segunda-feira, março 23, 2026

Mais turistas ou menos turistas? Especialistas falam de ano de “consolidação” de recordes em Portugal, mesmo com as guerras





Em 2026 deverão chegar ao país entre 31,1 e 34 milhões de turistas, geradores de 80,1 a 83 milhões de dormidas e proveitos a ultrapassar “máximos históricos”, segundo o Anuário de Tendências 2026 realizado pelo IPDT. O turismo em Portugal deverá manter-se este ano “em máximos históricos”, apesar da turbulência a nível internacional, segundo o Anuário de Tendências 2026, realizado pelo Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT), um barómetro em que foram consultados 175 especialistas, como líderes hoteleiros, de associações do sector ou de regiões turísticas, além de responsáveis de meios académicos.

“Estamos claramente a entrar numa nova fase do turismo português, e pela nossa análise falamos de consolidação, o crescimento continua, mas mais moderado, e já não com os saltos verificados em 2024 e 2025”, salienta Jorge Costa, presidente do IPDT - Tourism Intelligence, que está a completar 25 anos de atividade.

O Anuário de Tendências 2026 prevê que o país receba entre 31,1 e 34 milhões de hóspedes, geradores de 80,1 a 83 milhões de dormidas (versus 32,5 milhões e 82,1 milhões em 2025, respetivamente) e proveitos hoteleiros de €6,6 mil milhões a €7 mil milhões (contra €7,2 mil milhões no ano passado). Jorge Costa admite que estas previsões são “conservadoras e cautelosas” (até tendo em conta que o barómetro foi realizado em novembro e dezembro, quando ainda não havia dados finais do turismo em 2025), e que os resultados efetivos serão “bastante superiores” aos dados apontados, sobretudo a nível de proveitos, uma vez que a expectativa é a de “crescer em valor”.

O estudo do IPDT também antecipa para o ano receitas turísticas globais (apuradas pelo Banco de Portugal) na casa dos €30 mil milhões (foram €29,1 milhões em 2025), e um saldo da balança turística (diferença entre receitas geradas por turistas estrangeiros no país e despesas de viagens de residentes ao exterior) acima dos €20 mil milhões, “quase o triplo de 2014”, em que se ficaram nos €10,3 mil milhões.

O maior constrangimento ao crescimento esperado para o turismo português refere-se às acessibilidades, em particular ao nível da capacidade aeroportuária (fator destacado por 48% dos especialistas), seguido da escassez de recursos humanos qualificados (para 45%) e a instabilidade económica a nível internacional (para 43%). O estudo também identifica outros “desafios” que se colocam ao sector, como “a pressão turística em determinados destinos” e a necessidade de melhor gestão de fluxos", a par de prosseguir o objetivo de “requalificação da oferta”.

A incógnita sobre os turistas dos EUA

A nova situação geopolítica, com a guerra dos Estados Unidos no Irão, traz riscos de retração na intenção de fazer viagens de longo curso do lado dos turistas norte-americanos, o mercado de maior crescimento em Portugal nos últimos anos? "Não estamos só dependentes da vontade ou não de viajar dos turistas norte-americanos, mas sobretudo do efeito que tem nestes cidadãos as decisões do presidente dos Estados Unidos da América”, nota Jorge Costa, frisando que representa uma “preocupação, para a qual estrategicamente não temos muitas soluções, a forma como o presidente dos EUA tem gerido as relações internacionais”.

“Nada nos garante que, de um dia para o outro, haja restrições de viagens para países que o presidente dos EUA entende como ‘não amigos’”, refere o responsável do Instituto de Turismo.

Mas também frisa que “se o nosso país fosse considerado uma zona de insegurança, certamente que se iria refletir no número de norte-americanos a viajar para Portugal, existem muitas variáveis, e tudo terá a ver com o escalar ou não da guerra".

“Pelo conhecimento que temos do mercado norte-americano, sobre o qual fazemos muitos estudos, o grau de satisfação destes turistas por Portugal é muito elevado, e tem vindo a crescer”, realça o presidente do IPDT, sustentando que “se o conflito se mantiver nos termos atuais, e não houver uma escalada grande, continuaremos a ser um destino atrativo para os norte-americanos”. Afetados com a guerra no Irão, poderão estar os mercados asiáticos (cujos efeitos já foram sentidos ao nível da restrição de voos), que representavam uma aposta crescente do turismo no país, embora “sem o mesmo impacto do mercado norte-americano”, salienta Jorge Costa.

“A quebra que possamos ter de turistas asiáticos será compensada, e até ultrapassada, por outros mercados”, avança o presidente do instituto de estudos turísticos, considerando que “se não houver uma escalada grande do conflito, Portugal vai beneficiar com a reorientação de viagens dos norte-americanos”, que se retrairão de ir a destinos como Dubai, Emirados Árabes, além de Tailândia ou Macau, “que também deverão sofrer com a instabilidade criada com a guerra no Irão”. “Vamos acabar por lucrar, um pouco à custa do infortúnio de outros, com a insegurança que se vive naquela zona do mundo, e que anteriormente captavam muitos turístas”, nota Jorge Costa.

