quarta-feira, janeiro 28, 2026

Curiosidades: o hipócrita dos bordeis...

Durante anos, eles o viram entrar em bordéis e chamaram-no de hipócrita. Quando ele morreu, as mulheres que ele tinha salvo revelaram a verdade. Chamava-se Vitalis, e guardou um dos segredos mais bonitos da história por uma vida inteira. No início do século VII, um homem já idoso chegou a Alexandria, no Egito: uma das grandes cidades do mundo antigo, local de estudo e comércio, de filosofia e pecado. Alexandria tinha tudo: bibliotecas magníficas, mercados agitados, debates teológicos nas praças.

E bordéis. Dezenas delas.

O homem que chegou tinha uns sessenta anos, e nessa época isso já era muita vida. A maioria não atingia essa idade. Podia estar descansando, preparando-se para a morte, vivendo seus últimos anos em silêncio e contemplação. Mas Vitalis fez o contrário: procurou o trabalho físico mais duro que pôde e começou a trabalhar. Tinha passado décadas como eremita no deserto, um daqueles primeiros ascetas cristãos que acreditavam que a solidão e a privação os aproximavam de Deus. Não tinha nada: nem posses, nem confortos, apenas areia, sol e silêncio. E agora, quando seu corpo deveria ter desistido, chegou na cidade e começou a carregar pedras, transportar caroços, fazer um trabalho exaustivo por um pagamento mínimo. Todas as tardes, com os músculos doloridos e as mãos feridas, cobrava o seu salário.

Depois, ia para os bordéis. Todas as noites.

Alexandria era uma cidade profundamente religiosa: o cristianismo expandia-se com força, e o julgamento moral caía rápido e impiedoso. A prostituição existia nas margens, tolerada e desprezada ao mesmo tempo. As mulheres que trabalhavam lá eram consideradas perdidas, manchadas, sem saída. E lá estava este velho, um suposto eremita santo, entrando em bordéis todas as noites. As pessoas notaram. Claro que reparou. Viam-no entrar. Viram-no sair horas depois. E tiravam a conclusão mais fácil: era um farsante. Um homem que se dizia santo e pregava pureza, mas se entregava ao pior da cidade. Um hipócrita. Os sussurros espalharam-se. “Viu aquele velho? Todas as noites ele vai aos bordéis. ” “Que vida espiritual. ” “São todos iguais: pregam uma coisa e fazem outra. ”

Vitalis ouvia os sussurros. Ele via o desprezo nos olhos. Ele sabia perfeitamente o que eles pensavam dele. E não dizia nada. Só continuava trabalhando, continuava recebendo seu salário, continuava entrando nos bordéis todas as noites. O que ninguém sabia era isto: Vitalis não ia "consumir" essas mulheres. Nunca mais. Estava chegando com o que tinha ganhado nesse dia. Pagava a noite, para que aquela mulher não tivesse que receber outros homens. E podia descansar.

E ele ficava lá. Acordado. Em silêncio. Rezando. Conversando. Falando da vida dela. De como ele chegou lá. Do que lhe tinham tirado. Do que ainda podia ser salvo. Algumas riram. Algumas o expulsaram. Algumas pensavam que ele era louco. Mas outras, mas do que imaginava ,escutava o que ele tinha a dizer 

E pouco a pouco, algumas começaram a sair dessa vida.

Não foi uma mudança de um dia para o outro, nem uma história perfeita. Mas houve mulheres que deixaram os bordéis, que procuraram trabalho, que se refugiaram em novas casas, que reconstruíram algo parecido com a paz. E Vitalis lhes pedia uma coisa: “Não digas a ninguém. ” Não queria reconhecimento. Não queria aplausos. Preferia carregar a vergonha pública se isso protegesse o que estava fazendo. Se a cidade soubesse a verdade, haveria escândalo, controle, interferência... E, às vezes, quando a caridade se torna um espetáculo, ela deixa de ser ajuda.

Então deixou Alexandria acreditar que ele era culpado.

Durante anos, a rotina foi a mesma: trabalho duro durante o dia, bordéis à noite. O corpo envelhecia e se esgotava, mas ele continuava. Até à noite em que tudo acabou. Uma noite, ao sair de um bordel, alguém o viu. Não sabemos quem foi. Talvez alguém que estava acumulando raiva há algum tempo. Talvez alguém que achou que defendia a moral pública. Talvez alguém que só quisesse punir o "hipócrita".

Atacou-o e bateu-lhe. Vitalis, ferido, conseguiu chegar ao seu pobre abrigo nos subúrbios. Lá, sem cuidado nem consolo, morreu. O "hipócrita" tinha morrido. E talvez muitos tenham respirado aliviados. Então as mulheres começaram a aparecer. Uma a uma, elas estavam dando a cara: mulheres que tinham saído dos bordéis, que tinham reconstruído uma vida, que tinham recebido uma oportunidade que parecia impossível. Todas contavam a mesma coisa: Vitalis pagava para que pudessem descansar, não as tocava, não as humilhava, não as condenava. Ele rezava, escutava, segurava.

A verdade espalhou-se por Alexandria como fogo.

O homem que eles desprezaram não era um farsante: era alguém que tinha aceitado ser mal interpretado para salvar outras pessoas. O velho a quem chamaram pecador tinha carregado a vergonha para que elas pudessem recuperar a dignidade. A cidade ficou devastada. Envergonhada. Quebrada. E as mulheres organizaram sua despedida. Elas saíram com luzes nas mãos, acompanhando seu corpo pelas ruas, honrando aquele que viu sua humanidade quando ninguém mais a via.

A cidade que zombou dele, agora chorava por ele. Com o tempo, Vitalis foi venerado como santo: um homem que encarnou o que a fé deveria ser. Sem julgamento. Sem condenação. Mas misericórdia concreta para com aqueles que todos davam como perdidos.

E a sua história tornou-se lenda. Às vezes, simplifica-se, doce, torna-se parábola. Mas o essencial permanece: ele escolheu o silêncio, escolheu o trabalho, escolheu carregar o desprezo para proteger aqueles que queria resgatar. Na Alexandria do início do século VII, um homem preferiu ser mal visto do que deixar outras pessoas continuarem a sofrer. Trabalhou até a exaustão. Caminhava todas as noites para lugares onde ninguém queria olhar. Deixou-os pensar o pior.

Salvou vidas enquanto a sua reputação estava destruída. Morreu sozinho, espancado por alguém que pensou estar defendendo a moral. E então Alexandria percebeu o que tinha perdido... e chorou. Quantas pessoas julgamos sem saber a sua história? Quantas pessoas fazem coisas bonitas enquanto o mundo assume o pior? Quantos "santos" andam entre nós com máscara de pecadores porque assim o exige o bem que estão protegendo? Vitalis conseguiu defender-se. Ele conseguiu explicar. Conseguiu procurar reconhecimento em vida. Escolheu o silêncio. Escolheu o bem acima do nome. Ele escolheu salvar outros, mesmo que isso significasse ser desprezado.

Durante anos chamaram-no de hipócrita. Quando ele morreu, as mulheres que ele tinha ajudado disseram a verdade. E Alexandria finalmente entendeu: teve um santo vivendo entre eles... e chamaram-lhe pecador até ser tarde demais (Fonte: Orthodox Church in America ("Venerável Vitalius of Gaza", sem data) e Facebook: Crónicas Históricas)

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