Paula Santos. Faça favor, Sr.ª Deputada.
A
Sr.ª Paula Santos (PCP): — Sr.ª Presidente, agradeço a questão da Sr.ª
Deputada, mas a proposta que o PCP apresenta vai ao encontro dos interesses das
populações. Eu vi que o que a Sr.ª Deputada assumiu…
Protestos
da Deputada da IL Marta Patrícia Silva.
… foi
a defesa dos interesses das companhias aéreas multinacionais. Tem sido essa, de
facto, a prática por parte da Iniciativa Liberal.
Entre
os interesses, neste caso concreto, das multinacionais e os interesses das
populações, a IL está sempre ao lado das multinacionais, prejudicando as
populações.
Protestos
da IL.
Olhe,
da parte do PCP, estamos onde sempre estivemos: a defender as populações, a
defender o interesse nacional. É isso que nos preocupa e é por isso que vamos
continuar a lutar.
Aplausos
do PCP.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — A Mesa tem a inscrição do Sr. Deputado
Francisco César, do Grupo Parlamentar do Partido Socialista, para uma
intervenção. Faça favor, Sr. Deputado.
O Sr.
Francisco César (PS): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Vamos ser
claros neste debate. Este é o assunto que mais diz respeito às regiões
autónomas e que mais é discutido naquilo que tem a ver com o ponto de vista da
influência da República e do papel que a Assembleia da República tem.
Vozes
do PS: — Muito bem!
O Sr.
Francisco César (PS): — Nós já temos uma conclusão: o Governo não quis saber
dos açorianos e dos madeirenses, em termos do subsídio social de mobilidade, e,
por isso, já entra aqui derrotado.
Aplausos
do PS.
Nós
temos 230 Deputados. O PSD tem mais de 80 Deputados, tem cerca de seis
Deputados eleitos pelas regiões autónomas…
O Sr.
Mário Amorim Lopes (IL): — Cerca!
O Sr.
Francisco César (PS): — … e nós não vos ouvimos! Ouvimos todas as forças
políticas — todas as forças políticas! — menos os Srs. Deputados.
Percebo
que possam ser a favor de resolver o problema do subsídio social de mobilidade,
percebo que possam ser contra, mas pelo menos digam alguma coisa!
Aplausos
do PS.
Pelo
menos, justifiquem perante os vossos eleitores o sentido e a opção que estão
aqui a tomar! Nem que seja por intermédio do vosso líder parlamentar.
Isto
demonstra duas coisas em relação ao PSD dos Açores: primeiro, a falta de
influência que tem aqui na República; segundo, e mais grave, a falta de coragem
para se afirmar perante o PSD na República.
Aplausos
do PS.
A
Sr.ª Bárbara do Amaral Correia (PSD): — O quê?!
O Sr.
Francisco César (PS): — Por isso, o apelo que faço é para que, pelo menos,
falem. Façam uma intervenção aqui, no Plenário, justifiquem a confiança que vos
foi dada — se não for feita por vós, que seja pelo vosso líder parlamentar —,
honrem o mandato que vos foi dado!
Aplausos
do PS.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Está inscrita para uma intervenção a Sr.ª
Deputada Lina Pinheiro, do Grupo Parlamentar do Chega. Faça favor, Sr.ª
Deputada.
A
Sr.ª Lina Pinheiro (CH): — Sr.ª Presidente, Srs. Deputados: Portugal é um só
país, mas nem todos os portugueses são tratados como iguais. Quem vive nos
Açores ou na Madeira não viaja por luxo, viaja por necessidade, para ir ao
médico, para estudar, para trabalhar, para estar com a família. E o que decidiu
o Governo? Decidiu que, para se receber o apoio à mobilidade, é preciso estar
totalmente regularizado com o fisco e a Segurança Social.
Pergunto:
o que tem uma dívida que ver com viver numa ilha? O que tem a situação fiscal
que ver com estar longe do continente? Zero! Nada que ver!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Muito bem!
A
Sr.ª Lina Pinheiro (CH): — Quem vive numa ilha já tem mais custos, já tem mais
dificuldades, não escolheu viver longe do continente. E há outro problema:
hoje, o cidadão paga o bilhete por inteiro, e só depois espera pelo reembolso.
Quem tem dinheiro que se aguente, quem não tem fica para trás. Isto não é
igualdade!
A
Sr.ª Madalena Cordeiro (CH): — Muito bem!
A
Sr.ª Lina Pinheiro (CH): — Se o Estado quer justiça, então que aplique o
desconto na hora da compra: que o cidadão pague apenas o valor fixo e que o
Estado trate do resto com a companhia aérea. O cidadão não é banco do Estado.
PS e
PSD falam de igualdade, mas continuam a criar condicionamentos, transformam um
direito num favor. O Chega defende algo simples: a mobilidade é um direito; não
é esmola, é compensação por uma desvantagem que ninguém escolheu. Quem vive
numa ilha já paga a distância todos os dias. Se a distância é de geografia, a
desigualdade é política. Portugal é um só!
Aplausos
do CH.
Os
direitos não se negociam e, no Chega, estamos aqui para os defender.
Aplausos
do CH.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Está inscrito para uma intervenção o Sr.
Deputado Hugo Soares, do Grupo Parlamentar do PSD. Faça favor, Sr. Deputado.
O Sr.
Francisco César (PS): — Foi preciso pressionar para fazeres uma intervenção?!
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Foi porque disseste!
O Sr.
Alexandre Poço (PSD): — Foi o PSD-Madeira.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Começo pela
resposta à primeira pergunta, do porquê de ser o líder parlamentar do PSD a
usar da voz, da palavra, neste debate. Creio que as intervenções que me
antecederam demonstraram à saciedade porque é que devo ser eu a usar da
palavra.
Não
houve Deputada nem Deputado que não tivessem tido o cuidado de dizer, como
acabou de dizer o Sr. Deputado Francisco César, que este era um tema de
absoluta relevância, se não o mais relevante, para as autonomias regionais.
Ora, se assim é, se o tema tem essa relevância, nada melhor do que dar-lhe
relevância máxima e dignidade política máxima, no meu grupo parlamentar,
através do uso da palavra por aquele que preside à bancada.
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
O Sr.
Francisco César (PS): — Ainda há bocado!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Quando é um aparte é assim!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Começo por dizer às Sr.as e Srs. Deputados o que julgava
que soubessem, para que se acabasse de vez com um equívoco que tantas, tantas,
tantas e tantas vezes acontece, em todos os grupos parlamentares — já agora, no
meu também —, de forma muito generalizada.
Se os
Srs. Deputados lerem o artigo 152.º da Constituição da República Portuguesa
saberão o seguinte:
«Os
Deputados representam todo o país […]. Eu vou repetir, é assim mesmo: «Os
Deputados representam todo o país e não os círculos eleitorais por que são
eleitos.»
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
O
Deputado do PS Francisco César apontou para os Deputados do PS Carlos Pereira e
Emanuel Câmara.
Foi
isso que permitiu que Deputados eleitos pelo distrito de Braga fizessem aqui
intervenções hoje, ou, já agora, que um Deputado que foi corrido do círculo
eleitoral da Madeira para Setúbal viesse aqui fazer uma intervenção.
Protestos
dos Deputados do PS.
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
É que
as Sr.as e os Srs. Deputados são do País, não são dos círculos eleitorais.
Continuação
de aplausos do CDS-PP e de Deputados do PSD.
Ora,
colocada a questão de forma muito simples, devo dizer o seguinte: este tema é
efetivamente relevante para a Região Autónoma dos Açores e para a Região
Autónoma da Madeira. Trata-se de continuidade territorial, trata-se do direito
à mobilidade, trata-se de o continente e o Governo da República olharem para as
regiões autónomas e perceberem de que forma e em que medida podem apoiar, podem
ajudar, podem subsidiar a mobilidade daqueles que têm as condições já difíceis
de viverem numa região autónoma.
Ora,
se é assim, é também um tema que diz respeito a cada uma e a cada um dos
portugueses, independentemente de onde vivam. É um tema que diz respeito a cada
uma das Sr.as Deputadas e a cada um dos Srs. Deputados, tal como diz respeito
àqueles que ali estão…
O orador apontou para as galerias.
… e
àqueles que nos estão a ouvir, porque é com os nossos impostos, é com os
impostos dos nossos contribuintes, é com o dinheiro do Estado que estamos a
apoiar — e bem! — as regiões autónomas.
Por isso, dizer que este é um tema exclusivo das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira é um olhar muito pequenino,…
O Sr. Francisco César (PS): — Vai lá dizer às pessoas!
O Sr. Hugo Soares (PSD): — … um olhar de quem não sabe que, quando se governa, governa-se para todos.
Aplausos do CDS-PP e de Deputados do PSD.
E
mais: governa-se com aquilo que é de todos!
Sr.as e Srs. Deputados, vamos ser muito claros, como pediu o Sr. Deputado Francisco César neste debate.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Isso é normal!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Vamos ser claros, vamos ser transparentes e vamos
colocar-nos — cada um que usar da palavra neste debate — ao escrutínio daquilo
que hoje muito se usa: os polígrafos, os fact check. Vamos saber, efetivamente,
quem diz a verdade e quem mente neste debate.
Vamos
começar pelo princípio. Antes do Governo de 2015, liderado pelo Partido Social
Democrata, não havia serviço de apoio à mobilidade em Portugal, nem nas regiões
autónomas! Foi o Governo do PSD que criou o subsídio de apoio à mobilidade!
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
O Sr.
Francisco César (PS): — Não é verdade!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Já agora, quero fazer justiça ao Sr. Deputado Francisco
Gomes, do Chega,…
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Não fales no Gomes!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — … porque nessa altura, quando se criou o subsídio de apoio
à mobilidade, ele estava sentado na bancada do PSD. É justo fazer-lhe essa
homenagem!
Protestos
do Deputado do CH Francisco Gomes.
Depois
não teve lugar nas listas e mudou de partido,…
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Por causa de pessoas como tu!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — … mas enquanto teve lugar nas listas era ali que ele
estava.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Por causa de pessoas como tu!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Em segundo lugar, disse o Deputado Francisco César, e vou
citar, para não me enganar: «Há 10 anos que isto foi criado […]» — grosso modo,
ele não quis dizer 2015, porque ia para o nosso Governo, e disse 10 anos; devia
ter dito 11 anos, porque foi mesmo em 2015, no nosso Governo.
O Sr.
Francisco César (PS): — Então e depois?
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Disse o Sr. Deputado Francisco César — vejam bem! — que o
serviço, o modelo como estava, estava envelhecido, não funcionava e prejudicava
as pessoas da Madeira e dos Açores. Vamos, mais uma vez, sujeitar-nos ao
polígrafo: nos últimos oito anos em que o Partido Socialista governou,
perguntem ao Partido Socialista e ao Deputado Francisco César o que é que
fizeram para alterar o estado de coisas, para melhorar o subsídio à mobilidade!