O esperado aumento de alemães em Portugal

Relativamente ao mercado asiático, que se previa ser um crescente emissor de turistas para Portugal, “tudo vai depender do evoluir do conflito, e se num cenário positivo a situação se resolver nos próximos dois meses, os voos serão reatados, mas a guerra também pode entrar pelo verão dentro, é tudo muito imprevísível”, refere o responsável do IPDT. Na sua perspetiva, “devemos centrar-nos em buscar turistas em mercados, até tradicionais, onde não tinhamos uma penetração tão forte, e que estavam a pensar em viajar para a Ásia”. Destaca o mercado alemão, que dá este ano sinais de uma mais forte intenção de viajar para Portugal, conforme foi demonstrado na recente feira de turismo ITB-Berlim.

“Em conversas com operadores, percebemos que há vontade dos alemães de viajarem para destinos ocidentais mais seguros, e as alternativas passam muito por Portugal, onde o grau de satisfação destes turistas pelo destino é elevado, existe confiança na qualidade do serviço, e os preços não estão num nível que seja um handicap”, refere Jorge Costa.

O IPDT reporta dados que dão conta de 3 milhões de turistas alemães no Médio Oriente, em 2024 (excluindo a Turquia, e sendo o Egito o país com maior quota neste número global). E avança que, num cenário em que Portugal conseguiria captar 15% destes 3 milhões de turistas alemães, representaria para o país um acréscimo de 300 mil hóspedes anuais, 2,4 milhões de dormidas e €500 milhões de receitas diretas para a hotelaria.

“Portugal vai acabar por lucrar com a reorientação de viagens dos norte-americanos e a insegurança em zonas do mundo que anteriormente captavam muitos turistas, como Dubai, Emirados Árabes, além de destinos como Tailândia ou Macau”, considera o presidente do IPDT.

A taxa de turistas de mercados tradicionais “pode ser bastante aumentada”, e além de países emissores como a Alemanha "também se aplica ao Reino Unido, Itália, França, Espanha", entre outros".

Mais preocupante, é o efeito que a instabilidade global pode gerar no aumento do preço do petróleo e o encarecimento do custo das viagens. “É um dado que temos estado a analisar, e a trabalhar com vários cenários”, nota o presidente do IPDT, frisando que “a variável da diplomacia internacional é cada vez mais um fator a ter em conta, o que anteriormente não se fazia sentir tanto em estudos turísticos”.

O efeito das viagens como uma ‘aspirina para a crise’ continua a ser visível. “Mesmo no meio de uma guerra, as pessoas continuam a viajar, as coisas correm de forma pacífica nos aeroportos, tudo o que se imaginou que podia ser o caos, acabou por ser ultrapassado”, constata.

O estudo identifica uma série tendências de viagens em 2026, como o foco no “mundo como sala de leitura”, o “silêncio como destino” ou “viajar em função do estado de espírito”. Segundo Jorge Costa, “o turismo está mais exigente, mas também mais consciente e emocional, as pessoas viajam com a intenção de se sentirem melhor, quase como um alívio mental, e querem autenticidade, contacto com os locais, no fundo querem que as viagens tragam um significado pessoal e uma experiência de vida”.

Desconcentrar os “excessos turísticos”

Sobre a saturação do aeroporto de Lisboa, o presidente do IPDT aponta como alternativas “uma maior utilização do aeroporto do Porto e também de Faro, além de termos de pensar melhor no aeroporto de Beja, o que já requer um maior investimento”.

Uma das tónicas destacadas no estudo é a necessidade de criar soluções para o “excesso de concentração turística em algumas zonas, como as baixas de Lisboa e do Porto, ou o próprio Algarve”, e que envolvem uma “gestão inteligente, puxando as pessoas para zonas menos povoadas, com experiências diferenciadas, e permitindo desconcentrar os fluxos turísticos”.

O anuário do IPDT inclui na edição de 2026 um caderno especial, designado: “E se o turismo acabasse?”

“Desenvolvemos esta distopia para chamar a atenção das pessoas para a importância do sector”, que é responsável por 339 mil empregos e tem 51 mil empresas em atividade", lembra Jorge Costa, frisando que “o turismo em Portugal é um sistema vital, sem turismo teríamos um colapso económico em vários setores”.

O especialista defende que o futuro do sector passa por um “modelo de coexistência”, ao contrário de situações que se verificam de “residentes contra turistas”, pois “o turismo não é uma indústria só para os turistas, deve criar melhores condições de vida a quem reside cá”. “O crescimento muito expressivo que tivemos no turismo nos últimos anos não pode continuar eternamente”, salienta o presidente do IPDT, concluindo que “o desafio hoje em Portugal não é crescer, é gerir o crescimento” (Expresso, texto da jornalista Conceição Antunes)

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