terça-feira, março 31, 2026

A indústria da aviação está a ficar sem as pessoas que mantêm os aviões a voar

A falta de profissionais, agravada por reformas, a pandemia e menor entrada de novos técnicos, está a levar escolas a expandir programas e empresas a oferecer melhores salários e incentivos- Uma escassez global de mecânicos de aeronaves está a provocar atrasos, cancelamentos e a levar a um esforço para formar mais pessoas para reparar aviões.

No Cincinnati State Technical and Community College, no estado de Ohio, as inscrições estão a disparar à medida que companhias aéreas e transportadoras de carga se apressam a contratar mecânicos qualificados. A escola tem agora 185 estudantes no seu programa de manutenção aeronáutica e planeia expandir para poder acolher 350, segundo administradores da instituição. Os empregadores já estão a fazer fila, revela o instrutor Ken Rohling, que se formou no mesmo programa em 1987 e trabalha na área desde então. “Basicamente, eles vêm cá e dizem: ‘ficamos com todos vocês quando obtiverem a licença’”, afirma Rohling.

A pressão na contratação reflete uma escassez crescente que já está a transformar o transporte aéreo. A indústria enfrenta uma falta de cerca de 17 mil técnicos na América do Norte, de acordo com novos dados divulgados da consultora Oliver Wyman. As projeções indicam que outros 45 mil técnicos deverão reformar-se na próxima década. Prevê-se que o défice atinja o pico em 2028, podendo chegar a 30 mil mecânicos em falta.

“É realmente a tempestade perfeita”, explica Brian Prentice, parceiro nas áreas de transporte e operações da consultora. “Os aviões estão a voar durante mais tempo, a procura por viagens é elevada e estamos a perder técnicos experientes ao mesmo tempo.”

Esta combinação significa menos aviões disponíveis para voar e, segundo Prentice, as companhias aéreas acabarão por programar menos voos. Os estudantes do Cincinnati State dizem que a escassez de trabalhadores é o maior fator de atração para eles. “Para mim, é segurança no emprego”, diz Taylor Hill, que deixou um trabalho numa instalação da Amazon depois de descobrir o programa numa feira de carreiras.

O salário inicial para mecânicos em início de carreira na região de Ohio aproxima-se agora dos 28 a 30 dólares (24 a 26 euros) por hora, refere, muito mais do que muitos outros empregos disponíveis sem um curso superior de quatro anos. “Vamos sempre precisar de mecânicos”, afirma Hill. “É uma boa carreira.”

Muitos estudantes já trabalham na aviação enquanto concluem o curso. Matthew Brown, que trabalha a tempo inteiro na logística de peças de aeronaves enquanto frequenta as aulas, refere que a procura é evidente. “Está tudo em expansão”, afirma Brown, referindo que, numa oficina onde trabalhou, estima que 70% dos mecânicos tinham mais de 50 anos.

A lacuna não surgiu de um dia para o outro. Após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, as companhias aéreas reduziram contratações durante anos, criando o que os analistas chamam de “geração perdida” de mecânicos. Depois veio a pandemia de Covid-19, quando milhares abandonaram a indústria. Ao mesmo tempo, menos técnicos militares — que eram uma importante fonte de mecânicos civis — estão a entrar no mercado de trabalho.

A escassez global de trabalhadores significa que a manutenção demora mais tempo e que os aviões passam mais tempo em terra. As companhias aéreas também estão a manter os aviões em serviço por mais tempo, aumentando a quantidade de trabalho necessário. “Isto vai aumentar os custos para as companhias aéreas”, diz Prentice. “E isso é repercutido nos passageiros.”

A formação dos mecânicos não termina no Cincinnati State. Numa instalação próxima da GE Aerospace, cerca de quatro mil mecânicos chegam todos os anos para formação avançada, obrigatória antes de poderem trabalhar em determinados motores. O objetivo, segundo a GE Aerospace, é garantir consistência e segurança numa frota global em rápido crescimento.

De volta ao hangar do Cincinnati State, os estudantes que estão agora a entrar na área dizem que o momento não podia ser melhor. “Há muitas oportunidades de horas extraordinárias, muito crescimento”, refere Brown. “As empresas pagam para que nos mudemos e oferecem salários bastante elevados.” O instrutor Rohling diz que a nova geração já está a mudar a indústria. “Eles querem aprender”, afirma. “Querem trabalhar em aviões.” (CNN-Portugal e CNN-Internacional, texto do jornalista, Pete Muntean)

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