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
Protestos
do Deputado do PS Francisco César.
O Sr.
Emanuel Câmara (PS): — Agora é que pioraram!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Pois eu quero dizer-vos que o que o Partido Socialista fez
em prol das regiões autónomas, em muitos aspetos e neste também, foi exatamente
o que fez em tantas e tantas outras coisas: fez zero! Foi isto que fez o
Deputado Francisco César, era esta a influência do Deputado Francisco César no
Governo da República e no Partido Socialista de então!
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
Protestos
do Deputado do PS Francisco César.
Vejam
a força, vejam a determinação, a coragem e a influência de quem não mexeu uma
palha em nome dos Açores e da Madeira!
O Sr.
Francisco César (PS): — Os senhores fizeram?!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Mas, Sr.as e Srs. Deputados, o Chega veio cá hoje dizer o
seguinte: é uma injustiça exigir-se àqueles que recebem dos impostos de todas
as portuguesas e de todos os portugueses — também dos madeirenses e dos
açorianos —…
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Ah pois!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — … um contributo para que possam exercer o seu direito à
mobilidade, pago pelo Estado. É uma injustiça, diz o Chega.
Protestos
do Deputado do CH Pedro Pinto.
Vejam
bem, portuguesas e portugueses: diz o Chega que é injusto haver um subsídio em
que, para ser atribuído, se exija que as pessoas tenham regularizadas — que
estejam absolutamente em cumprimento — dívidas fiscais ou à Segurança Social.
Já
agora, portuguesas e portugueses, é curioso que aqueles que proclamam, de peito
cheio, o combate à subsidiodependência e à fraude, aqueles que proclamam o
combate a tudo isso, quando lhes cheira a votos, metam a viola no saco e já
vale tudo!
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
Protestos
de Deputados do CH.
Já
não interessa o dinheiro de cada uma e de cada um de nós!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Cala-te! Que gritaria!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Mas isso é no discurso, Sr.as e Srs. Jornalistas,
portuguesas e portugueses,…
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Fala para os jornalistas, fala!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — … madeirenses e açorianos. Nada — zero! — daquilo que o
Chega propõe hoje à votação acaba com a necessidade de termos a situação
regularizada na Autoridade Tributária e na Segurança Social. Zero!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Falso!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Perguntei ao Sr. Deputado Francisco Gomes: «Diga lá onde é
que isso está na proposta do Chega?» O que é que o Chega disse? Zero!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Falso!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — É só conversa, porque na lei não têm nada. Zero!
Aplausos
de Deputados do PSD.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Está aqui!
O
Deputado do CH Pedro Pinto exibiu um conjunto de folhas.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Vai ler! Estás a enterrar o PSD!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Ouvem-se da bancada do Chega os habituais apartes: «vocês
vão ver», «ainda lá vamos». Pois, foi preciso denunciá-los aqui, hoje, para
irem a correr corrigir as propostas que já entregaram, porque não tinham nada,
tinham zero quanto a isso! Zero!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Está aqui! Tens de ler!
O
Deputado do CH Pedro Pinto voltou a exibir um conjunto de folhas.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Agora, vamos àquilo que é essencial. Com a alteração que
se fez…
O Sr.
Emanuel Câmara (PS): — Uma vergonha, essa alteração!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Com a alteração que se fez ao subsídio social de
mobilidade…
Protestos
do Deputado do PS Emanuel Câmara.
Não
houve ninguém que fosse capaz de dizer isto aqui, mas eu vou dizer, às
madeirenses e aos açorianos.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Tu? Chamaste-nos tudo, até subsídio-dependentes!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Com as alterações que se fizeram, primeira pergunta:
recebem hoje mais rápido ou mais tarde do que recebiam antes deste sistema?
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Não recebem!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Recebem mais rápido!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Não recebem!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Têm hoje necessidade de ir para as filas dos CTT para
receberem, ou é mais transparente, mais isento e mais coerente este modelo?
É
pergunta essencial para as açorianas e para os madeirenses, porque, devo
dizer-vos, das muitas intervenções que aqui ouvi hoje, há de haver poucos
Deputados que sabem quanto é que se paga e que alguma vez tenham olhado para a
plataforma.
Quero
dizer às madeirenses e aos açorianos que foi com este Governo que passaram a
pagar menos do que pagavam para poderem vir ao continente.
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
Não
foi com o vosso apoio,…
O
orador apontou para a bancada do CH.
… não
foi com o Governo do Partido Socialista, foi com o Governo da AD.
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
Pagam
menos hoje do que pagavam no passado. E desafio…
Protestos
do Deputado do PS Francisco César.
Já
não desafio só os polígrafos desta vida,…
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Ah!…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — … desafio qualquer uma ou qualquer um dos Deputados das
Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores, que quiseram fazer deste debate um
debate só das ilhas, a virem aqui desmentir aquilo que estou a dizer. Até os
Srs. Deputados pagam menos do que pagavam antes, essa é que é a grande verdade.
Essa é que é a realidade!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Tens de ler!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Os Srs. Deputados, os madeirenses e os açorianos, pagam
hoje menos graças a este Governo.
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Pôs o Cavaco porta fora!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Quero com isto dizer que está tudo bem? Quero com isto
dizer que a plataforma não deve ser afinada e mais simplificada? Não, não
quero. É mesmo necessário fazer as correções.
Protestos
de Deputados do PS.
Quero
com isto dizer que não devemos aprofundar e procurar corrigir injustiças? Não,
não quero! Claro que devemos!
Agora,
a questão é outra, a questão é a necessidade de não fazerem aproveitamento
político com falsidades e de falarem verdade àqueles que hoje, nos Açores e na
Madeira, estão de olhos postos em nós. É que, sabem, Sr.as e Srs. Deputados —
nós sabemos e vocês sabem também, por isso fizeram este espetáculo todo —, este
debate está a ser transmitido para os Açores e para a Madeira, e por isso é que
se vem aqui dizer o que se quer, o que não se quer, mas sobretudo mentir.
Muito!
Protestos
dos Deputados do PS Emanuel Câmara e Francisco César.
Aquilo
que eu quero, já agora, é que as açorianas, os açorianos, os madeirenses, os
porto-santenses saibam que foi com este Governo que se acabou com outra
injustiça no acesso ao subsídio social de mobilidade, que era o seguinte: quem
não tinha voos diretos de outras ilhas tinha muita dificuldade em aceder e
pagava esse preço na totalidade, pelo preço de mercado. Foi com este Governo
que também isso se alterou, e quem vive nas outras ilhas tem hoje outras
condições para poder vir ao continente.
Aplausos
de Deputados do PSD.
O Sr.
Francisco César (PS): — Não é verdade!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Não foi com o vosso Governo, foi com o nosso.
O
orador dirigia-se à bancada do PS.
Quero
dizer-vos mais: não há ninguém neste Parlamento que, em abono da verdade, possa
pôr em causa o respeito pelas autonomias que a AD, o PSD e o CDS, sempre
demonstrou.
O Sr.
Francisco César (PS): — Não é verdade, isso!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Olhem para os últimos dois Orçamentos do Estado! E, mais
uma vez, para que as pessoas percebam que estou a falar verdade, desafio
qualquer polígrafo,…
O Sr.
Alexandre Poço (PSD): — Muito bem!
Protestos
do Deputado do PS Francisco César.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — … desafio qualquer Sr.ª ou Sr. Deputado a olhar para os
Orçamentos do Estado deste ano e do ano passado e para os compararem com os dos
oito anos de Governo do Partido Socialista.
Vozes
do PSD: — Muito bem!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Se encontrarem uma proximidade sequer com aquilo que
estamos a fazer pelas regiões autónomas, peço-vos desculpa. A verdade é que
nunca houve Governo tão amigo das regiões autónomas como o Governo da AD.
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
Já
agora, não o fazemos por caridade nem por aproveitamento político. Desde logo,
por aproveitamento político não precisávamos, porque o povo dos Açores e o povo
da Madeira têm demonstrado muito bem que sabem quem escolhem para governar os
seus destinos.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Não sabem! Não sabem!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — É assim na Madeira, desde sempre, e já é assim nos Açores
há alguns anos.
Aplausos
de Deputados do PSD.
E é
por isso que os senhores vêm aqui fazer esse aproveitamento, porque não se
conformam com que, ato eleitoral após ato eleitoral… Ó Sr. Deputado Carlos
Pereira, o senhor até teve de ir para Setúbal, não se conforma e até veio hoje
citar Miguel Albuquerque para lhe dar razão.
Protestos
do Deputado do PS Carlos Pereira.
O Sr.
Francisco César (PS): — Citar?
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Haveria de haver um dia em que os Deputados do Partido
Socialista apoiariam as declarações de Miguel Albuquerque. Não foi outro dia,
foi hoje. Muito obrigado, Sr. Deputado Carlos Pereira.
Aplausos
de Deputados do PSD.
Protestos
de Deputados do PS.
Caros
concidadãos da Madeira e dos Açores, podem ter a certeza absoluta de que têm
neste Grupo Parlamentar e no Governo da AD quem olha para as regiões autónomas
defendendo e assegurando o princípio da autonomia regional. Podem ter a certeza
de que nunca o Governo da República vos falhará.
Risos
do Deputado do CH Francisco Gomes.
Podem
ter a certeza de que hoje pagam menos para vir ao continente por causa deste
Governo, e de que as regras são mais transparentes e mais honestas.
Mas
perguntemos também aos cidadãos do meu País, àqueles que vivem no continente e
aos que vivem na Madeira, muitos deles: é justo que os vossos, os nossos, os
impostos dos portugueses que trabalham possam continuar a subsidiar a viagem,
da Madeira e dos Açores para o continente,…
O Sr.
Emanuel Câmara (PS): — Mas o que é isto?!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — … de pessoas que não asseguram o cumprimento das dívidas
fiscais com o Estado? É justo? Ou é justo o princípio, como foi da mesma forma
justo quando o Governo do Partido Socialista atribuiu os subsídios e os apoios
no período covid e pôs na lei que quem tinha dívidas fiscais não tinha direito
a recebê-los?
Aplausos
de Deputados do PSD.
É o
mesmo princípio! É o mesmo princípio, hoje,…
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Que vergonha!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — … para aqueles que estão a precisar da ajuda de cada uma e
de cada um de nós, na região de Leiria e por todo o País, e que, para terem
acesso aos apoios, também sabem que está na lei, está na norma a necessidade de
terem a situação fiscal regularizada.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — A Madeira não esquece! A Madeira não vai esquecer!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Açorianos e madeirenses, ninguém vos exige declaração
nenhuma. É mentira! É mentira!
O
Estado que pede que cumpram é o mesmo Estado que tem de cumprir ele próprio. É
o Estado, que anunciou, que tem de verificar se há essas dívidas ou não, não
tem de pedir nenhuma declaração.
