Quando os turistas se dirigem para o Vale de Pankisi, os avisos tendem a começar ainda antes da sua chegada. Costumam partir de um taxista preocupado, inseguro, sem ter a certeza se devia estar mesmo a transportar viajantes para este destino remoto. “Porque é que vai para lá? O que vai fazer? Não me parece que seja seguro para si ir para lá”, dizem os motoristas, segundo Khatuna Margoshvili, dona de uma pousada neste belo e acidentado vale.
Há muito que Pankisi, na Geórgia, antiga república soviética situada na fronteira leste da Europa, carrega uma má reputação, mais moldada pelas notícias dos jornais do que pelo turismo em si. No início dos anos 2000, os tchetchenos que fugiam da guerra de Moscovo contra o seu país usaram este vale como refúgio. A Rússia alegava que alguns eram antigos militantes.
Depois dos ataques do 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos alegaram que havia agentes da Al-Qaeda presentes em Pankisi. Especularam mesmo que Osama bin Laden estaria entre eles — algo que nunca ficou provado. O estigma aprofundou-se na década seguinte, de 2010, quando o Estado Islâmico recrutou dezenas de residentes deste vale.
Hoje, a história é outra. É o que descobrem os visitantes que fazem esta viagem. Um relatório de 2023 da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla original) descrevia Pankisi como um território “pacífico”. Ao pesquisar online pelo Vale de Pankisi verá anúncios de passeios a cavalo, de ‘workshops’ de feltro ou de aulas de preparação de khinkali (que são uma versão local dos dumplings chineses). Nada de relatos de extremismo islâmico.
E embora o Departamento de Estado dos EUA ainda alerte os cidadãos norte-americanos para que não façam viagens para esta região, a verdade é que muitos estão precisamente a fazer o contrário. “Nos últimos dois ou três anos, 80% dos nossos hóspedes vieram dos Estados Unidos”, diz Margoshvilli.
Tradições fora do comum
O turismo em Pankisi é algo ainda relativamente novo. Continua a ser bastante limitado quando se faz a comparação com outros destinos mais consolidados na Geórgia. No entanto, o interesse por esta região tem crescido, uma vez que também têm surgido mais opções de alojamento e que os próprios operadores turísticos começam a incluir o vale nos seus roteiros. Karolina Zygmanowska, guia da Weekend Travelers Georgia, começou a organizar excursões a Pankisi há dois anos.
“As pessoas pediam este passeio. Por isso, começámos a oferecê-lo. O interesse surgiu depois de sabermos que tinham aberto lá várias pousadas”, conta. “Têm a sua própria comunidade, a sua própria cultura. A verdade é que a comida desta região é um bocadinho diferente de outras partes da Geórgia”. A maioria das famílias a viver neste vale são kists, descendentes de colonos chechenos e ingushes que migraram para a Geórgia no século XIX. Falam tchetcheno, além de georgiano e, por vezes, russo. Seguem as tradições sufistas e muçulmanas sunitas num país predominantemente cristão ortodoxo.
Todas as sextas-feiras, mulheres de todo o vale reúnem-se na Mesquita Velha, na aldeia de Duisi, para realizar o zikr, um rito enraizado no misticismo sufi. As participantes movem-se em círculo, entoando cânticos e batendo palmas. O ritmo vai aumentando gradualmente. Pankisi é o único local onde as mulheres realizam o zikr. Os turistas podem pedir para estar presentes, observando assim a cerimónia.
Pankisi fica perto de Tusheti, uma região montanhosa já popular entre os que apreciam caminhadas. Contudo, o turismo neste vale está apenas a dar os primeiros passos. Na última década, várias iniciativas comunitárias — muitas apoiadas por ajuda externa — ajudaram a construir uma pequena indústria turística a partir do zero.
Para alguns residentes, a motivação para uma abertura ao turismo vai para lá da questão financeira. Margoshvilli é membro da Associação de Turismo e Desenvolvimento do Vale de Pankisi (PVTDA), fundada em 2018 por um grupo de mulheres que esperavam que o turismo pudesse ajudar a mudar a perceção em relação a este vale.
