“Estamos claramente a entrar numa nova fase do turismo português, e pela nossa análise falamos de consolidação, o crescimento continua, mas mais moderado, e já não com os saltos verificados em 2024 e 2025”, salienta Jorge Costa, presidente do IPDT - Tourism Intelligence, que está a completar 25 anos de atividade.
O Anuário de Tendências 2026 prevê que o país receba entre 31,1 e 34 milhões de hóspedes, geradores de 80,1 a 83 milhões de dormidas (versus 32,5 milhões e 82,1 milhões em 2025, respetivamente) e proveitos hoteleiros de €6,6 mil milhões a €7 mil milhões (contra €7,2 mil milhões no ano passado). Jorge Costa admite que estas previsões são “conservadoras e cautelosas” (até tendo em conta que o barómetro foi realizado em novembro e dezembro, quando ainda não havia dados finais do turismo em 2025), e que os resultados efetivos serão “bastante superiores” aos dados apontados, sobretudo a nível de proveitos, uma vez que a expectativa é a de “crescer em valor”.
O estudo do IPDT também antecipa para o ano receitas turísticas globais (apuradas pelo Banco de Portugal) na casa dos €30 mil milhões (foram €29,1 milhões em 2025), e um saldo da balança turística (diferença entre receitas geradas por turistas estrangeiros no país e despesas de viagens de residentes ao exterior) acima dos €20 mil milhões, “quase o triplo de 2014”, em que se ficaram nos €10,3 mil milhões.
O maior constrangimento ao crescimento esperado para o turismo português refere-se às acessibilidades, em particular ao nível da capacidade aeroportuária (fator destacado por 48% dos especialistas), seguido da escassez de recursos humanos qualificados (para 45%) e a instabilidade económica a nível internacional (para 43%). O estudo também identifica outros “desafios” que se colocam ao sector, como “a pressão turística em determinados destinos” e a necessidade de melhor gestão de fluxos", a par de prosseguir o objetivo de “requalificação da oferta”.
A incógnita sobre os turistas dos EUA
A nova situação geopolítica, com a guerra dos Estados Unidos no Irão, traz riscos de retração na intenção de fazer viagens de longo curso do lado dos turistas norte-americanos, o mercado de maior crescimento em Portugal nos últimos anos? "Não estamos só dependentes da vontade ou não de viajar dos turistas norte-americanos, mas sobretudo do efeito que tem nestes cidadãos as decisões do presidente dos Estados Unidos da América”, nota Jorge Costa, frisando que representa uma “preocupação, para a qual estrategicamente não temos muitas soluções, a forma como o presidente dos EUA tem gerido as relações internacionais”.
“Nada nos garante que, de um dia para o outro, haja restrições de viagens para países que o presidente dos EUA entende como ‘não amigos’”, refere o responsável do Instituto de Turismo.
Mas também frisa que “se o nosso país fosse considerado uma zona de insegurança, certamente que se iria refletir no número de norte-americanos a viajar para Portugal, existem muitas variáveis, e tudo terá a ver com o escalar ou não da guerra".
“Pelo conhecimento que temos do mercado norte-americano, sobre o qual fazemos muitos estudos, o grau de satisfação destes turistas por Portugal é muito elevado, e tem vindo a crescer”, realça o presidente do IPDT, sustentando que “se o conflito se mantiver nos termos atuais, e não houver uma escalada grande, continuaremos a ser um destino atrativo para os norte-americanos”. Afetados com a guerra no Irão, poderão estar os mercados asiáticos (cujos efeitos já foram sentidos ao nível da restrição de voos), que representavam uma aposta crescente do turismo no país, embora “sem o mesmo impacto do mercado norte-americano”, salienta Jorge Costa.
“A quebra que possamos ter de turistas asiáticos será compensada, e até ultrapassada, por outros mercados”, avança o presidente do instituto de estudos turísticos, considerando que “se não houver uma escalada grande do conflito, Portugal vai beneficiar com a reorientação de viagens dos norte-americanos”, que se retrairão de ir a destinos como Dubai, Emirados Árabes, além de Tailândia ou Macau, “que também deverão sofrer com a instabilidade criada com a guerra no Irão”. “Vamos acabar por lucrar, um pouco à custa do infortúnio de outros, com a insegurança que se vive naquela zona do mundo, e que anteriormente captavam muitos turístas”, nota Jorge Costa.
