segunda-feira, março 23, 2026

Sondagem Expresso/SIC: Eleitores querem Montenegro a negociar com o PS e o Chega

A mensagem é clara: os portugueses privilegiam negocia­ções do Governo com os dois maiores partidos da oposição ou apenas com o PS, rejeitando a ideia de negociações apenas com o Chega. A opinião dos inquiridos na sondagem do ICS/ISCTE para o Expresso e SIC é a de que o Executivo não deve virar-se apenas para a extrema-direita. A maioria dos inquiridos (38%) defende que a AD deve negociar ora com o Chega, ora com o PS, dependendo do tema, o que corresponde à posição que o primeiro-ministro tem adotado, pelo menos no discurso, ao recusar definir um “parceiro preferencial”, apesar de existir uma maioria parlamentar de direita, e dizer que negoceia com “todos”. Com apenas um ponto percentual de diferença, 37% dos inquiridos entendem que o Governo deve negociar em exclusivo com o PS e apenas 15% esperam que o parceiro preferencial seja o Chega.

Apesar do aparente alinhamento entre o primeiro-ministro e os inquiridos neste ponto, certo é que o Governo tem contado sobretudo com os votos do Chega para aprovar as principais propostas, como o pacote legislativo da habitação, a lei da nacionalidade e a lei de estrangeiros, ou a recente alteração ao Código do Processo Penal. A exceção foi o Orçamento do Estado, que só foi viabilizado graças à abstenção do PS. O Chega votou contra. Este ano, na verdade, o cenário pode mudar com a ameaça dos socialistas de rutura em todo o diálogo político com o Governo, caso sejam deixados de fora das escolhas de três juízes para o Tribunal Constitucional.

Com quem deve a AD negociar como parceiro do governo?

Esta inclinação para a extrema-direita pode, por sua vez, contribuir para as razões da avaliação negativa de parte dos sociais-democratas às escolhas do Executivo. Isto porque apenas 4% dos simpatizantes do PSD consideram que a AD deve negociar preferencialmente com o Chega. E olhando apenas para este universo de votantes, a mensagem para como deve Montenegro passar a gerir as negociações do seu Governo minoritário é clara: 45% defendem que o PS seja definido como parceiro preferencial e outros 45% seguem a tendência geral de manter negociações à esquerda e à direita. E este é um ponto fulcral depois do ultimato do PS, que pode fazer desequilibrar os pratos da balança e retirar ao Governo a possibilidade de jogar com os dois lados.

A posição dos simpatizantes do Chega e do PS é, no entanto, mais previsível. Ou seja, ambos querem que o Governo dê preferência ao seu partido nas negociações: 65% no caso dos eleitores com simpatia pelos socialistas e 70% no caso dos que se dizem próximos do Chega. Só 27% do eleitorado socialista e 21% do eleitorado do Chega ficam a meio caminho, ou seja, acham que a AD deve negociar com ambos, consoante o tema em causa.

Luís Montenegro não parece disponível para alterar a estratégia que definiu desde há dois anos quando assumiu funções como primeiro-ministro. Depois das “linhas vermelhas”, o discurso do Governo reajustou-se: sem maioria e com o Parlamento partido em três blocos, o primeiro-ministro tem insistido na ideia de que a maioria é o “bloco do centro moderado”, que negoceia tanto à esquerda como à direita. A prática tem demonstrado que é mais fácil entender-se com o Chega.

FICHA TÉCNICA

Sondagem cujo trabalho de campo decorreu entre os dias 27 de fevereiro e 8 de março de 2026. Foi coordenada por uma equipa do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) e do ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE —- IUL), tendo o trabalho de campo sido realizado pela GfK Metris. O universo da sondagem é constituído pelos indivíduos de ambos os sexos com idade igual ou superior a 18 anos e capacidade eleitoral ativa, residentes em Portugal Continental. Os respondentes foram selecionados através do método de quotas, com base numa matriz que cruza as variáveis Sexo, Idade (4 grupos), Instrução (3 grupos), Região (7 Regiões NUTS II) e Habitat/Dimensão dos agregados populacionais (5 grupos). A partir de uma matriz inicial de Região e Habitat, foram selecionados aleatoriamente 100 pontos de amostragem, onde foram realizadas as entrevistas de acordo com as quotas acima referidas. A informação foi recolhida através de entrevista direta e pessoal na residência dos inquiridos, em sistema CAPI, e a intenção de voto recolhida através de simulação de voto em urna. Foram contactados 2778 lares elegíveis (com membros do agregado pertencentes ao universo) e obtidas 801 entrevistas válidas (taxa de resposta de 29%, taxa de cooperação de 46%). O trabalho de campo foi realizado por 39 entrevistadores, que receberam formação adequada às especificidades do estudo. Todos os resultados foram sujeitos a ponderação por pós-estratificação de acordo com a frequência de prática religiosa e a pertença a sindicatos ou associações profissionais dos cidadãos portugueses com 18 ou mais anos residentes no Continente, a partir dos dados da vaga mais recente do European Social Survey (Ronda 11). A margem de erro máxima associada a uma amostra aleatória simples de 801 inquiridos é de +/- 3,5%, com um nível de confiança de 95% (Expresso, texto das jornalistas Margarida Coutinho e Paula Caeiro Varela)

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