O Carlos Fernandes foi um gajo porreiro que para mim foi quase um irmão mesmo não sendo. Para além de vizinhos no eixo Pena-Prédio da Caixa, fomos colegas de turma no antigo e saudoso Liceu, durante vários anos. Politicamente fomos companheiros seguindo o mesmo caminho, sem ambições nem dependência de protagonismos ridículos. Nos tempos da tropa - alguns brincam hoje com fardas mas nem as patentes conhecem e nem as botas conseguem honrar - ele em Santarém, eu em Santa Margarida e depois nos Lanceiros em Lisboa, encontrávamo-nos aos fins-de-semana na cidade, ficando eu alojado em Lisboa, por especial favor e amizade, num apartamento partilhado por outros amigos e colegas do Liceu, todos madeirenses, que estudavam na capital. Foram bons tempos esses, que passaram depressa, que foram atirados para as catacumbas das memórias, mas que nunca podem ser esquecidos. Eram tempos diferentes, sem redes sociais, sem telemóveis, sem nada do que hoje, dizem os especialistas, paulatinamente distorce o crescimento das pessoas, destrói a consciência social e esmaga amizades, tornando-as meramente pontuais e supérfluas, sem outro qualquer significado. Há dois anos, ou um pouco mais, encontrei o Carlos - que passou pela administração do JM e da Imprensa Regional - na hemato-oncologia do Nélio Mendonça, tinha uma doença grave que o atormentava, que condicionava a sua vida, que obrigou a várias intervenções cirúrgicas, mas não foi por causa disso que mantinha a esperança e a convicção de viver. O mesmo bom humor de sempre, a risada pela anedota. Ficamos surpresos porque depois de todo aquele caminho percorrido na vida, aquele era o sítio menos próprio para nos encontrarmos naquela manhã. Por lá passamos os dois, outras vezes, coincidentemente. Mas a vida tem destas coisas, é madrasta para muitos, mais agreste para uns, brincalhona com outros, fazendo-os a todos supor, erradamente, que somos donos do nosso destino. O Carlos, meu "irmão" de sempre, amigo e companheiro desse caminho, resolveu ir mais cedo, na certeza de que voltaremos a encontrarmo-nos, seja lá onde for, e caso exista esse além com o qual todos sonhamos. Nem houve tempo para despedidas. As coisas, certas coisas que invadem o nosso corpo, são assim mesmo, ditam o tempo, marcam a hora e cumprem rigorosamente o calendário, perante a impotência humana. Partiu discreto, sem que os amigos dessem por isso. Talvez seja o melhor. Até logo Carlos, aquele abraço de amizade eterna. E leva um abraço a toda aquela malta do nosso tempo, da nossa caminhada de vida, que já partiu, muitos deles antes de ti (LFM)

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