quinta-feira, março 19, 2026

Hotéis de luxo, mansões e centros comerciais na Europa: fortuna do novo líder iraniano é exposta

Enquanto a propaganda oficial do regime iraniano sempre apresentou a liderança do país como um exemplo de austeridade e devoção religiosa, novas investigações revelam uma realidade bem diferente. Um vasto império imobiliário ligado ao novo líder supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, que terá acumulado centenas de milhões de euros em ativos no Ocidente, incluindo hotéis de luxo, centros comerciais e propriedades em Londres. A informação é avançada pelo ‘El Confidencial’, com base em investigações internacionais e documentos corporativos. Segundo a publicação do país vizinho, a rede de investimentos na Europa poderá ultrapassar os 400 milhões de euros, incluindo propriedades de elevado valor no Reino Unido avaliadas em mais de 180 milhões de euros. Estes ativos fazem parte de uma estrutura financeira complexa que se estende por vários países e que, segundo investigações citadas pela ‘Bloomberg’, também envolve interesses no transporte marítimo no Golfo Pérsico e contas bancárias na Suíça.

Grande parte dessas aquisições terá sido realizada através do empresário iraniano Ali Ansari, que surge como intermediário em várias operações imobiliárias. O dinheiro que alimentou este império terá origem, sobretudo, na venda de petróleo iraniano, circulando por contas no Reino Unido, Suíça, Liechtenstein e Emirados Árabes Unidos, apesar das sanções impostas ao Irão desde 2019.

Império imobiliário espalhado pela Europa

A investigação revela um portfólio diversificado de ativos de luxo. Entre eles está o resort de golfe e spa Steigenberger em Camp de Mar, em Maiorca, um hotel de 164 quartos considerado um dos mais exclusivos do Mediterrâneo e avaliado em cerca de 22 milhões de euros. O empresário também surge ligado ao Schlosshotel Kitzbühel, um prestigiado hotel de esqui nos Alpes austríacos, e a dois hotéis de luxo em Frankfurt — o Hilton Frankfurt City Centre e o Hilton Frankfurt Gravenbruch — avaliados em cerca de 80 milhões de euros cada.

Na Alemanha, a rede inclui ainda o centro comercial Bero Oberhausen, no noroeste do país, cujo valor ronda 68 milhões de euros. A aquisição terá sido realizada através de uma estrutura empresarial registada no Luxemburgo. Segundo o ‘El Confidencial’, muitos destes ativos estão escondidos por trás de uma complexa rede de empresas de fachada distribuídas por várias jurisdições, incluindo Luxemburgo, Ilha de Man e São Cristóvão e Nevis, antes de convergirem numa holding chamada Smart Global Limited.

Mansões milionárias em Londres

Uma das partes mais sensíveis desta rede encontra-se no Reino Unido. Documentos analisados pelo ‘Financial Times’ mostram que uma subsidiária da Smart Global Limited foi utilizada para adquirir, em 2013, um conjunto de 12 mansões abandonadas na Bishops Avenue, em Londres — conhecida como a “Rua dos Bilionários” — por cerca de 85 milhões de euros. Um ano depois, outra mansão na mesma avenida foi comprada por 40 milhões de euros. O portfólio imobiliário londrino inclui também dois apartamentos de luxo próximos do Palácio de Kensington, adquiridos por cerca de 42 milhões de euros, além de uma propriedade adicional num condomínio exclusivo da mesma zona, avaliada em cerca de 11 milhões de euros.

Grande parte destes ativos encontra-se atualmente congelada devido às sanções impostas pelo Reino Unido a Ali Ansari em outubro do ano passado. Londres acusou o empresário de financiar “atividades hostis” associadas à elite militar iraniana. Ansari negou qualquer ligação financeira ou pessoal a Mojtaba Khamenei e afirmou que pretende contestar as sanções.

Propriedades levantam alertas de segurança

Alguns dos imóveis em Londres chamaram particularmente a atenção das autoridades e de especialistas em segurança devido à sua localização. Dois dos apartamentos associados à rede ficam a menos de 50 metros da embaixada israelita em Londres, com vista direta para o complexo diplomático. Especialistas citados pelo ‘El Confidencial’ alertam que esta proximidade poderia permitir atividades de vigilância, incluindo a observação de funcionários e visitantes da embaixada ou até a utilização de tecnologias de monitorização para captar conversas ou dados de comunicações. A descoberta destes ativos coincidiu com a detenção recente, no norte de Londres, de quatro cidadãos iranianos suspeitos de espionagem para os serviços de inteligência de Teerão.

Sanções e redes financeiras opacas

O caso ilustra como parte da elite iraniana conseguiu transferir capital para o exterior apesar das sanções internacionais que, há mais de duas décadas, tentam limitar a capacidade financeira do regime. Especialistas em finanças ilícitas apontam que fragilidades no sistema internacional — desde registos pouco transparentes de beneficiários finais até a aplicação desigual de sanções — continuam a permitir a criação de redes financeiras complexas. Segundo Farzin Nadimi, investigador do Instituto de Washington para Política do Oriente Próximo, Mojtaba Khamenei terá participações ou controlo indireto em várias entidades dentro e fora do Irão. Na análise da rede financeira, o nome de Ali Ansari surge frequentemente como titular formal das empresas e contas utilizadas para gerir esses ativos (Executive Digest, texto do jornalista Francisco Laranjeira)

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