Líderes europeus perderam a paciência com o primeiro-ministro húngaro e na última cimeira criticaram-no duramente. Em plena campanha eleitoral, Viktor Orbán não cede e mantém bloqueio ao financiamento de €90 mil milhões à Ucrânia. O primeiro-ministro húngaro voltou a testar a paciência dos colegas europeus, mas, desta vez, a tensão e o descontentamento na sala subiram de tom, com a maioria dos líderes a não conter a irritação e a dirigir-lhe duras críticas por manter o bloqueio ao empréstimo de €90 mil milhões à Ucrânia. Aos jornalistas, o presidente do Conselho Europeu resumiu que “condenaram veementemente a atitude de Viktor Orbán”.
António Costa fala em chantagem, diz que “um acordo é um acordo”, que os líderes devem manter a palavra e que “ninguém pode chantagear o Conselho Europeu”. Lá dentro, o português foi o primeiro a usar da palavra, para dizer ao húngaro que este tinha pisado todas as linhas vermelhas ao bloquear o financiamento a Kiev, depois de, em dezembro, ter concordado com o empréstimo daquele montante.
Seguiram-se os restantes líderes, tomando a palavra para dizer o mesmo de forma diferente. O chanceler alemão acusou Orbán de “deslealdade”, o Presidente francês lembrou que não se volta atrás nos acordos feitos. Segundo fonte europeia, não houve propriamente uma tentativa de convencer o chefe do Governo húngaro a mudar de opinião, o que ficou clara foi a frustração cada vez maior com o comportamento daquele que é o líder há mais tempo na sala. Está há 16 anos no poder e em plena campanha eleitoral para ficar mais um mandato.
Orbán, Zelensky e o oleoduto
O braço-de-ferro do húngaro com o Presidente ucraniano tem dominado as eleições na Hungria, com Orbán a acusar a Ucrânia de pôr em causa a segurança energética do país, ao não restabelecer o fornecimento de gás russo a Budapeste através do oleoduto de Druzhba, que atravessa a Ucrânia e que em janeiro foi bombardeado pela Rússia. Volodymyr Zelensky tem dito que são precisas seis semanas de reparação para tornar o oleoduto operacional, mas Orbán não acredita e garante que enquanto não houver petróleo para a Hungria, não há dinheiro para Kiev.
O húngaro veio ainda acrescentar que quer garantias de que não volta a haver interrupções no futuro. Algo que terá enfurecido ainda mais os líderes, porque isso é algo que depende mais da Rússia do que deles. Costa fez questão de lembrar, na conferência de imprensa, que esta já é a 23ª vez que o oleoduto é danificado pelos russos e que Kiev tem de o reparar.
‘Puxão de orelhas’ grego, tom italiano mais suave
Na sala, uma das críticas mais duras veio do primeiro-ministro grego, rejeitando que uma decisão europeia fique bloqueada por uma questão interna húngara. Kyriákos Mitsotákis lembrou a Orbán o incidente em que drones ucranianos atingiram – alegadamente por engano – petroleiros gregos no Mar Negro e disse-lhe que, apesar de também ser uma situação delicada para a Grécia, não tinha usado isso para bloquear o financiamento. A Ucrânia vai precisar do dinheiro em maio, não só para pagar salários e pensões, mas também para sobreviver à Rússia na frente de batalha. Zelensky chegou mesmo a sugerir publicamente que daria a morada do primeiro-ministro húngaro aos soldados ucranianos.
Um comentário que Costa disse ter sido “inaceitável”, deixando esse repúdio claro durante a reunião à porta fechada dos líderes europeus. O Expresso sabe que lá dentro o presidente do Conselho Europeu garantiu também a Orbán que ele próprio e a presidente da Comissão têm estado a fazer tudo para que o oleoduto de Druzhba, que atravessa a Ucrânia, seja reparado e para que a Hungria volte a receber petróleo russo. Bruxelas vai mesmo dar fundos europeus para pagar a reparação.
A voz mais ‘soft’ com o húngaro foi a da italiana Giorgia Meloni. Cá fora, aos jornalistas, afirmou que acreditava que a situação poderia ser resolvida com flexibilidade tanto da Hungria como da Ucrânia. Ao que o Expresso apurou, lá dentro, a chefe do Governo italiano também considerou que o bloqueio húngaro tem acabar, mas num tom mais suave do que o da maioria.
O amigo eslovaco e a saída do impasse
A exceção às críticas foi o primeiro-ministro eslovaco. Robert Fico aproveitou a situação para reafirmar que também ele quer voltar a receber rapidamente petróleo russo. A Eslováquia e a Hungria são os dois únicos países europeus que beneficiam de uma exceção ao embargo ao petróleo de Moscovo e que são abastecidos pelo oleoduto de Druzhba.
Fico está alinhado com Orbán no bloqueio ao 20º pacote de sanções à Rússia, por causa desta questão. Porém, o eslovaco não alinha com o húngaro contra o financiamento dos €90 mil milhões. A questão é como se sai deste impasse? Não há solução à vista, pelo menos até às eleições húngaras de 12 de abril ou até o oleoduto estar reparado. Duas datas que podem até coincidir.
Apesar da irritação e das palavras duras dos líderes dirigidas a Orbán, ninguém quer dar-lhe ainda mais motivos que possa usar em campanha. E também faltam soluções jurídicas e rápidas para pôr fim ao bloqueio e, por isso, o primeiro-ministro húngaro acabou por sair de Bruxelas como vencedor do braço-de-ferro. Pelo menos, para já (Expresso, texto da jornalista Susana Frexes,Correspondente em Bruxelas)

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