quarta-feira, janeiro 28, 2026

“Trânsito” no teto do mundo: o excesso de turismo chegou ao Evereste?


A montanha mais alta do planeta deixou de ser um lugar remoto e exclusivo. Há cada vez mais pessoas que procuram conquistar os 8849 metros do Evereste. O aumento da atividade humana, contudo, tem provocado consequências negativas. Já não falta muito para o arranque de mais uma temporada de escalada no Monte Evereste que, normalmente, começa em abril e vai até junho, havendo, depois, uma nova janela entre setembro e novembro. Maio é o mês que costuma reunir as melhores condições climatéricas para conseguir uma escalada bem-sucedida.

O pico que se ergue no coração dos Himalaias, entre o Nepal e o Tibete, é há muito desejado por montanhistas e exploradores que procuram chegar ao teto do mundo, o ponto mais alto do planeta Terra, com 8849 metros de altitude. “O Evereste será sempre um símbolo do desafio máximo, e é natural que atraia cada vez mais pessoas. Foi isso que, inicialmente, também me atraiu. O crescimento comercial em torno da montanha amplificou tudo isto e tornou a realidade muito mais complexa”, explica ao SAPO Maria da Conceição, a primeira mulher portuguesa a chegar ao cume – feito conquistado em 2013.

Desde então, a portuguesa que se tem dedicado a vários desafios extremos em prol de causas humanitárias (ver caixa no fim do texto) reconhece que “a atividade no Evereste se intensificou imenso” e, por conseguinte, aumentaram problemas para os quais ainda se procuram soluções duradouras. “É essencial encontrar um equilíbrio entre três elementos fundamentais: segurança, dignidade e sustentabilidade ambiental. O lado comercial nunca deve sobrepor-se a estes princípios. O bem-estar dos alpinistas e a integridade da própria montanha são o que mais importa”, afirma Maria da Conceição.

Há gente a mais a "tocar" no teto do mundo?

Desde que os primeiros exploradores chegaram ao topo do Evereste muita coisa mudou. A 29 de maio de 1953, o neozelandês Sir Edmund Hillary e o guia sherpa nepalês Tenzing Norgay alcançaram o cume, escrevendo um novo capítulo na história do montanhismo.

A partir da década de 1990, com mais abertura por parte do Nepal e da China, cresceram as expedições comerciais. Antes, o cume do Evereste era visto como um lugar quase intangível. A partir daí, chegar ao teto do mundo passou a ser vendido como um produto. A montanha, porém, continuou perigosa, extrema e letal, como sempre fora. Estima-se que mais de 300 pessoas já perderam a vida no Monte Evereste. Por outro lado, um estudo da revista PLOS ONE indica que 5800 montanhistas chegaram ao cume, entre 1990 e 2019, e a taxa de mortalidade dos alpinistas é de 1%, desde 1990.

O Nepal, país que guarda 8 das 14 montanhas mais altas do mundo, tem procurado gerir o acesso ao Evereste através da emissão de autorizações para chegar ao cume – são emitidas cerca de 300 a 400 por ano. O custo da licença subiu para 15 mil dólares na temporada de primavera do ano passado, antes estava nos 11 mil dólares.

“Não existe uma solução simples, nem ‘tamanho único’ que sirva para todos. Isto tem de ser feito em diálogo aberto com as autoridades locais, guias experientes e a comunidade de montanhismo. O objetivo deve ser sempre aumentar a segurança e a sustentabilidade, não excluir pessoas. Ao mesmo tempo, é importante garantir que quem tenta a ascensão está verdadeiramente preparado e capaz de lidar com as exigências que vai encontrar”, refere Maria da Conceição, recordando que na altura em que chegou ao cume, em 2013, “alguns destes problemas já existiam, mas eram muito menos evidentes do que hoje”.