O Sr.
Francisco César (PS): — É semântica!
O Sr.
Luís Moreira Testa (PS): — É mentira!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — É obrigação de um Estado moderno e não burocrático cumprir
também as suas regras internas. Ninguém vos pede declaração nenhuma, é falso!
Aplausos
de Deputados do PSD.
É
inteiramente falso aquilo que estes senhores aqui disseram!
O Sr.
Francisco César (PS): — Este gajo queimou o polígrafo todo!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Agora, Sr.as e Srs. Deputados, os Deputados do PSD eleitos
pelas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores são Deputados nacionais,
conforme a Constituição diz.
Hoje,
os Deputados do PSD-Açores e do PSD-Madeira sentaram-se onde entenderam
sentar-se. Ninguém lhes pediu para se sentarem mais à frente ou mais atrás.
Sentaram-se onde entenderam que se deviam sentar, porque, nesta bancada, nós
respeitamos um a um e sabemos que as decisões têm muito mais de interesse
coletivo do que de interesse individual.
O Sr.
Emanuel Câmara (PS): — Vamos ver! Não acredito!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Os Srs. Deputados do PSD-Madeira e do PSD-Açores têm sido
extremamente vocais na defesa dos interesses das Regiões Autónomas dos Açores e
da Madeira. Quero dizer, olhos nos olhos, aos madeirenses e aos açorianos, e às
minhas Deputadas e aos meus Deputados do Grupo Parlamentar do PSD: sim, tenho
uma divergência profunda, hoje, com o posicionamento dos Deputados do
PSD-Madeira e dos Deputados do PSD-Açores. Sim, os Srs. Deputados do
PSD-Madeira e do PSD-Açores estão mais perto de outras posições que aqui se
ouviram, como é público, do que daquela que tem o grupo parlamentar.
O Sr.
Francisco César (PS): — Ah!…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Por isso, quando se levantarem para votar, vão votar, com
a sua consciência, de forma livre e individual, naquilo que entendem ser a
melhor defesa do direito e dos interesses dos açorianos e dos madeirenses.
O Sr.
Francisco César (PS): — Ah!…
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Mas, sim, há uma coisa que vos quero dizer: nesta bancada
e neste grupo parlamentar, não se diz uma coisa e o seu contrário. Quando é a
sério e é para defender um princípio que é justo, fala o líder parlamentar,
porque não se esconde. É assim que eu sou e é assim que vai continuar a ser.
O Sr.
Luís Moreira Testa (PS): — Pior!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — A terminar, quero dizer-vos o seguinte: por Castelo
Branco, tudo! Por Vila Real, tudo! Pela Guarda, tudo! Por Viana do Castelo,
tudo! Pelo Algarve, tudo!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Isso querias tu!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — E, acreditem em mim, pela Região Autónoma dos Açores,
tudo, tudo, tudo! Pela Região Autónoma da Madeira, tudo, tudo, tudo!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Mentira!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Mas tudo, tudo, tudo, sempre e sobretudo por Portugal.
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD, de pé.
Protestos
de Deputados do CH.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — O Sr. Deputado tem dois pedidos de
esclarecimento. Por favor, informe a Mesa como é que pretende responder.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Sr.ª Presidente, respondo separadamente.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Não é assim, é «um a um».
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Então, tem a palavra, para um pedido de
esclarecimento, o Sr. Deputado Carlos Pereira, do Grupo Parlamentar do Partido
Socialista. Faça favor, Sr. Deputado.
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — Sr.ª Presidente, Sr. Deputado Hugo Soares, noto, num
primeiro momento, que o Sr. Deputado subiu à tribuna para iniciar um chorrilho
de contradições. A primeira foi logo citar a ideia de que um Deputado é um
Deputado em qualquer região, mas acusou-me de ser um Deputado de Setúbal e
estar a defender a Região Autónoma da Madeira, o que é desde logo uma
contradição muito grande.
Aplausos
do PS.
Queria
também dizer-lhe, Sr. Deputado, que aquilo que ouvimos daquela tribuna, e que
os madeirenses e os açorianos ouviram, é absolutamente lamentável. E é
lamentável por duas razões: primeiro, porque o Sr. Deputado fez um exercício de
colocar portugueses contra portugueses.
O Sr.
Emanuel Câmara (PS): — Muito bem!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Não!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — O Sr. Deputado subiu àquela tribuna a lembrar e a
insinuar que aquilo que é feito pela mobilidade na Madeira é pago por todos e
que os madeirenses e os açorianos não têm direito a isso, que não têm
legitimidade para isso. É lamentável aquilo que o Sr. Deputado fez!
Aplausos
do PS.
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Não foi nada disso!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — O Sr. Deputado insinuou sub-repticiamente aquilo que não
deveria ter insinuado. Sr. Deputado, aquilo que ouvi é lamentável!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Ora bem!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — E ouvi outras coisas lamentáveis, o desconhecimento
total do que é o subsídio social de mobilidade.
O Sr.
Francisco César (PS): — Ora aí está!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — Começo, desde logo, por lhe dizer que o subsídio social
de mobilidade existe, em Portugal, desde 2005 Já há 20 anos!
Risos
de Deputados do PS.
Não é
uma coisa do PSD nem da AD. Existe há 20 anos, e em 2005 não era o PSD que
governava. Portanto, mais uma mentira que o Sr. Deputado acabou de dizer
daquela tribuna.
O Sr.
Francisco César (PS): — Parece o Pinóquio!
Protestos
do Deputado do PSD Hugo Soares.
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Querem misturar as coisas! Um disparate!
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — Portanto, Sr. Deputado, queria perguntar-lhe, de forma
muito clara: o Sr. Deputado está ou não está a favor da ideia de que para
termos o benefício do subsídio social de mobilidade não podemos ter dívidas à
Segurança Social e ao fisco? Esta é a resposta que tem de dar
O Sr.
Deputado insinuou, dali da tribuna, num exercício de semântica, que não temos
de apresentar documentos. Os madeirenses já sabem que não têm de apresentar
documentos, não é esse o ponto!
Protestos
dos Deputados do PSD Gonçalo Lage e Hugo Soares.
O
ponto é que os senhores querem travar o subsídio social de mobilidade quando um
madeirense, por razões várias, tenha uma dívida à Segurança Social e ao fisco,
e isso é lamentável. Isso é o que os senhores querem fazer.
Aplausos
do PS.
Protestos
do PSD.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Para responder, tem a palavra o Sr. Deputado
Hugo Soares.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, Sr. Deputado
Carlos Pereira, muito obrigado pelas suas questões — no fundo, não fez nenhuma
questão, mas fez vários comentários e a retórica parlamentar é assim mesmo.
Deixe-me
começar por dizer que o Sr. Deputado entendeu tudo mal.
Protestos
do PS.
É
verdade! Quando comecei por dizer que a Constituição dizia e prescrevia que os
Deputados não representam o círculo eleitoral por onde foram eleitos, mas
representam todo o País, e depois disse que até o Sr. Deputado Carlos…
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Pereira.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Carlos Pereira, peço imensa desculpa e obrigado pela dica.
Risos
do Deputado do PS Carlos Pereira.
Quando
disse que o Sr. Deputado Carlos Pereira foi eleito por Setúbal sendo da
Madeira, foi para sublinhar precisamente esta minha ideia.
Risos
de Deputados do PS.
Se o
Sr. Deputado enfiou algum barrete, devo dizer que não era a minha intenção, não
era mesmo. Eu queria era enaltecer a sua posição.
Ora,
isto dito, o Sr. Deputado voltou a querer brincar com as palavras, mas a minha
intervenção já teve um condão, já teve uma grande vantagem: já pusemos o
Partido Socialista a dizer — baixinho, é certo — aos madeirenses e aos
açorianos que ninguém lhes pede declaração nenhuma.
O Sr.
Francisco César (PS): — Qual declaração?!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): —É falso! Está na plataforma!
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — É mentira!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — É que o Sr. Deputado ali e o Sr. Deputado Francisco César
acolá disseram: «Vocês exigem uma declaração de não dívida.» Não é verdade!
Caiu por terra a vossa narrativa, porque os senhores queriam era espetáculo
para a Madeira e para os Açores, mas devagarinho, com jeitinho, os senhores lá
vão.
E eu
quero dizer olhos nos olhos: volto a colocar-me ao serviço das Sr.as e dos Srs.
Jornalistas. Faça o mesmo. Eu repito, o subsídio social de mobilidade nasceu em
2015 pela mão de um Governo do PSD; o resto é conversa, e o senhor mentiu mais
uma vez.
Aplausos
de Deputados do PSD.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Para o segundo pedido de esclarecimento, tem
a palavra a Sr.ª Deputada Patrícia Almeida, do Grupo Parlamentar do Chega.
A
Sr.ª Patrícia Almeida (CH): — Sr.ª Presidente, Srs. Deputados, Sr. Deputado
Hugo Soares, dá gosto vê-lo a falar daquela tribuna como se fosse o único dono
da verdade. E como único dono da verdade que se autointitula, eu pergunto-lhe
se os cidadãos da Madeira e dos Açores não têm de ter a sua situação regularizada
à AT e à Segurança Social. É ou não verdade
O
passe verde custa 20 €, o passe Navegante custa 40 €, e ambos permitem a
mobilidade dentro do território nacional: o passe Navegante, dentro da Área
Metropolitana de Lisboa, e o passe verde, dentro do território nacional através
da ferrovia para qualquer um de nós.
O Sr.
Deputado citou a Constituição e, neste sentido, pergunto-lhe se esta portaria e
se este decreto-lei cumprem ou não o artigo 229.º da Constituição que, entre
outras coisas, define a correção de desigualdades decorrentes da insularidade.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Muito bem!
A
Sr.ª Patrícia Almeida (CH): — Ou seja, se dentro do território nacional
circulamos por 20 € ou 40 €, porque é que os cidadãos das ilhas não têm os
mesmos benefícios e vivem com desigualdades?
Aplausos
do CH.
Depois,
Sr. Deputado, volto a citá-lo, quando disse que se governa para todos. Então, o
que está a dizer é que isso significa que, brevemente, qualquer um de nós ou
qualquer cidadão que more nos Açores ou na Madeira pode vir ao continente e
pode ir do continente para as ilhas como se estivesse a ir ao Algarve ou ao
Douro, ou seja, teremos uma situação transversal a todos.
Aproveito
para colocar mais uma questão. Ao mesmo tempo que estamos a discutir a questão
da
insularidade,
discute-se também o acesso ao transporte aéreo, e a União Europeia prepara-se
para discutir um novo quadro financeiro plurianual que reduz a ambição da
coesão para as regiões ultraperiféricas, ou seja, quer a Europa quer a
República estão a retirar aos Açores e à Madeira benefícios e põem os
madeirenses e os açorianos a pagar a coesão.
