Os europeus encaram o estado do mundo, o futuro dos seus países e a sua própria situação pessoal com um pessimismo profundo, num contexto marcado por incerteza geopolítica, dificuldades económicas e uma perceção negativa do papel do presidente dos EUA, Donald Trump. Quase dois terços dos inquiridos consideram que “os melhores anos já passaram”, enquanto 77% acreditam que a vida nos seus países será mais difícil para a próxima geração. Os dados resultam de uma sondagem da empresa de comunicação estratégica ‘FGS Global’, realizada em novembro junto de mais de 11 mil pessoas em 23 países da União Europeia – incluindo Portugal – e divulgada em exclusivo pelo jornal ‘POLITICO’.
O pessimismo é particularmente acentuado na Europa Ocidental e Central. No conjunto da União Europeia, 76% dos entrevistados afirmam que a democracia nos seus países está em declínio, refletindo uma preocupação generalizada com a capacidade dos sistemas políticos para responderem aos desafios atuais. Segundo o ‘POLITICO’, a sondagem evidencia receios transversais quanto ao enfraquecimento das democracias europeias e à eficácia dos governos num cenário marcado pela guerra na fronteira leste do continente, pela instabilidade económica e geopolítica e pelo agravamento das tensões com Washington.
Mesmo antes de Donald Trump manifestar a intenção de anexar a Gronelândia, a maioria dos europeus já o via como uma força negativa para a paz, para os respetivos países e para a economia global. “É evidente que existe um grau muito, muito elevado de pessimismo”, afirmou Craig Oliver, co-diretor global de estratégia da FGS Global e antigo consultor do ex-primeiro-ministro britânico David Cameron. Apesar do ambiente sombrio, Oliver sublinha que estes momentos também podem abrir espaço à mudança. Historicamente, acrescentou, é em períodos de forte pessimismo que surgem oportunidades para reformas e melhorias, desde que os Governos saibam responder às expectativas da população.
A desconfiança em relação aos executivos é generalizada. Em quase todos os países analisados, a maioria dos inquiridos considera que o seu país segue o caminho errado. As exceções são a Polónia, a Lituânia e a Dinamarca, ainda que estes países estejam entre os mais expostos à pressão da Rússia ou, no caso dinamarquês, às tensões com os Estados Unidos em torno da Gronelândia. Em Portugal, 61% dos inquiridos manifestou essa opinião. Craig Oliver atribui estas diferenças à perceção de liderança política. Em alguns países, disse, os cidadãos sentem que existe direção, capacidade de decisão e resolução de problemas. “As pessoas querem ser lideradas e exigem clareza por parte dos Governos”, sublinhou.
A sondagem traz más notícias para a maioria dos sistemas políticos europeus. Pelo menos metade dos entrevistados optou pela afirmação de que o sistema político do seu país “está a falhar com as pessoas e precisa de uma reforma fundamental”, em detrimento da ideia de que funciona razoavelmente bem. Os níveis mais elevados de desconfiança registaram-se na Roménia, Grécia e Bulgária, enquanto os países nórdicos apresentaram indicadores menos negativos. Em todos os países analisados, mais de 70% dos inquiridos consideram que têm o direito de esperar mais dos seus Governos, sinalizando uma frustração generalizada com o desempenho das instituições públicas.
Perante os múltiplos desafios enfrentados pela Europa, os cidadãos mostram-se favoráveis a uma postura mais assertiva dos seus líderes – 71% defendem que os seus países devem proteger os interesses nacionais mesmo que isso gere atritos com outros Estados, e 57% apoiam um aumento dos gastos com defesa e segurança: Portugal, neste particular, mostrou que 62% dos inquiridos defendem esta medida.
O chamado “efeito Trump” atravessa toda a sondagem. Embora realizada antes da mais recente escalada de hostilidade do presidente americano, a perceção negativa já era dominante. Cerca de dois terços dos inquiridos dizem-se pessimistas quanto ao impacto de Trump, no próximo ano, na economia global, na paz e segurança internacionais e nos seus próprios países – Portugal está entre os países mais ‘desconfiados’ do presidente americano, com 22% a manifestar uma visão otimista do papel de Trump. Questionados sobre a atribuição do Prémio Nobel da Paz ao presidente dos Estados Unidos, 77% responderam negativamente. A FGS Global entrevistou 11.714 adultos entre 10 e 23 de novembro de 2025, com amostras representativas em 23 países da União Europeia. As entrevistas foram realizadas online e os dados ponderados de acordo com critérios demográficos e socioeconómicos (Executive Digest, texto do jornalista Francisco Laranjeira)

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