“Estive no Campo Base do Evereste em maio de 2025, para subir o Lhotse, e as mudanças foram enormes, a dimensão do local e a logística necessária são impressionantes”, realça. Ao mesmo tempo, “hoje em dia, algumas agências parecem focadas em tornar a experiência o mais fácil e confortável possível para quem pode pagar. Isto levanta questões importantes sobre a preparação; se os alpinistas dependem demasiado dessa ‘conveniência’, temos de perguntar se estão realmente preparados para os desafios que vão enfrentar”, reflete. “Atrair mais pessoas simplificando o processo não reduz os riscos fundamentais do alpinismo de grande altitude”.

Uma das imagens que se tornou viral nos últimos tempos foi uma captada, em maio de 2019, pelo montanhista Nirmal Purja que mostrava um verdadeiro engarrafamento de pessoas na rota para o cume do Evereste. Este dia foi fatal para dois alpinistas e, desde então, a situação retratada na imagem repetiu-se noutras temporadas.

Principalmente, acima dos 8 mil metros, a chamada “zona da morte”, “onde o corpo humano luta simplesmente para sobreviver”, a sobrelotação é muito arriscada. “O aumento do número de pessoas aumenta o perigo não só para os próprios alpinistas, mas também para as equipas locais e para o ambiente. Existe ainda o risco de a montanha deixar de ser encarada com a seriedade e o respeito que um ambiente tão extremo exige”, aponta a primeira portuguesa a chegar ao cume.

“O potencial de tragédia continua elevado, e o Evereste nunca deve ser tratado como um produto ou uma atração turística”, defende Maria da Conceição. Se do lado nepalês, a chegada ao primeiro acampamento para iniciar a subida, o Campo Base, a 5364 metros, é feito através de uma caminhada de 12 a 14 dias a partir de Lukla; do lado tibetano (região autónoma controlada pela China), já existem estradas que levam ao Campo Base, a 5150 metros, havendo, até, uma área criada especialmente para receber turistas. Neste caso, os visitantes vão apenas para conhecer o Campo Base e não chegar ao cume, visto que também há uma rota do lado tibetano para o topo. Este aumento do turismo sobrecarrega um ecossistema já fragilizado pelas alterações climáticas e pelo excesso de lixo produzido pelo homem.

"A lixeira mais alta do mundo"

O excesso de lixo na montanha é um dos principais problemas enfrentados. Apesar do aumento dos esforços das autoridades nepalesas para recolhê-lo a cada temporada, estima-se que ainda existam cerca de 50 a 60 toneladas de resíduos produzidos pelas equipas de alpinistas, principalmente, concentrados ao redor do acampamento de South Col (Colo Sul), quando começa a “zona da morte”, a 8 mil metros de altitude. Latas, tanques de oxigénio vazios, dejetos, garrafas de plástico, tendas e outros equipamentos são deixados na montanha, apelidada de “a lixeira mais alta do mundo”. Numa escalada que leva as capacidades físicas e mentais ao limite, a responsabilidade ambiental e a pegada ecológica deixam de ser prioridades.  

Drones ajudam a limpar o lixo no Everest

Atualmente, o Nepal conta com o apoio de drones para fazerem a recolha de parte do lixo. Na última temporada de primavera, os drones recolheram cerca de 300 quilos de resíduos. Até então, as únicas opções eram o uso de helicópteros e mão-de-obra no terreno. A utilização de drones "é mais eficiente, económica e segura" do que outros métodos, sublinhou, na altura, o Comité de Controlo da Poluição de Sagarmatha, uma organização não-governamental dedicada à proteção do ecossistema dos Himalaias.

Desde 2019, o governo do Nepal instituiu que cada alpinista devolvesse, pelo menos, 8 quilos de lixo ao descer da montanha. Quem não cumprisse perdia um depósito de 4 mil dólares. Contudo, no início deste ano, esta medida foi suspensa pois as autoridades chegaram à conclusão de que não estava a resultar. Os alpinistas traziam resíduos de acampamentos mais baixos, continuando a deixar lixo nas zonas de maior altitude. O novo plano é implementar uma taxa fixa de limpeza por alpinista de 4 mil dólares não reembolsável, de forma a assegurar os custos efetivos de limpeza da montanha.