Aplausos
do CH.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Para responder, tem a palavra o Sr. Deputado
Hugo Soares.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Sr.ª Presidente, Sr.ª Deputada, muito obrigado pelas
questões que me colocou — e foram várias —, às quais procurarei, dentro do
tempo de que disponho, responder uma a uma
Em
primeiro lugar, devo dizer-lhe, fazendo apenas uma anotação àquilo que afirmou,
que não me considero o único dono da verdade, por isso predispus-me para que,
num qualquer fact check, as Sr.as e os Srs. Jornalistas possam fazer o
escrutínio do que eu disse.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Outra vez?!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Mas há uma coisa que eu lhe digo: eu era incapaz de pôr
chuva falsa num vídeo para parecer que estou a sofrer muito com as minhas ações
de voluntariado.
Aplausos
de Deputados do PSD.
Isso
eu não faço! Isso eu não faço! Isso eu não faço!
Vozes
do PSD: — Muito bem!
Protestos
do CH.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — A Sr.ª Deputada pôs as questões de forma séria, e eu quero
responder também de forma séria.
Protestos
do CH.
Sim,
eu advogo e defendo o princípio de que quem tem apoios e subsídios do Estado
deve ter perante o Estado a sua situação regularizada. Olhe, é uma linha
inteira que nos separa: os senhores bradam, berram contra a subsidiodependência
e, depois, acham que não deve haver limites e que quem tem dívidas ao Estado,
que não cumpre, e dívidas à Segurança Social e às Finanças, deve ter, na mesma,
os apoios.
Eu
quero ser franco consigo: não! Eu defendo esse princípio, como o Partido
Socialista defendeu nos apoios para a covid, como é exigido em muitos apoios
sociais já no País, como eu entendo que deve ser pedido em mais outras
situações. É isto que nos separa, e eu tenho de ser franco e honesto consigo.
Mas
quero dizer-lhe mais, Sr.ª Deputada: é bom que os portugueses saibam, porque os
açorianos e os madeirenses também sabem, que não é verdade que eles paguem o
custo comercial da sua mobilidade. O Estado já garante este apoio, e foi,
precisamente, com a iniciativa deste Governo que hoje pagam menos do que
pagavam há três meses, Sr.ª Deputada.
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — É um facto!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — E nós, tudo continuaremos a fazer, de acordo com o
princípio da estabilidade das finanças públicas, do crescimento económico, da
coesão territorial, do princípio da continuidade, do respeito pelas autonomias
regionais, para poder melhorar a vida de cada concidadão, com especial enfoque
nos cidadãos da Madeira e dos Açores.
Foi
isso que fizemos, é isso que estamos a fazer e é isso que queremos continuar a
fazer, mas, devo dizer-lhe, com esta barreira que nos separa e sem demagogias.
Aplausos
de Deputados do PSD.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Está inscrito, para uma intervenção, o Sr.
Deputado Pedro Pinto, do Grupo Parlamentar do Chega. Faça favor, Sr. Deputado.
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, permitam-me que
cumprimente também quem está na bancada e quem está nas galerias, os Deputados
do Chega do Parlamento Regional dos Açores.
Aplausos
do CH.
Eles
têm feito, quer nos Açores quer na Madeira, um enorme trabalho pelas suas
regiões autónomas, para defenderem a sua autonomia, que, dentro deste partido,
ao contrário de outros, é respeitada. Assistimos hoje, nesta Assembleia da
República, ao maior comício e mais populista do Sr. Deputado Hugo Soares.
Aplausos
do CH.
Risos
do Deputado do PSD Hugo Soares.
Nós
já sabíamos que ele estava entregue ao populismo; não sabíamos é que era tão
declarado e tão frontal como foi hoje.
Aplausos
do CH.
Protestos
do Deputado do PSD Gonçalo Lage.
E,
Sr. Deputado, eu tenho de dizer uma coisa: eu não sei se o senhor mete ou não
chuva falsa nos seus vídeos,…
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Vocês metem!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — … mas há uma coisa que nós sabemos, é que não faz
voluntariado. Não faz voluntariado, porque os senhores são de uma casta
política que pensa que estão acima dos portugueses.
Aplausos
do CH.
Como
se alguém lhe tivesse perguntado alguma coisa, chegou ali à tribuna e disse:
«Resposta à primeira pergunta, sobre o porquê de o líder parlamentar do PSD
estar a fazer esta intervenção.» E, depois, como fez a pergunta, deu também a
resposta, quase como se fosse o Partido Comunista, e disse, «por relevância».
Não, Sr. Deputado, não foi por relevância, e acredite que eu tenho muito
respeito pelos seus Deputados do PSD-Madeira e do PSD-Açores.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Não tem mais do que eu!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — E hoje ganharam ainda mais o meu respeito pela situação que
lhes foi criada pelo seu grupo parlamentar, pelo seu líder parlamentar e pelo
Governo de Luís Montenegro.
Aplausos
do CH.
Pode
mandar vir os polígrafos todos desta vida, pode dar os gritos que quiser ali de
cima, mas há uma coisa que o senhor não pode esconder: é que os Deputados do
PSD-Madeira, quando foi o Orçamento do Estado, apresentaram propostas de
alteração a esse Orçamento do Estado.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Ora aí está!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Ora, isso significa que falam a duas vozes, como é normal e
como tem de ser. O que não é normal é o Sr. Deputado Hugo Soares esconder isso.
Aplausos
do CH.
O Sr.
Deputado referiu também uma coisa que eu acho que é muito grave: disse,
praticamente, que os açorianos e os madeirenses não trabalham.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Que vergonha! Que vergonha!
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Não disse isso!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Aliás, até fez uma comparação e disse: «Reparem que o
Chega, que é contra os subsídios, que é contra a subsidiodependência, está de
acordo com isto.»
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Que vergonha!
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Não disse nada disso!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Foi o que o Sr. Deputado Hugo Soares disse. Não fui eu, Sr.
Deputado Gonçalo Lage, tem de ouvir bem! Não fui eu quem o disse, foi o seu
líder parlamentar. Ou seja, o que é que isso significa? Que os madeirenses e os
açorianos não trabalham.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Que vergonha!
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Não foi isso! Mentira!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Foi o que disse o Sr. Deputado Hugo Soares. E mais,
perguntou uma coisa que eu acho fantástica: «Hoje recebem mais rápido ou mais
lento o subsídio de mobilidade?»
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Mais rápido! Dois dias!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Não! É que não recebem! É que não recebem! A diferença é
essa, é que não recebem o subsídio de mobilidade. Não recebem, Sr. Deputado!
Aplausos
do CH.
Portanto,
Sr. Deputado Hugo Soares, é difícil este debate para o PSD e, por isso, a sua
intervenção. Eu percebo isso. É que o PSD não respeitou nem os madeirenses nem
os açorianos.
Aplausos
do CH.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Para uma intervenção, tem a palavra o Sr.
Deputado João Almeida, do Grupo Parlamentar do CDS.
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Na
nossa missão parlamentar, há intervenções que são mais difíceis do que outras,
e esta não é certamente fácil, porque, quando temos de nos pronunciar sobre
matérias que, sendo de importância nacional, têm um impacto especialmente
relevante em alguns dos cidadãos nacionais, neste caso, nos cidadãos das
regiões autónomas, e quando estão em causa princípios constitucionais
fundamentais, como o princípio da continuidade territorial, defendermos todos
os interesses, principalmente quando eles são conflituantes, é, obviamente,
difícil, mas não nos exime de tomarmos posição.
Nós
estamos especialmente à vontade para podermos tomar posição porque sempre
defendemos neste Parlamento este princípio da continuidade territorial e a
melhor aplicação desse princípio, e isso aconteceu especialmente nas duas
últimas legislaturas, nesta e na anterior.
O Sr.
Paulo Núncio (CDS-PP): — Muito bem!
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — No início da legislatura anterior, quando o
Partido Socialista foi afastado da governação pelos portugueses, deixando este
problema como um problema grave, era o próprio Primeiro-Ministro António Costa
que dizia, basicamente, que o subsídio social de mobilidade promovia a fraude e
não apoiava madeirenses, porto-santenses e açorianos.
Protestos
do Deputado do PS Francisco César.
O Sr.
Paulo Núncio (CDS-PP): — Bem lembrado!
O Sr.
Alexandre Poço (PSD): — É verdade!
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Ou seja, o regime que ele próprio deixou que
vigorasse durante oito anos era o regime que permitia a fraude e que não
apoiava as populações. Por isso, desde o início, dissemos que queríamos
resolver o problema, apresentámos alternativas e, quando o fizemos, a primeira
coisa que disseram foi: «Bem, os senhores estão a mudar alguma coisa, mas não
introduzem a plataforma.»
Ora,
durante um ano, andaram a dizer que o problema era o Governo não introduzir a
plataforma; o Governo introduziu a plataforma, e isso permitiu, neste momento,
três coisas: temos um sistema que é recente, temos a introdução da plataforma,
que é ainda mais recente, e tudo isto com três objetivos que ninguém consegue
dizer que não serão concretizados quando o sistema estiver a funcionar em pleno
— que será mais rápido, que será mais barato e que será menos burocrático.
O Sr.
Francisco César (PS): — Mas é presente ou futuro?
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Ninguém consegue desmentir que o caminho é
exatamente para isso.
Mas
subsistem problemas, e nós não os negamos, e não os negamos, desde logo, quando
eles são levantados por açorianos, madeirenses, porto-santenses e têm eco nos
representantes do CDS em cada uma das regiões.
Sabemos
perfeitamente que quando o CDS-Madeira e quando o CDS-Açores levantam estes
problemas e estão na origem de propostas de lei que aqui são trazidas pela
iniciativa de uma e de outra Assembleias Legislativas, é porque efetivamente há
questões que, neste momento, são relevantes.
Primeira
questão relevante é a de haver ou não dívidas ao Estado. O Partido Socialista,
se não tinha legitimidade para a primeira parte, porque deixou o caos e, neste
momento, não tem alternativa a uma solução que é melhor, nesta ainda tem menos,
porque o Partido Socialista, sempre que houve apoios, exigiu a mesma condição.
O Sr.
Francisco César (PS): — Não!
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — E, portanto, não venha agora dizer que é
contra aquilo que sempre exigiu.
O Sr.
Francisco César (PS): — Não, não seja mentiroso!
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Mas há uma questão aqui que é específica, que
é se é oponível, neste caso, a questão da não existência de dívidas. Porquê?
Porque nós estamos no âmbito de um princípio constitucional, que é o princípio
da continuidade territorial, e, portanto, é perfeitamente legítima a discussão
sobre se é oponível à continuidade territorial a questão da existência ou não
de dívidas…
O Sr.
Francisco César (PS): — Explique aí ao Sr. Deputado Hugo Soares!
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — … e se este princípio constitucional é ou não
anterior — desde logo, o Sr. Presidente da República também levantou essa
questão quando promulgou o decreto em causa.