O esperado aumento de alemães em Portugal
Relativamente ao mercado asiático, que se previa ser um crescente emissor de turistas para Portugal, “tudo vai depender do evoluir do conflito, e se num cenário positivo a situação se resolver nos próximos dois meses, os voos serão reatados, mas a guerra também pode entrar pelo verão dentro, é tudo muito imprevísível”, refere o responsável do IPDT. Na sua perspetiva, “devemos centrar-nos em buscar turistas em mercados, até tradicionais, onde não tinhamos uma penetração tão forte, e que estavam a pensar em viajar para a Ásia”. Destaca o mercado alemão, que dá este ano sinais de uma mais forte intenção de viajar para Portugal, conforme foi demonstrado na recente feira de turismo ITB-Berlim.
“Em conversas com operadores, percebemos que há vontade dos alemães de viajarem para destinos ocidentais mais seguros, e as alternativas passam muito por Portugal, onde o grau de satisfação destes turistas pelo destino é elevado, existe confiança na qualidade do serviço, e os preços não estão num nível que seja um handicap”, refere Jorge Costa.
O IPDT reporta dados que dão conta de 3 milhões de turistas alemães no Médio Oriente, em 2024 (excluindo a Turquia, e sendo o Egito o país com maior quota neste número global). E avança que, num cenário em que Portugal conseguiria captar 15% destes 3 milhões de turistas alemães, representaria para o país um acréscimo de 300 mil hóspedes anuais, 2,4 milhões de dormidas e €500 milhões de receitas diretas para a hotelaria.
“Portugal vai acabar por lucrar com a reorientação de viagens dos norte-americanos e a insegurança em zonas do mundo que anteriormente captavam muitos turistas, como Dubai, Emirados Árabes, além de destinos como Tailândia ou Macau”, considera o presidente do IPDT.
A taxa de turistas de mercados tradicionais “pode ser bastante aumentada”, e além de países emissores como a Alemanha "também se aplica ao Reino Unido, Itália, França, Espanha", entre outros".
Mais preocupante, é o efeito que a instabilidade global pode gerar no aumento do preço do petróleo e o encarecimento do custo das viagens. “É um dado que temos estado a analisar, e a trabalhar com vários cenários”, nota o presidente do IPDT, frisando que “a variável da diplomacia internacional é cada vez mais um fator a ter em conta, o que anteriormente não se fazia sentir tanto em estudos turísticos”.
O efeito das viagens como uma ‘aspirina para a crise’ continua a ser visível. “Mesmo no meio de uma guerra, as pessoas continuam a viajar, as coisas correm de forma pacífica nos aeroportos, tudo o que se imaginou que podia ser o caos, acabou por ser ultrapassado”, constata.
O estudo identifica uma série tendências de viagens em 2026, como o foco no “mundo como sala de leitura”, o “silêncio como destino” ou “viajar em função do estado de espírito”. Segundo Jorge Costa, “o turismo está mais exigente, mas também mais consciente e emocional, as pessoas viajam com a intenção de se sentirem melhor, quase como um alívio mental, e querem autenticidade, contacto com os locais, no fundo querem que as viagens tragam um significado pessoal e uma experiência de vida”.
Desconcentrar os “excessos turísticos”
Sobre a saturação do aeroporto de Lisboa, o presidente do IPDT aponta como alternativas “uma maior utilização do aeroporto do Porto e também de Faro, além de termos de pensar melhor no aeroporto de Beja, o que já requer um maior investimento”.
Uma das tónicas destacadas no estudo é a necessidade de criar soluções para o “excesso de concentração turística em algumas zonas, como as baixas de Lisboa e do Porto, ou o próprio Algarve”, e que envolvem uma “gestão inteligente, puxando as pessoas para zonas menos povoadas, com experiências diferenciadas, e permitindo desconcentrar os fluxos turísticos”.
O anuário do IPDT inclui na edição de 2026 um caderno especial, designado: “E se o turismo acabasse?”
“Desenvolvemos esta distopia para chamar a atenção das pessoas para a importância do sector”, que é responsável por 339 mil empregos e tem 51 mil empresas em atividade", lembra Jorge Costa, frisando que “o turismo em Portugal é um sistema vital, sem turismo teríamos um colapso económico em vários setores”.
O especialista defende que o futuro do sector passa por um “modelo de coexistência”, ao contrário de situações que se verificam de “residentes contra turistas”, pois “o turismo não é uma indústria só para os turistas, deve criar melhores condições de vida a quem reside cá”. “O crescimento muito expressivo que tivemos no turismo nos últimos anos não pode continuar eternamente”, salienta o presidente do IPDT, concluindo que “o desafio hoje em Portugal não é crescer, é gerir o crescimento” (Expresso, texto da jornalista Conceição Antunes)
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