A gestão dos dejetos humanos é um problema complexo porque estes não devem ser deixados para trás, uma vez que não se decompõem devido às baixas temperaturas. Assim sendo, os alpinistas têm de trazer os seus dejetos, em sacos fornecidos para o efeito. Estes são, depois, coletados no Campo Base para serem despejados em fossas. Outros resíduos são levados para aterros sanitários ou incinerados – soluções que também apresentação riscos ambientais.

Um problema ainda mais delicado é a remoção de cadáveres no topo da montanha. A recuperação de cadáveres em grandes altitudes é controversa entre alpinistas. Há, até, uma regra tácita de deixar para trás aqueles que falecem na “zona da morte”, uma vez que qualquer tentativa de resgate pode pôr em risco outras vidas. Ainda assim, uma equipa liderada pelo exército nepalês tem trabalhado na retirada de cadáveres do Evereste. “Devido aos efeitos das alterações climáticas, os corpos e os resíduos tornam-se mais visíveis à medida que a camada de neve diminui", disse, numa reportagem feita pela AFP, Aditya Karki, comandante que liderava, em 2024, uma equipa de 12 soldados e 18 montanhistas, numa missão para retirar cadáveres acima dos 8 mil metros.

O excesso de lixo já está a provocar impacto ambiental ao contaminar fontes de água, o que tem causado doenças como cólera nas comunidades locais. Também foram encontradas grandes concentrações de microplástico na neve. Finalmente, de acordo com as previsões do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas, com sede em Katmandu, com o aumento das temperaturas devido ao aquecimento global, os Himalaias poderão perder cerca de 75% a 80% dos seus glaciares até 2100. Um cenário que iria provocar grandes indurações, seguidas por uma diminuição das reservas de água. Comunidades serão prejudicadas e toda a mítica paisagem da cordilheira asiática poderá mudar drasticamente.

Uma atleta de resistência motivada pela missão humanitária

Maria da Conceição foi a primeira portuguesa a chegar ao cume do Evereste, em 2013. Mas a sua história vai muito além da vontade de conquistar o “teto do mundo”. Depois de trabalhar como hospedeira de bordo e contactar com a realidade da pobreza no Bangladesh, Maria fundou, em 2005, um projeto para ajudar crianças em situações vulneráveis.

A partir daí, procurou formas de obter recursos para continuar a missão humanitária e o montanhismo foi uma opção. “A expedição ao Everest começou como uma forma de garantir recursos para uma escola que fundei no Bangladesh”, explica. Antes disto, Maria já tinha realizado outros feitos, como uma travessia ao Polo Norte, em 2011. A vontade de continuar a ajudar pessoas que quase nada têm levou com que Maria se tornasse numa atleta de resistência, batendo recordes mundiais ao correr ultramaratonas em todos os continentes.

“Quando subi o Everest, em 2013, e as montanhas que fiz antes, como preparação, percebi que esta é uma área onde tenho força. Tenho várias características essenciais para o alpinismo: resistência, força mental e determinação. Por isso, o montanhismo de grande altitude continua a fazer parte da minha vida, mas encaro cada projeto com grande cuidado. Para mim, não se trata de números ou recordes; trata-se de desafios com significado. Trata-se de elevar outras pessoas ao longo do caminho. Ajudar os outros é mais poderoso do que qualquer estatística de montanha”, sublinha a atleta que conquistou a montanha K2, a segunda mais alta do mundo, em 2024. Foi o resultado de um esforço coletivo e de confiança. E se este feito inspirar outras mulheres a acreditarem no seu potencial, então esse será um legado que guardo com muito carinho

“Subir o Everest e continuar a assumir novos desafios tornou-se necessário para sustentar o meu trabalho humanitário. Mas o trabalho humanitário, esse sim, é o maior desafio: a montanha mais significativa que continuo a escalar”, reconhece Maria da Conceição que tem uma fundação que faz a diferença na luta contra a pobreza (Sapo, texto da jornalista Alice Barcellos)

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