Portanto,
a posição do CDS, sendo difícil, é clara: nós entendemos que, tendo havido uma
reforma legislativa recentemente produzida por este Governo, ela deve ter o
tempo suficiente para ser amadurecida e avaliada.
O Sr.
Paulo Núncio (CDS-PP): — Muito bem!
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Existindo já, mesmo antes desse
amadurecimento e dessa avaliação, uma pronúncia por parte do CDS-Açores e por
parte do CDS-Madeira, isso exige de nós ainda maior responsabilidade para que
esta avaliação seja tão célebre quanto possível e seja tão profunda quanto
possível,…
O Sr.
Carlos Pereira (PS): — Não está a conseguir! Está a falhar!
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — … com uma certeza: nós defendemos, desde o
regresso do CDS a este Parlamento, o princípio da continuidade territorial e
uma alteração no subsídio social de mobilidade que permitisse a cada um dos
cidadãos das regiões autónomas beneficiar mais depressa, beneficiar com menos
burocracia e ter um preço mais baixo.
Nunca
nos demitiremos dessa responsabilidade, ainda que, conjunturalmente, possamos
ter uma posição de defesa de uma alteração que foi feita recentemente, sem
perder o horizonte de que os nossos objetivos serão sempre estes.
Aplausos
do CDS-PP.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — A Mesa não regista pedidos de intervenção.
Pausa.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Vamos lá votar!
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Inscreveu-se o Sr. Deputado Francisco César,
do Grupo Parlamentar do Partido Socialista. Faça favor, Sr. Deputado.
O Sr.
Francisco César (PS): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: o Sr. Deputado
Hugo Soares, líder parlamentar do PSD, veio dizer aqui que falava e tomava a
dianteira nessa discussão, porque era a pessoa mais importante do seu grupo
parlamentar.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Não disse isso!
O Sr.
Francisco César (PS): ― E é-o, de facto, do ponto de vista institucional. Não
estou a recriminá-lo por isso. Mas quando nós não deixamos os Deputados das
regiões autónomas falarem sobre matérias que estão relacionadas com a sua área,
com o compromisso eleitoral que tiveram, isto cria problemas.
O
primeiro problema que cria é o problema do desconhecimento do que se está a
fazer, do que está a acontecer, e o Sr. Deputado, quando chegou ali, à tribuna,
revelou exatamente isto mesmo. O senhor não reconhece a realidade. O senhor
veio dizer que agora funciona melhor.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Já dissemos que não! Já percebeu?!
O Sr.
Francisco César (PS): ― Olhe, as empresas não conseguem levantar o seu
reembolso.
Protestos
do Deputado do PSD Hugo Soares.
Sr.
Deputado, a plataforma cria mais burocracia e não estava a funcionar.
O Sr.
Deputado torrou, estorricou o polígrafo. O Sr. Deputado vem dizer que, com a
reforma legislativa do Partido Social Democrata e do Governo, os açorianos
estão a pagar menos.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Menos!
O Sr.
Francisco César (PS): ― Não é verdade, é falso. Sabe porquê? Porque estipularam
um teto às tarifas aéreas que faz com que eles paguem mais do que pagam agora.
Aplausos
do PS.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Meu Deus!
O Sr.
Francisco César (PS): ― Sabe porque é que nós temos razão? Porque os açorianos
o dizem, porque o Governo regional de coligação também o diz.
E vem
o Sr. Deputado aqui encher a boca e dizer: «Nós criámos um mecanismo interilhas
para que quem está nas ilhas agora pague menos do que pagava antes.» Não, Sr.
Deputado, não criaram nada, não criaram absolutamente nada. Acabaram com os
encaminhamentos para turistas, os Srs. Deputados nem lançaram
ainda
as obrigações de serviço público, não estão em funcionamento. O que está agora
a acontecer é exatamente o que acontecia antes.
Terceiro
ponto, o Sr. Deputado acusa-nos de não termos feito nada, algo de que me
orgulho: mais vale não mexer do que estragar. E os senhores o que fizeram foi
mexer e estragar um modelo que funcionava com algumas dificuldades.
Aplausos
do PS.
Por
outro lado, o Sr. Deputado tem uma visão contraditória, confunde um mecanismo
de continuidade territorial, algo que a Constituição da República Portuguesa
define, com o mecanismo de um apoio, como se fosse um apoio a empresas.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Ora aí está!
O Sr.
Francisco César (PS): ― O senhor é um Deputado de uma nação, é um Deputado de
Portugal, e um Deputado de Portugal, um Deputado de uma nação, não confunde
conceitos desses. O Sr. Deputado está a agir como um Deputado de Braga ou de
Lisboa que não quer saber o que se passa com o resto do País.
Aplausos
do PS.
Por
último, Sr. Deputado, a incoerência, e a incoerência é total. Quer dizer, os
açorianos e os madeirenses, para terem direito à sua mobilidade, têm de ter a
sua situação contributiva regularizada — não é declarada, é regularizada. O Sr.
Deputado veio aqui com semântica. Bom, e quem compra um passe social, tem de
ter a sua situação regularizada?
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Ora, aí está!
O Sr.
Francisco César (PS): ― Quem tem um conjunto de apoios, quem tem uma isenção de
portagem, tem de mostrar antes que tem a sua situação regularizada?
Incoerência! Por isso, Sr. Deputado, é que é bom deixar falar quem
verdadeiramente representa as suas regiões, e isto o senhor não fez.
Na
verdade, aquilo que o PSD está aqui a fazer é a achar o seguinte: o Chega acha
ao contrário da sua opinião, a Iniciativa Liberal não concorda com a sua
opinião, o CDS não concorda com a sua opinião,…
O Sr.
João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Concorda, concorda!
O Sr.
Francisco César (PS): ― … o PS não concorda com a sua opinião, todos os
partidos aqui presentes não concordam com a sua opinião, com exceção do senhor,
que é como aquela mãe que acha que estão todos a marchar errado e o senhor é o
único que está a marchar certo.
Aplausos
do PS.
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — O Sr. Deputado tem um pedido de
esclarecimento do Sr. Deputado Hugo Soares, do Grupo Parlamentar do PSD. Tem a
palavra, Sr. Deputado.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Sr.ª Presidente, Sr. Deputado Francisco César, ouvi-o com
toda a atenção, o Sr. Deputado teve ocasião de me ouvir também, os madeirenses
e os açorianos também, aos dois, e julgarão.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Oh!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — No dia-a-dia, quando vão pagar, saberão se pagam mais ou
menos.
O Sr.
Francisco César (PS): — Pois!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Mas eu ouvi-o com toda a atenção e queria deixar uma
pergunta simples, muito simples, para a resposta mais completa e mais longa que
me puder dar: diga-me, Sr. Deputado Francisco César, nos últimos oito anos de
governação do Partido Socialista, o que é que o Governo do Partido Socialista
fez para alterar esta situação e o que é que o senhor fez em nome do povo dos
Açores?
Aplausos
de Deputados do PSD.
O Sr.
Paulo Núncio (CDS-PP): — Agora, diga qualquer coisa sobre isso!
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Para responder, tem a palavra o Sr. Deputado
Francisco César.
O Sr.
Francisco César (PS): ― Sr. Deputado, há algo que lhe posso dizer: foram várias
as reuniões que nós tivemos com o Governo sobre esta matéria.
Vozes
do PSD: — Ah!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Ah! Foi uma trabalheira!
O Sr.
Paulo Núncio (CDS-PP): — Reuniões?!
O Sr.
Francisco César (PS): ― Posso dizer-lhe o seguinte: nós não deixámos que fosse
criado um teto ao subsídio social de mobilidade, nós não deixámos, nem o
Governo quis, criar um conjunto de obrigações de situação fiscal regularizada.
Aplausos
do PS.
Nós
não deixámos estragar, que é aquilo que os senhores estão a fazer. E,
sobretudo, nós não deixámos os açorianos e os madeirenses meses, meses, como
está a acontecer, sem acesso, sequer, ao subsídio social mobilidade,…
O Sr.
Gonçalo Lage (PSD): — Isso é mentira!
O Sr.
Francisco César (PS): ― … como aconteceu, como está a acontecer, e o senhor
tinha obrigação de saber isso. Se fosse da Região Autónoma dos Açores ou da
Madeira, saberia muito bem.
Aplausos
do PS.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Está a mentir!
Atenção,
atenção: o PS fez reuniões! Uma canseira!
A
Sr.ª Presidente (Teresa Morais): — Para uma intervenção, está inscrito o Sr.
Deputado João Tilly, do Grupo Parlamentar do Chega.
O Sr.
João Tilly (CH): — Sr.ª Presidente, Srs. Deputados, vamos centrar o debate,
agora nesta parte final. O Chega está de acordo com as principais preocupações
plasmadas no pedido de apreciação parlamentar do PS e nas propostas de lei das
Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, pelo
que, se somos tão extremistas como nos acusam, e se afinal nós concordamos
convosco — socialistas, madeirenses, porto-santenses e açorianos —, só vos
podemos dar as boas-vindas a este amplo clube de extremismo. Bem-vindos!
Aplausos
do CH.
Mas o
principal problema das regiões autónomas é o outro extremismo: o geográfico.
Ninguém tem culpa de nascer numa ultraperiferia de um dos países mais
periféricos da Europa, um país tão periférico que tem apenas dois vizinhos,
Espanha e o mar. Mas o mar não negoceia connosco. Se quisermos sair das ilhas,
temos de o atravessar, como fazemos desde o século XV, ou sobrevoar, como
fazemos desde o século passado. E é a esta travessia que chamamos mobilidade.
Se a queremos para todos, somos democratas; se deixarmos só para quem a pode
pagar, somos elitistas.
Cinquenta
anos após Abril, ainda não conseguimos equiparar as oportunidades dos
portugueses insulares à dos continentais, por isso, os insulares emigram muito
mais. Cinquenta anos após Abril, vastas regiões do nosso País não conhecem
ainda a liberdade e a igualdade, 237 anos após a Revolução Francesa, nem as
mais amplas liberdades que já só existem na cassete do Partido Comunista — paz
à sua alma.
Por
isso, vamos melhorar uma lei que, apesar de ter sido alterada, ainda não serve.
Não serve porque discrimina e maltrata. E quem devia proteger? Justamente os
mais pobres e os mais vulneráveis, que a esquerda tanto gosta de multiplicar.
O
debate reduziu-se ao seguinte ponto: Srs. Deputados, o vosso filho não pode
ficar impedido de almoçar na escola porque os senhores se esqueceram de pagar o
selo do carro, o condomínio ou o empréstimo ao banco. Já não falo na
mensalidade da Sport TV, porque isso nem o Luís se esquece. Esquece-se de tanta
coisa todos os dias, mas disso não se esqueceu.
