segunda-feira, março 23, 2026

Sondagem Expresso/SIC: Portugueses arrasam Governo na habitação, custo de vida e corrupção

Um em cada cinco eleitores do PSD chumba ação do Executivo de Luís Montenegro, revela estudo feito pelo ICS/ISCTE. Maioria dos simpatizantes da AD discordam de Governo na criminalidade. Montenegro tem positiva à tangente. Vermelho: é a cor do cartão que a maioria dos portugueses mostra ao Governo, menos de um ano depois de ter tomado posse pela segunda vez. A conclusão é do estudo feito pelo ICS/ISCTE para o Expresso e SIC que mostra que mais de metade dos inquiridos (56%) faz uma avaliação má ou muito má do desempenho do Executivo. Pelo contrário, 34% considera o desempenho “bom” e só 1% o classifica como “muito bom”.

Sectorialmente a avaliação continua em baixa. Da habitação à saúde, da imigração ao ambiente, não há área em que os portugueses façam uma avaliação positiva à atuação do Governo. Aliás, a insatisfação é praticamente total quanto à forma como o Executivo tem lidado com as áreas da habitação e do custo de vida. O número fala por si: 93% dos inquiridos dizem-se “pouco ou nada satisfeitos” com o rumo do Governo nestas duas questões. Isto significa que apenas 3% e 5% estão “algo satisfeitos” com a habitação e o custo de vida, respetivamente, e nenhum se diz “muito satisfeito”.

93% dos inquiridos “pouco ou nada satisfeitos” com atuação do Governo na habitação

Estas avaliações não têm ainda em conta as alterações anunciadas pelo Governo sobre a lei do arrendamento, na semana passada, que incluem medidas como a flexibilização dos despejos em situações de incumprimento reiterado. Também ficaram fora do trabalho de campo (realizado entre 27 de fevereiro e 8 de março) as medidas apresentadas por Luís Montenegro, na passada quarta-feira, para responder à subida de preços causada pela guerra entre os Estados Unidos e o Irão.

A rejeição é igualmente profunda na resposta do Governo à corrupção (89% estão pouco ou nada satisfeitos), na atuação em relação aos impostos sobre o rendimento (88%), no serviço nacional de saúde (81%) e na criminalidade (82%).

Avaliação da atuação recente dos políticos

A insatisfação desce ligeiramente quando as questões incidem na resposta do Governo em relação à imigração (67%), proteção do ambiente e da natureza (61%) e ensino público (56%). Das nove áreas incluídas no estudo, a proteção do ambiente é aquela que conta com mais inquiridos “algo ou muito satisfeitos” (33%) com o caminho percorrido pelo executivo de Luís Montenegro. Esta análise sector a sector pode ajudar a explicar a estagnação do PSD nas intenções de voto, apontada na primeira parte desta sondagem (publicada na edição anterior). Assim como a tendência de crescimento tanto do PS – que empata na frente com o partido de Luís Montenegro – como do Chega, que surge em terceiro lugar.

Eleitores do PSD insatisfeitos com Governo na criminalidade

Não há espanto quando os partidos da oposição saem ao ataque das opções do Governo. A novidade surge quando as críticas emergem de dentro do próprio partido. É isso que acontece no PSD quando os simpatizantes são questionados sobre a atuação do Governo na área da criminalidade. Uma esmagadora maioria (71%) afirmou estar pouco ou nada satisfeita com o Executivo. Este valor está apenas a uma distância de 12 pontos percentuais para os simpatizantes do PS (83% de insatisfeitos) e a 25 dos do Chega (96% de insatisfeitos).

A avaliação negativa contrasta com a prioridade dada por Montenegro ao combate à criminalidade, que transformou em bandeira. Ainda em janeiro deste ano, a então ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, anunciou investimentos de seis milhões de euros na compra de oito mil bodycams para a PSP e GNR. Os eleitores que se consideram mais próximos do PSD voltam a puxar as orelhas ao Governo na atuação sobre o SNS. Mais de metade (61%) afirmaram-se pouco ou nada satisfeitos com a forma como o Executivo está a agir na Saúde. Como seria de esperar, os números engordam quando a questão é feita aos partidos da oposição. Mais concretamente, 89% dos simpatizantes do Chega e 82% dos eleitores socialistas penalizam o Governo.


Na imigração, já não se pode falar numa maioria social-democrata insatisfeita. Contudo, há ainda 46% de simpatizantes do PSD que não concordam com a atuação do executivo de Luís Montenegro. No ambiente e no ensino público os valores reduzem para os 39%.

Embora o Governo tenha contado com o Chega para passar medidas na imigração, os simpatizantes do partido de André Ventura continuam a querer mais. 90% deste eleitorado afirmou-se pouco ou nada satisfeito com o trajeto da AD nesta matéria. Por seu lado, 63% dos simpatizantes do PS respondem no mesmo sentido, embora por motivos opostos. Os socialistas têm acusado Montenegro de ceder à extrema-direita e de executar uma agenda que ignora os dados oficiais.

