Hoje passei pela estranha e inédita sensação de ter chegado a uma urna de voto, e já com o boletim na mão, sem saber exactamente em quem votava. Esta indecisão deu-me razão, quando afirmei, repetidamente, que desde 1980 não votava em eleições presidenciais, porque alegadamente, dizem "eles", são eleições "despartidarizadas", o que implica, o incentivar da "rebeldia" partidária, ou seja, a possibilidade de um eleitor poder votar, se o entender, num candidato que nem esteja ligado ao seu partido de opção nem por este seja apoiado.
Partindo do princípio, mais do que sagrado para mim, de que nos dias que correm tenho medo de militares na política (mesmo sem farda vestida, porque na realidade, todos sabemos que mentalmente eles nunca se desfardam...) e recusando frontal e firmemente os radicalismos fascizantes e populistas que nos ameaçam a todos, apesar de não fazerem sentido numa sociedade moderna que se quer tolerante, livre e capaz de viver normalmente, mesmo com as suas contradições injustiças e dificuldades (que só nós podemos todos combater obrigando o poder a fazê-lo), confesso que fiquei abananado. Completamente indeciso entre a escolha de uma mensagem de esperança e de estabilidade e a recusa de certos papagaios ou pretensos "influenciadores" da treta que abusivamente usaram espaços de opinião (sem contraditório e a reboque de uma comunicação social por vezes demasiado tolerante e, pior do que isso, perigosamente colaborante com estas palhaçadas supostamente "inocentes" e "desinteressadas", uma escola que foi o trampolim de Marcelo para a sua ambicionada chegada a Belém) para consolidarem projectos políticos e ambições pessoais de poder para as quais são uns impreparados, sem dimensão nem estatura face às exigências delas decorrentes.
Mas, por outro lado, já com o boletim de voto na mão e perante aqueles "retratos" todos, alguns dos quais me deram uma enorme vontade de rir, confrontei-me com a necessidade de uma escolha, entre uma rebeldia eleitoral em eleições que alegadamente nada dizem aos partidos, e o coerente respeito pela minha disciplina ideológica e de pensamento, pela minha escolha desde 1974, o que me levou a ponderar muito rapidamente, e num local inapropriado (uma assembleia de voto e com o boletim na mão), por não me sentir minimamente obrigado a nada, sobre qual seria a minha decisão. E assim fiz. Tive de tomar uma opção, livre, consciente e pragmática em eleições presidenciais que serão diferentes de todas as já realizadas para a Presidência. Aliás, basta olharmos para o que se passa por esse mundo fora para termos medo deles de militaristas cujas intenções desconfiamos e para radicalismos extremistas e fascistas que não deviam fazer sentido, mas que se relevaram o albergue das frustrações e insatisfações das sociedades modernas, perante a incapacidade, contradições, fragilidade, incompetências e malandrices dos poderes instalados, muitos deles incapazes de resolverem os reais problemas das pessoas. É esta a realidade numa Europa que gasta milhares de milhões de euros com a guerra, endividando-se e obrigando-nos a todos, e às gerações futuras, a suportar todos esses encargos durante décadas, mas já não tem uns tantos milhares para apoiar e defender os agricultores europeus que se revoltam na rua, para combater a pobreza crescente e para dinamizar muitas outras actividades económicas à beira do descalabro e ainda mergulhadas no protesto silencioso. Que cortar nos fundos destinadas às regiões mais desfavorecidas ou reduz as verbas orçamentais destinadas a financiar programas específicos como o POSEI entre outros.
Falamos de uma Europa cada vez mais autocrática e intolerante, que não aceita debater, que não discute como deve, cujos alicerces constatamos estarem a enterrar-se cada vez mais no lamaçal da incompetência, da corrupção, das contradições, da ausência de líderes fortes, carismáticos, ouvidos e respeitados e com estatura a uma escala europeia, numa perigosa caminhada que temo nos conduza a todos ao inevitável questionamento da Europa enquanto projecto europeu solidário, fomentador do progresso para todos, combatente das assimetrias internas, uma Europa que nada devia ter a ver nem com as máfias nem com os lobbys que conspurcam os corredores de Bruxelas e das demais instituições europeias, que condicionam os governos nacionais, antes privilegiando o primado do lucro e do dinheiro. Hoje sou cada vez mais um descrente do aliciante, mas moribundo projecto de construção de uma Europa de todos e para todos, um sonho nascido há décadas em Roma, mas que os bandalhos do nosso tempo estão paulatinamente a destruir, graças a contradições, deturpações, sectarismos, corrupção, aldrabices, mentiras e falta de visão ambiciosa e ausência de lideranças nacionais e europeias fortes e mobilizadoras. Ora, se juntarmos a tudo isto - mesmo que se saiba que ele pouco ou nada conta, mesmo que se tenha presente que MRS foi um papagaio, por vezes ridículo, que tomou decisões políticas erradas, precipitadas, assentes na irracionalidade, no aventureirismo institucional e em vinganças pessoais que apenas alimentaram o crescimento do radicalismo e das teorias fascizantes, o que não me espanta se atendermos aos alicerces do percurso do dito cujo... - um PR português impreparado e sem carisma (todos os candidatos são isso mesmo) apenas agravaremos a nossa já frágil situação. Ponderei em escassos segundos tudo isso antes de fazer a escolha, mesmo contrariado (por mim nem às urnas comparecia), que me pareceu a mais plausível.
Votei sim, não sei se da mesma forma que certamente terei de fazer numa segunda volta alucinante e que vai dividir, ainda mais do que já está, um país bipolarizado desconfiado, triste, descontente, etc. Logo veremos... (LFM)


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