Os seus esforços acabaram por atrair a atenção internacional. Em 2020, a Lonely Planet incluiu Pankisi no seu guia para a Geórgia, Arménia e Azerbaijão. No mesmo ano, a agência de promoção de turismo da Geórgia começou a promover a região no seu site. Isto apenas dois anos depois de uma controversa operação antiterrorista neste vale.
Tempos de incerteza
Os locais contam que os elevados níveis de desemprego acabavam por ter um papel importante no recrutamento online de jovens que era feito pelo Estado Islâmico. A PVTDA descreve o turismo como “a única indústria” que existe atualmente na região. Contudo, o seu futuro é ainda incerto. O congelamento do financiamento da USAID, bem como a introdução pelo governo georgiano de uma “lei de agentes estrangeiros”, que limita a aceitação de financiamentos internacionais, deixou vários projetos de desenvolvimento em suspenso. Há uma década, Margoshvilli recebeu apoio da USAID para abrir a sua pousada. "Fomos dos primeiros no vale a abrir", lembra. "Pensávamos que era possível ganhar dinheiro, mesmo que houvesse muito poucos turistas na altura”.
Seguiram-se outras iniciativas. Os jovens ligados à Roddy Scott Foundation — que é a escola que ensina inglês neste vale e antiga beneficiária de bolsas da USAID e da União Europeia — trabalham agora como guias intérpretes durante a época de verão. O Conselho de Mulheres de Pankisi, que também estabeleceu parcerias com doadores europeus e americanos, tem apoiado o empreendedorismo local e a formação profissional.
“Temos vários diferentes, alguns com uma vertente profissional. De costura, marcenaria, cerâmica, culinária, medicina veterinária e medicina geral”, explica Guliko Khangoshvilli, membro do Conselho de Mulheres de Pankisi. “Também oferecemos cursos de turismo, para que os locais possam aprender sobre esta área, por exemplo, como abrir pousadas”. Contudo, a incerteza pesa muito. “Ainda estamos a trabalhar sem receber nada, à espera para ver o que vai acontecer”, diz.
“Foi perfeito”
Shenguli Tokhosashvilli está entre aqueles que beneficiaram dos primeiros investimentos. Em 2017, este jovem natural de Pankisi recebeu uma bolsa da USAID para iniciar a Kisturi Draft, uma pequena cervejaria, que produz uma bebida tradicional chechena não alcoólica, feita de rosa mosqueta e espinheiro-alvar. Deixou o seu emprego como advogado em Tbilisi para regressar à terra natal.
O rótulo do produto mostra Tebulosmta, uma montanha que fica na fronteira entre a Geórgia e a Tchetchénia. “Esta cerveja é uma tradição do povo tchetcheno, dos nossos irmãos e irmãs tchetchenos”, diz Tokhosashvilli.
Hoje, a Kisturi Draft é vendida nesta região, bem como em restaurantes na capital georgiana, Tbilisi, e na cidade costeira de Batumi, no Mar Negro. Os visitantes podem degustar a bebida no pátio da cervejaria, que fica na aldeia de Omalo. Tornou uma paragem frequente para os grupos de turistas. Contudo, Tokhosashvilli mostra-se cauteloso quanto à expansão do negócio, num momento de congelamento do financiamento estrangeiro. Conta que poucos georgianos visitam o vale: “Os meus amigos em Tbilisi perguntaram-me se precisavam de passaporte ou de um visto especial para visitar Pankisi”.
Já para os turistas estrangeiros, a má reputação desta região pode vir a transformá-la numa boa surpresa. Joanna Horanin, que gere o blogue de viagens The Blond Travels, visitou Pankisi durante uma viagem pela Geórgia. “Queria muito ir para um lugar sem muitos turistas, que fosse um pouco mais isolado. Queria um lugar onde pudesse experienciar a vida simples de uma aldeia”, diz.
“Andámos a cavalo, fomos a uma cascata. E, quando voltámos para casa, comemos khinkali. Eram diferentes. Normalmente são feitos com carne e cogumelos. Estes eram feitos com urtigas”. “Foi perfeito. Provavelmente uma das melhores experiências que tive na Geórgia”. Sobre a reputação da região, Joanna Horanin rise. “Ah, aparentemente é perigosa. Não fazia a minima ideia” (CNN- Portugal, citando a CNN-Internacional, num trabalho da jornalista Elizabeth McBride)


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