Já numa avaliação geral sobre a evolução da situação económica no último ano, metade dos inquiridos dá negativa: 41% dizem que “piorou” e 9% que “piorou muito”. A avaliação é mais negativa entre os simpatizantes do Chega (74%) que entendem que a economia piorou ou piorou muito, mas mesmo entre os simpatizantes da AD este avaliação é expressiva (30%).

Portugal tem ido pelo caminho certo ou errado?

Montenegro com positiva à tangente

Olhando novamente para o eleitorado social-democrata, a apreciação geral do Governo fica aquém do esperado: um em cada cinco simpatizantes do PSD (18%) dá nota negativa ao Executivo de Luís Montenegro. Isto já era visível na sondagem de abril do ano passado, onde 23% dos que revelam proximidade ao PSD deram nota negativa ao Governo, um valor “nem mais alto nem mais baixo” do que estes 18% dada a dimensão do grupo e a margem de erro, explicam os autores do estudo.

Do lado da oposição, a penalização é maior. De acordo com os dados, 87% dos simpatizantes do Chega e 65% dos do PS avaliam negativamente o desempenho da equipa do primeiro-ministro. Quando o foco se concentra só em Luís Montenegro, o cenário fica um pouco mais positivo para o PSD. Apesar de ser à tangente, os inquiridos dão positiva à atuação do primeiro-ministro — numa escala em que zero é muito negativa e 10 é muito positiva, é-lhe atribuído um 5,2. Assim, Luís Montenegro fica atrás apenas de António José Seguro e Marcelo Rebelo de Sousa, avaliados com seis cada um. José Luís Carneiro surge colado com um 5 nessa avaliação global.

Maioria dos simpatizantes da AD (71%) discordam de Governo na criminalidade

Olhando para o eleitorado de cada partido, Luís Montenegro é o mais bem cotado (7,7) entre as figuras políticas para os sociais-democratas. O mesmo acontece no Chega com os simpatizantes a darem uma nota ainda mais alta — de 8,5 — a André Ventura. Só no PS o líder partidário não consegue alcançar o pódio. Apesar de ter positiva (6,3), José Luís Carneiro é ultrapassado por Marcelo Rebelo de Sousa (6,5) e António José Seguro (7,8). Na avaliação geral dos inquiridos, todos os outros líderes partidários caem para o vermelho, com Rui Tavares e Élvio Sousa, líder do JPP, empatados (4,2), seguidos por Mariana Leitão (4,1). Um pouco mais abaixo, com 3,9, ficam André Ventura, José Manuel Pureza e Nuno Melo. Os que têm pior avaliação são Inês Sousa Real (3,6) e Paulo Raimundo (3,4).

FICHA TÉCNICA

Sondagem cujo trabalho de campo decorreu entre os dias 27 de fevereiro e 8 de março de 2026. Foi coordenada por uma equipa do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) e do ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE —- IUL), tendo o trabalho de campo sido realizado pela GfK Metris. O universo da sondagem é constituído pelos indivíduos de ambos os sexos com idade igual ou superior a 18 anos e capacidade eleitoral ativa, residentes em Portugal Continental. Os respondentes foram selecionados através do método de quotas, com base numa matriz que cruza as variáveis Sexo, Idade (4 grupos), Instrução (3 grupos), Região (7 Regiões NUTS II) e Habitat/Dimensão dos agregados populacionais (5 grupos). A partir de uma matriz inicial de Região e Habitat, foram selecionados aleatoriamente 100 pontos de amostragem, onde foram realizadas as entrevistas de acordo com as quotas acima referidas. A informação foi recolhida através de entrevista direta e pessoal na residência dos inquiridos, em sistema CAPI, e a intenção de voto recolhida através de simulação de voto em urna. Foram contactados 2778 lares elegíveis (com membros do agregado pertencentes ao universo) e obtidas 801 entrevistas válidas (taxa de resposta de 29%, taxa de cooperação de 46%). O trabalho de campo foi realizado por 39 entrevistadores, que receberam formação adequada às especificidades do estudo. Todos os resultados foram sujeitos a ponderação por pós-estratificação de acordo com a frequência de prática religiosa e a pertença a sindicatos ou associações profissionais dos cidadãos portugueses com 18 ou mais anos residentes no Continente, a partir dos dados da vaga mais recente do European Social Survey (Ronda 11). A margem de erro máxima associada a uma amostra aleatória simples de 801 inquiridos é de +/- 3,5%, com um nível de confiança de 95% (Expresso, texto das jornalistas Margarida Coutinho Paula Caeiro Varela e Sofia Miguel Rosa)

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