Um
jovem vai estudar ou estagiar numa empresa do continente, contribuindo para
baixar o impressionante número de subsidiodependência das ilhas. Deixará de
poder viajar para o seu local de trabalho se os pais estiverem a dever 2 kg de
costeletas ao talho? Absurdo, dizem vocês. Então substituam «talho» por
«Estado» e digam-me qual é a diferença. As dívidas têm de ser pagas, exceto no
caso de José Sócrates, que defende que as dívidas não são para pagar, são para
se ir pagando.
Aplausos
do CH.
Mas
as dívidas fiscais, ou outras, não podem retirar a liberdade e a igualdade a
ninguém. Tal como essa dívida não pode impedir — tomem atenção, Srs. Deputados
— que as vítimas das cheias possam receber ajudas do Estado na reconstrução das
suas casas. Não podem estar dependentes dessa situação.
Aplausos
do CH.
Ou,
por absurdo, fazer com que os doentes que são devedores ao fisco não sejam
tratados no SNS (Serviço Nacional de Saúde). É completamente absurdo isto. A
civilização não é isso, é o oposto, isso é extremismo, isso não é democracia, é
ditadura. Nem um Salazar nem um Marcelo, o outro, lembrariam uma dignidade
destas.
Nós,
os Deputados, que toda a vida vivemos numa outra zona periférica também, mas
que se chama «interior profundo», também nunca tivemos transportes públicos —
autocarros, metro, comboios, cacilheiros — e, mesmo a pagar, não temos nada
disso, enquanto em Lisboa tudo isso está acessível. Quem paga? Todos nós, mesmo
os que não temos nada.
Por
isso, nós, no Chega, votamos a seu lado, ao lado de todos os açorianos, de
todos os ilhéus, e vamos alterar já esta lei, dizendo ao Luís que desligue a
Sport TV e venha trabalhar.
Aplausos
do CH.
Entretanto,
reassumiu a presidência o Presidente, José Pedro Aguiar-Branco.
O Sr.
Presidente: — Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Hugo Soares.
Tem 3 minutos e 3 segundos.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: Queria aproveitar
o tempo que resta ao Grupo Parlamentar do PSD para dizer que aquilo que eu
disse, e aqui repito, é que se este é um assunto, e é de facto, de importância
capital para as regiões autónomas, ele merece dignidade política, e foi por
isso que eu usei da palavra.
Nunca
disse que era a pessoa mais importante ou menos importante; disse apenas que
quando se quer dar relevo político — como o senhor bem sabe — às questões, ele
é dado pelos factos e não pela retórica
política.
Sr.
Deputado Francisco César, Sr. Deputado Pedro Pinto, Partido Socialista e Chega,
portuguesas e portugueses, açorianos e madeirenses, hoje, aqueles que
constantemente se digladiam aqui no Parlamento, voltam a dar a mão, a casar, a
juntarem-se para governar através do Parlamento.
Protestos
do PS.
Esta
não é a primeira vez, mas a cada vez que isso aconteça, não vai faltar voz ao
Grupo Parlamentar do PSD para denunciar este conluio constante de quem quer
governar através do Parlamento, fazendo aquilo que o povo não lhe deu nas
urnas.
O Sr.
Alexandre Poço (PSD): — Muito bem!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Dito isto, ficou claro, no debate, que o Chega, afinal de
contas, não faz nenhuma proposta de alteração para terminar com a exigência de
termos a situação tributária regularizada. Muita conversa, mas propostas, zero.
O Sr.
Francisco Gomes (CH): — Fez, fez!
O Sr.
Pedro Pinto (CH): — Está aqui! Tens de ler!
O
Deputado do CH Pedro Pinto exibiu um documento.
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Mas, Sr. Presidente, hoje tivemos a constatação, pela voz
do Partido Socialista, e não foi preciso nós dizermos aquilo que dizemos há
muito, muito tempo. Foi perguntado ao Sr. Deputado Francisco César o que é que
fez pelos açorianos e o que é que fez para melhorar as condições de mobilidade
dos açorianos. Portuguesas e portugueses, a resposta foi aquilo que dissemos há
muitos anos e que hoje aqui repetimos, e que o Sr. Deputado Francisco César
hoje aqui disse de forma cristalina: açorianos, aquilo que o Sr. Deputado
Francisco César fez em nome dos açorianos foi reuniões.
Aplausos
do CDS-PP e de Deputados do PSD.
O Sr.
Francisco César (PS): ― Foi conseguir dentro do Ministério das Finanças o que
não conseguiram fazer: travar!
O Sr.
Hugo Soares (PSD): — Achas que não conseguiram fazer?!
O Sr.
Presidente: — Não tenho mais ninguém inscrito.
Pausa.
Tenho
esta sina de quando…
Protestos
do PS e contraprotestos do PSD.
Portanto,
mais ninguém deseja inscrever-se. Então, vamos passar à sessão do encerramento.
Pausa.
Para
encerrar o debate, tem a palavra o Sr. Deputado Emanuel Câmara.
Continuação
de protestos do PS e contraprotestos do PSD.
Tem 8
minutos e 50 segundos, Sr. Deputado.
O Sr.
Emanuel Câmara (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, Caros
Concidadãos presentes nas galerias: Não podia iniciar esta minha primeira
intervenção, aqui nesta tribuna, sem endereçar um forte abraço a todos os
autarcas que, neste momento, vivem, juntamente com as suas populações, horas
angustiantes.
Sei
bem qual é o seu sofrimento, pois senti na pele a força da mãe natureza, também
no concelho que tive a oportunidade de gerir, Porto Moniz, não por inundações,
mas com enxurradas, com a força do mar a galgar para a terra e o fogo a devorar
parte do território.
Sr.
Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, cumprir a Constituição e respeitar os
direitos de todos os portugueses — é isso que discutimos aqui hoje. E não tem
havido história da ausência, lamentavelmente, de um Governo da República na
discussão de um decreto-lei.
Aplausos
do PS.
As
Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores garantem a Portugal uma dimensão
atlântica e estratégica que se traduz na terceira maior zona económica
exclusiva da União Europeia. Esta realidade beneficia todos os portugueses, não
apenas os das ilhas, mas também os do continente. Contudo, essa posição
estratégica traz também maiores responsabilidades para o nosso País e entre
elas está a mobilidade de todos os cidadãos, que concretiza o direito
constitucional à continuidade territorial.
Para
os portugueses das ilhas, madeirenses e açorianos, a mobilidade não é um luxo,
é uma necessidade, é condição de acesso à educação dos nossos jovens, à saúde
dos nossos doentes e ao trabalho dos nossos empresários.
Aplausos
do PS.
E o
que encontram agora? Mais obstáculos, mais burocracia, menos direitos. As
alterações decididas por este Governo da AD representam um retrocesso grave que
não podemos aceitar. Exigir aos madeirenses e aos açorianos a inexistência de
dívidas às finanças e à segurança social para aceder ao subsídio de mobilidade
atenta contra o direito constitucional à mobilidade no território nacional.
Aplausos
do PS.
Isso
coloca em causa os princípios da continuidade territorial e da coesão social e
limita ainda mais quem vive nesses territórios, que também são Portugal. Alguém
se lembraria de propô-lo na hora de regulamentar o acesso ao Passe Ferroviário
Verde?
Protestos
do Deputado do PSD Gonçalo Lage.
A
injustiça dessa exigência, agora igualmente imposta pelo Governo da AD, a quem
precisa de aceder a apoios para reconstruir as suas vidas após as intempéries
que assolaram parte do nosso espaço continental já foi, nesse caso, reconhecida
pelo Sr. Presidente da República.
Mas
há mais: a redução do teto nas viagens de apenas um trajeto de 400 € para 200 €
e a nova plataforma eletrónica agravaram ainda mais o problema. Mais confusão,
mais incerteza, mais custos. Com as decisões, suspensões e recuos deste Governo
PSD/CDS, a mobilidade aérea não sai do chão.
A
proposta de alteração apresentada pelo Grupo Parlamentar do Partido Socialista
no âmbito desta apreciação parlamentar relativa ao decreto-lei sobre o subsídio
social de mobilidade abre caminho a um verdadeiro sistema de pagamento
exclusivo da tarifa subsidiada, sem necessidade de reembolsos posteriores aos
beneficiários.
Abre
também a possibilidade de submissão e processamento dos pedidos de reembolso
através de intermediários na venda de bilhetes, designadamente agências de
viagens, prevendo o seu registo de atuação na plataforma eletrónica do Estado,
o que atualmente não é possível. Cria-se, assim, uma solução operacional que
permita aos madeirenses e açorianos pagarem apenas o valor que legalmente lhes
compete no momento da compra.
Este
mecanismo corrige uma das principais distorções do modelo vigente, a exigência
do adiantamento integral do valor do bilhete pelos residentes, muitas vezes com
impacto significativo na tesouraria das famílias.
Sr.
Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, no ano em que celebramos 50 anos de
autonomia, não podemos aceitar um
retrocesso desta dimensão. Defender a autonomia não é proclamá-la, é
respeitá-la e concretizá-la nas verdadeiras decisões. E hoje, infelizmente,
assistimos a uma página negra da vivência democrática e da nossa autonomia,
quando temos seis Deputados das nossas duas regiões que suportam os Governos,
não só a nível regional, como a nível nacional, que não tiveram a oportunidade
de dizer o que lhes vai na alma aqui, no lugar certo, na Casa da democracia.
Aplausos
do PS.
Esta
iniciativa legislativa apresentada pelo Partido Socialista é uma oportunidade
clara para corrigir uma injustiça e proteger os direitos dos portugueses das
ilhas.
É
preciso simplificar. É urgente corrigir. É necessário eliminar a exigência de
inexistência de dívidas ao Estado e acabar com as penalizações nas viagens
oneway. É preciso garantir futuramente que o cidadão paga apenas 79 €, ou 59 €
no caso dos estudantes, no momento da compra da sua viagem, sem mais
complicações, enquanto nos Açores estes valores são 119 € e 89 €.
Sr.
Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, ao longo dos últimos anos, discutiu-se
muito quem foi amigo ou inimigo das regiões autónomas, mas Governos da
República que retiraram direitos aos madeirenses só mesmo os da AD. Repito, mas
Governos da República que retiraram direitos aos madeirenses só mesmo os da AD.
Aplausos
do PS.
Primeiro,
o de Pedro Passos Coelho, na coligação PàF (Portugal à Frente), com Luís
Montenegro como líder parlamentar, e agora o Governo da AD, com Luís Montenegro
como Primeiro-Ministro. Com Governos regionais e da República liderados pelas
mesmas forças políticas, cá e lá, da responsabilidade do PSD, com as suas
bengalinhas do CDS, é caso para perguntar, como sabiamente diz o povo: quem
precisa de inimigos com amigos destes?
Aplausos
do PS.
O
Partido Socialista demonstra, uma vez mais, capacidade de apresentar soluções
equilibradas, juridicamente sólidas e operacionalmente exequíveis, colocando os
interesses dos madeirenses e dos açorianos no centro da decisão política. Este
é um caminho responsável, tecnicamente fundamentado e socialmente justo.
Com
estas propostas, a Madeira e os Açores passam a ter um modelo que pode resolver
de forma estrutural os problemas identificados no atual regime de subsídio
social de mobilidade e garantir finalmente que os residentes pagam apenas
aquilo a que estão efetivamente obrigados, sem obrigatoriedade de reembolsos.
Hoje
sabemos quem está verdadeiramente ao lado da Madeira e dos Açores, ao lado dos
madeirenses e dos açorianos, portugueses das ilhas, mas de primeira, como todos
os outros. Que cada um de nós decida em consciência.
E
deixo, nestes últimos segundos, um apelo à bancada do PSD e ao seu líder: não
seja autonomista, não seja anti autonomista. Isso é que é um atentado aos
portugueses que moram nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores.
Aplausos
do PS
Aquilo
que aconteceu hoje é, de facto, uma página negra na vivência democrática e na
Casa da democracia…
Por
ter excedido o tempo de intervenção, o microfone do orador foi automaticamente
desligado.
Aplausos
do PS.
O Sr.
Presidente: — Obrigado, Sr. Deputado, acho que já ficou claro o pensamento. Está
encerrado o primeiro ponto da ordem de trabalhos. Vamos entrar no segundo
ponto, que consiste na apreciação da Conta de Gerência da Assembleia da
República relativa ao ano de 2024. Para a primeira intervenção, tem a palavra o
Sr. Deputado Emídio Guerreiro, do PSD, sendo que, enquanto o Sr. Deputado chega
à tribuna, pedia aos Srs. Deputados para fazerem a sua mobilidade sem apoio.
(…)
O Sr.
Presidente: — Não havendo mais inscrições, vamos passar ao terceiro ponto, as
votações.
(…)
O Sr.
Presidente: — Não havendo mais Deputados com dificuldade em registar-se, vamos
fechar o sistema.
Temos
205 Sr.as e Srs. Deputados presentes na Sala, portanto, temos condições para
proceder à votação.
Srs.
Deputados, vou colocar à votação, na generalidade, a Proposta de Lei n.º
51/XVII/1.ª (ALRAA) — Altera o Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, que
define um novo modelo para a atribuição de um subsídio social de mobilidade no
âmbito dos serviços aéreos entre o continente e as Regiões Autónomas dos Açores
e da Madeira e entre estas regiões.
Submetida
à votação, foi aprovada, com os votos a favor do CH, do PS, da IL, do L, do
PCP, do BE, do PAN, do JPP e de 6 Deputados do PSD (Francisco Pimentel, Nuna
Menezes, Paulo Moniz, Paulo Neves, Pedro Coelho e Vânia Jesus) e os votos
contra do PSD e do CDS-PP.
Esta proposta de lei baixa à 14.ª Comissão.
Segue-se a votação, na generalidade, da Proposta de Lei n.º 55/XVII/1.ª (ALRAM) — Altera o Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, que define um novo modelo para a atribuição de um subsídio social de mobilidade no âmbito dos serviços aéreos entre o continente e as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira e entre estas Regiões, na redação dada pelo Decreto-Lei n.º 1-A/2026, de 6 de janeiro, e revoga as respetivas normas regulamentares.
Submetida
à votação, foi aprovada, com os votos a favor do CH, do PS, do L, do BE, do PAN
e de 6 Deputados do PSD (Francisco Pimentel, Nuna Menezes, Paulo Moniz, Paulo
Neves, Pedro Coelho e Vânia Jesus), os votos contra do PSD, do CDS-PP e do JPP
e as abstenções da IL e do PCP.
Esta iniciativa baixa igualmente à 14.ª Comissão.
Por fim, vamos votar, na generalidade, o Projeto de Lei n.º 409/XVII/1.ª (CH) — Procede à alteração ao Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, afirmando a mobilidade aérea como direito dos cidadãos portugueses das regiões autónomas, reforçando a coesão e a continuidade territorial e alterando a designação do Subsídio Social de Mobilidade.
Submetida
à votação, foi aprovada, com os votos a favor do CH, do PS, do BE, do JPP e de
6 Deputados do PSD (Francisco Pimentel, Nuna Menezes, Paulo Moniz, Paulo Neves,
Pedro Coelho e Vânia Jesus), os votos contra do PSD, da IL e do CDS-PP e as
abstenções do L, do PCP e do PAN.
Este projeto de lei baixa também à 14.ª Comissão.
O Sr. Deputado Paulo Núncio pede a palavra. Faça favor.
O Sr. Paulo Núncio (CDS-PP): — Sr. Presidente, é simplesmente para informar que o Grupo Parlamentar do CDS irá apresentar uma declaração de voto escrita relativamente a estas três votações.
O Sr. Francisco César (PS): — Não vai ser suficiente para o CDS/Açores vos perdoar!
O Sr. Presidente: — Tem a palavra o Sr. Deputado Filipe Sousa.
O Sr. Filipe Sousa (JPP): — Sr. Presidente, é só para anunciar uma declaração de voto sobre estes três projetos que foram agora aprovados.
O Sr. Presidente: — Tem a palavra o Sr. Deputado Paulo Moniz.
O Sr. Paulo Moniz (PSD): — Sr. Presidente, é para informar que eu próprio e os meus colegas eleitos pelo círculo eleitoral dos Açores votámos a favor dos açorianos e vamos apresentar uma declaração de voto.
Vozes do CH e do PS: — Bem…!
O Sr. Presidente: — Srs. Deputados, Srs. Deputados… É a coisa mais natural em democracia: uns concordam, outros não concordam. Hoje é assim, amanhã é de outra maneira. Quem cá anda sabe que estas coisas variam, variam muito.
Tem a palavra o Sr. Deputado Pedro Coelho.
O Sr. Pedro Coelho (PSD): — Sr. Presidente, é só para informar a Câmara que os Deputados eleitos pelo PSD no círculo eleitoral da Madeira, Pedro Coelho, Vânia Jesus e Paulo Neves, irão apresentar uma declaração de voto sobre estes três diplomas.
O Sr. Presidente: — Então, exerceram o mandato para que foram eleitos, fazem a declaração de voto, cumpre-se a democracia.
———
Declarações de voto enviadas à Mesa para publicação
Relativas às Propostas de Lei n.os 51/XVII/1.ª e 55/XVII/1.ª e ao Projeto de Lei n.º 409/XVII/1.ª: que esteve em discussão nesta Assembleia não foi apenas um modelo de mobilidade aérea, foi uma questão de respeito, de dignidade, de igualdade entre portugueses.
Os
cidadãos das regiões autónomas não vivem num regime experimental nem estão
dependentes da boa vontade circunstancial de maiorias políticas. A continuidade
territorial não é um favor político, está consagrada na Constituição da
República Portuguesa. É obrigação do Estado, não é esmola administrativa.
A
mobilidade aérea para os madeirenses, porto-santenses e açorianos não pode
continuar a ser tratada como um mecanismo compensatório, sujeito a
aperfeiçoamentos sucessivos, regimes transitórios ou plataformas que prometem
simplificar e acabam por complicar.
O JPP
votou favoravelmente a Proposta de Lei n.º 51/XVII/1.ª, apresentada pela
Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, por entender que a
exigência de inexistência de dívidas fiscais ou contributivas como condição
para o pagamento do subsídio social de mobilidade, consubstancia uma
interpretação errada do princípio da continuidade territorial; traduz uma
diferenciação material injustificada entre portugueses e introduz uma divisão
inadmissível entre cidadãos, em função do território onde residem. A
continuidade territorial não pode depender das situações tributária e
contributiva do cidadão.
O JPP
votou também favoravelmente o Projeto de Lei n.º 409/XVII/1.ª, por considerar
que afirma, de forma inequívoca, a mobilidade aérea como matéria de coesão
nacional e continuidade territorial, procurando ultrapassar a lógica meramente
assistencial e burocrática do modelo vigente. Tal sentido de voto não implica
concordância integral com todas as soluções nele previstas, mas traduz a
concordância com o princípio de que a mobilidade não é um favor administrativo
nem pode depender da capacidade financeira imediata dos cidadãos.
Já
relativamente à Proposta de Lei n.º 55/XVII/1.ª, o JPP votou contra.
A
iniciativa apresenta-se como solução estruturante para ultrapassar o regime de
reembolso e permitir que o residente pague apenas o montante de referência no
momento da aquisição do bilhete. Contudo, essa concretização é remetida para a
entrada em funcionamento da plataforma eletrónica prevista no diploma.
Ora,
essa plataforma já se encontra em funcionamento e não dispõe da funcionalidade
necessária para assegurar o pagamento direto. A proposta não fixa qualquer
prazo vinculativo para a sua adaptação, nem impõe obrigação técnica concreta
que obrigue o Estado a alterar o modelo operacional existente.
Deste
modo, o que é anunciado como mudança estrutural pode traduzir-se, na prática,
na manutenção do regime atualmente em vigor, apenas com reformulação
declarativa do seu enunciado legal. Estamos perante uma solução que promete dar
com uma mão aquilo que mantém condicionado com a outra.
O JPP
não acompanha alterações formais que não garantam transformação material do
sistema. Não acompanhamos regimes transitórios indefinidos, nem soluções que
dependam de sucessivos aperfeiçoamentos administrativos sem compromisso
temporal claro. A igualdade entre portugueses não pode ser programática, tem de
ser executável.
Quando
um diploma anuncia o fim do reembolso, mas não assegura os mecanismos que o
tornam efetivo, não estamos perante uma reforma estrutural, mas perante um
ajustamento de superfície.
Por
isso, o JPP não poderia acompanhar esta proposta.
O JPP
apresentou uma solução clara, definitiva e responsável, assente num fundo de
garantia que protegeria os residentes, daria previsibilidade às companhias
aéreas e estabilidade às agências de viagem, eliminando a humilhação do
reembolso e a lógica de o cidadão adiantar dinheiro ao Estado.
Não
aceitamos uma igualdade a prestações.
Não
aceitamos uma autonomia tutelada.
Não aceitamos que os direitos dos insulares dependam de soluções provisórias, porque quando um direito é transitório, a igualdade também é. E o JPP não aceita igualdade a prazo.
O Deputado único do Juntos pelo Povo – JPP — Filipe Sousa.
Declaração de voto dos deputados do PSD-Açores
O
subsídio social de mobilidade, que não devia ter o nome de subsídio, não é uma
prestação social, não é uma medida assistencialista nem tão pouco um apoio
sujeito a candidatura. O denominado «subsídio social de mobilidade» é um
mecanismo de incentivo à mobilidade universal para todos os residentes nas
Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. Recorde-se que para viajar das
regiões autónomas para o continente português e entre as mesmas, o único meio
de transporte é o aéreo. Constatado este facto e os custos avultados destas
deslocações, quando comparadas com outras deslocações no continente português,
o Estado, cumprindo o princípio da continuidade e coesão social territorial,
decidiu, e bem, comparticipar e incentivar a mobilidade, assumindo uma parte significativa
dos custos de cada passagem aérea, pagando o passageiro uma parte considerada
razoável quando comparada com outras formas de mobilidade no País. A intenção
sempre foi aproximar os custos de mobilidade para todos os portugueses,
independentemente de onde residem.
As
alterações ao subsídio social de mobilidade (SSM), como a criação de uma
plataforma digital, a agilização nos reembolsos poderem ser efetuados antes,
sequer, de iniciar a viagem; a opção de já não se ter de enfrentar filas
intermináveis nos CTT; o combate à fraude e a diminuição do preço da parte que
cabe ao passageiro – no caso dos Açores para 119 € para residentes e 89 € se
for estudante a viajar para o continente; 79 € para residentes na Madeira, 59 €
no caso de estudantes e 79 € entre as duas regiões autónomas – têm sido avanços
positivos, benéficos e favoráveis.
Assumindo
que não há sistemas perfeitos, e sendo contra o teto máximo de 600 €, como
sempre dissemos, com estes avanços e diminuição de preços das tarifas, estamos
perante alterações positivas e que, nos dias de hoje, na era tecnológica, são
bastante importantes.
O
grande objetivo final é que os passageiros residentes apenas paguem a tarifa do
bilhete – no caso dos Açores, 119 € para residentes e 89 para estudantes –, e
que o remanescente seja alvo de encontro de contas entre o Estado e as
companhias aéreas, seguindo o modelo da «Tarifa Açores», que funciona
inter-ilhas. Há que encontrar mecanismo cuidado, rigoroso e favorável a todas
as partes: Estado, passageiros e companhias aéreas, para que este objetivo seja
alcançado.
Contudo,
sobre as novas alterações ao SSM que estão em vigor, principalmente as que
condicionam o acesso ao mesmo, com a questão de obrigatoriedade da ausência de
dívidas ao Estado, e que fazem distinção negativa e discricionária de açorianos
e madeirenses em relação a outros portugueses residentes em território
continental, não podemos estar de acordo.
Neste
momento, as normas das Portarias n.os 12-A/2026 e 12-B/2026, de 6 de janeiro,
que regulamentam o Decreto-Lei n.º 1-A/2026, de 6 de janeiro, que altera o
Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24 de março, trazem alterações, como a
obrigatoriedade da ausência de dívida do passageiro à Autoridade Tributária e
Aduaneira e à Segurança Social, com as quais não podemos concordar, assim como
a repartição do limite de 600 € em 300 € one way, montante que, estando
dividido e não de forma global para ida e volta, como era até aqui, limita
ainda mais o passageiro.
Importa,
neste momento, distinguir, de forma clara, duas situações no que a este assunto
diz respeito. A primeira é quando o Estado define o acesso a certos subsídios
sociais e assistencialistas de combate à pobreza, desemprego, prestação de
serviços, apoios para autoemprego, habitação degradada e outras candidaturas,
em que exige sempre esta declaração de não dívida aos cidadãos. Isto aplica-se
desde governos, autarquias e todos os serviços públicos, quando estão em causa
transações monetárias entre estes e os cidadãos. A isto toda a nossa sociedade
já está habituada, estamos todos de acordo, e a sua aplicação decorre da lei.
Outra
bem diferente é aplicar estes mesmos critérios a um mecanismo que não é, em si,
um subsídio social assistencialista, não é uma benesse, não implica uma
candidatura, porque é universal para residentes nas regiões autónomas e assenta no exato mesmo
princípio de que assentam os apoios do Estado à mobilidade dos portugueses,
através da CP - Comboios de Portugal, da Carris ou do Metro e nas rotas aéreas continentais
entre Faro, Vila Real ou Bragança, sempre que se adquirem bilhetes ou passes.
Nestes
casos o Estado apoia e financia estas empresas, no SSM o financiamento é direto
ao passageiro, mas nos casos enunciados para qualquer forma de mobilidade
descrita, no continente não é exigido que qualquer passageiro não tenha dívidas
à Autoridade Tributaria e Aduaneira ou à Segurança Social. O passe ou o bilhete
é-lhe vendido simplesmente, sem qualquer questão do foro fiscal.
Esta
nova exigência constitui uma restrição material sem sentido, uma condição
negativamente diferenciadora e injusta, em oposição ao princípio do que o SSM
pretende promover, contrariando a continuidade territorial e a ultraperiferia,
pondo em causa o princípio constitucional da igualdade de todos os cidadãos.
Por
todas estas razões, por uma questão de igualdade na exigência a todos os
portugueses, independentemente do local onde residem, no acesso aos mesmos
direitos, por uma questão de justiça e até de dúvidas sobre a
constitucionalidade das alterações efetuadas e agora em vigor, pelo principio
da nossa constante defesa dos supremos interesses dos Açores e de todos os
açorianos, nós, os Deputados do PSD, eleitos pelo círculo eleitoral dos Açores,
votamos a favor das alterações que revogam e corrigem, nestes aspetos, o
subsidio social de mobilidade, retirando as limitações impostas de forma
discricionária ao seu acesso por parte dos residentes nas regiões autónomas.
Votamos
a favor da Proposta de Lei nº 51/XVll/1ª, da Assembleia Legislativa da Região
Autónoma dos Açores (ALRAA) e da Proposta de Lei n.º 55/XVll/1.ª, da Assembleia
Legislativa da Região Autónoma da Madeira (ALRAM).
Também
votamos a favor das propostas de alteração para os mesmos efeitos das propostas
de lei da ALRAA e da ALRAM, inseridas através das apreciações parlamentares
n.os 6/XVll/1.ª e 7/XVIl/1.ª do PS, CH, PCP, BE, IL e L, que agora baixam à
Comissão.
Quando
fomos eleitos jurámos a Constituição da República Portuguesa e também
prometemos defender sempre os Açores e os açorianos.
Estamos perante uma medida divisionista, que diferencia açorianos, madeirenses e residentes no continente, alterações com as quais não podemos concordar, porquanto o acesso aos incentivos à mobilidade, devem manter-se como um direito universal para todos.
Os Deputados do Círculo dos Açores — Paulo Moniz — Francisco Pimentel — Nuna Menezes.
Declaração de voto dos deputados do PSD-Açores
Os
Deputados do PSD eleitos pelo círculo eleitoral da Madeira, votaram
favoravelmente a Proposta de Lei n.º 55/XVII/1.ª, da iniciativa da Assembleia
Legislativa da Madeira (ALRAM), que altera o Decreto-Lei n.º 37-A/2025, de 24
de março, que define um novo modelo para a atribuição de um subsídio social de
mobilidade no âmbito dos serviços aéreos entre o continente e as Regiões
Autónomas dos Açores e da Madeira e entre estas regiões, na redação dada pelo
Decreto-Lei n.º 1-A/2026, de 6 de janeiro.
O
nosso sentido de voto nesta matéria não coincidiu com o da bancada do Grupo
Parlamentar do PSD, porque entendemos que acima de alinhamentos ou disciplinas
partidárias, está sempre a defesa intransigente dos interesses da população da
Região Autónoma da Madeira. Sempre!
Os
Deputados do PSD abaixo-assinados, estavam plenamente preparados para intervir
no debate e apresentar, no Plenário da Assembleia da República, os fundamentos
da proposta da ALRAM que foi discutida e aprovada no dia de hoje. Não tendo
sido permitido intervir, como era nossa vontade e desejo, transmitimos ao
Presidente do Grupo Parlamentar do PSD o nosso veemente protesto. Não tivemos
voz em Plenário, mas votamos favoravelmente ao lado dos madeirenses. Em
primeiro lugar, sempre a Madeira.
Enquanto
eleitos pela Madeira, o fundamental é, em primeiro lugar, proteger os
residentes no seu direito inalienável à mobilidade, e assegurar estabilidade e
previsibilidade de um modelo que garanta também a manutenção e potencial
alargamento da operação pelas companhias aéreas.
A
proposta de lei vinda da ALRAM, primeiro órgão de governo próprio da Região,
define de forma clara e objetiva o quadro jurídico necessário para assegurar e
garantir o acesso efetivo ao subsídio social de mobilidade (SSM), sem barreiras
burocráticas injustificadas e introduzidas, por via regulamentar, que nós não
aceitamos nem compreendemos.
Não
podemos aceitar que o acesso à mobilidade seja condicionado por critérios
administrativos e/ou regulamentares que desvirtuam a natureza e a finalidade do
SSM, que foi instituído em 2015. Vincular o acesso do subsídio a meras
certidões de não dívida à Autoridade Tributária e à Segurança Social, é
transformá-lo num instrumento de coerção fiscal que colide com os princípios da
continuidade e coesão territorial.
A
proposta da ALRAM clarifica, igualmente, o cálculo do subsídio, designadamente
nas viagens one way, evitando distorções e garantindo maior equilíbrio,
sobretudo num contexto em que a redução do teto elegível de 400 € para 200 €
euros aumenta o esforço financeiro dos portugueses das Ilhas em períodos de
maior procura.
Por
outro lado, a modernização do modelo através de uma plataforma eletrónica vai
de encontro ao objetivo mais amplo de modernização e reforma do Estado.
Contudo, modernizar deve ser simplificação, eficiência e melhoria do serviço ao
cidadão, nunca uma exclusão ou sobrecarga administrativa.
Por
fim, a proposta da ALRAM projeta a futura «Tarifa Residente Insular», assente
num modelo que permita ao residente pagar apenas o valor líquido da viagem. É
exatamente isso que nós defendemos. Importa sublinhar que esta visão não é nova
nem disruptiva, corresponde a um compromisso político já assumido publicamente
pelo Governo da AD, designadamente pelo Sr. Ministro das Infraestruturas e
Habitação, ao afirmar que o objetivo é trabalhar para que o residente pague
apenas o valor final da sua viagem. Nesse sentido, o projeto de lei da ALRAM é
um passo responsável, coerente e alinhado com as promessas do Governo da
República.
Os deputados do PSD eleitos pelo círculo eleitoral da Madeira votaram naturalmente a favor da proposta de lei apresentada pela ALRAA, e do projeto de lei da autoria do Chega, pela convergência destas propostas num ponto essencial: a defesa da continuidade territorial, a afirmação da igualdade material entre portugueses e a necessidade de aperfeiçoar o modelo vigente do subsídio social de mobilidade entre o continente e as Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores.
Os
Deputados do PSD — Pedro Coelho — Vânia Jesus — Paulo Neves.
Nota: A declaração de voto anunciada pelo Deputado do CDS-PP Paulo Núncio não foi entregue no prazo previsto no n.º 4 do artigo 87.º do Regimento da Assembleia da República.


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