"Do Congresso do PSD/Açores, e pelo que nos chegou através dos órgãos de comunicação social, dois factos merecem destaque, a determinação do seu novo líder, Duarte Freitas, em renovar e rejuvenescer as estruturas partidárias e a afirmação de que “não hesitará em votar contra as propostas do Governo da República que não respeitem aqueles que consideramos os superiores interesses dos Açores”, e o discurso do líder nacional e Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, que apelando a menos confronto político e maiores consensos, veio abrir as portas exactamente para o contrário, ao ignorar quanto a economia açoriana é frágil e dependente de factores que lhe são estranhos, o que impede, de todo, a aplicação de fórmulas neoliberais que defende, o que revela o seu desconhecimento dos reais problemas açorianos ou, o que é mais grave, a sua disposição para, cumprindo com os mandos da troika, ignorá-los, passando ao lado e carregando sobre os açorianos mais impostos, agravando os seus problemas e a sua qualidade de vida. Apesar de pouco ou nada ter dito sobre os concretos problemas da Região Autónoma dos Açores e o que o Governo da República pensa sobre a forma de os minimizar, Passos Coelho só teve palavras de pretensa justificação para as suas políticas neoliberais de submissão aos ditames da troika, negando aos açorianos os diferenciais reconhecidos pela União Europeia e claramente justificados pelas realidades do isolado viver insular, deitando fora as conquistas até agora conseguidas e prevendo um futuro ainda mais difícil. Do ponto de vista açoriano, foi um discurso lamentável, pouco auspicioso para o líder agora entronizado e augurando um confronto político que as posições de Miguel Relvas e Jorge Moreira da Silva, com o seu sorriso cínico, vinham prometendo.
Valeu a frontalidade e a determinação de Duarte Freitas que confiamos possa cumprir com a sua afirmação de que o que se pede não são “benesses de Lisboa” mas, sim a “justa atenuação dos custos que derivam da nossa situação insular e ultraperiférica com os consequentes sobrecustos alguns dos quais resultam da inacção do Estado central e por isso é que digo olhos nos olhos ao presidente nacional do PSD que o PSD/A considera a diminuição do diferencial fiscal previsto no acordo da troika e na LFR, penalizadora, incorrecta e geradora de dificuldades desnecessárias para as famílias e empresas dos Açores”.
Na primeira crónica deste 2013, escrevi que não sofro de triscaidecafobia, a doença que ataca as pessoas que tem medo do número treze. Mas a verdade é que este início de 2013 tem ido fértil em acontecimentos que já não são presságios mas, sim, realidades concretas que nada auguram de bom e que o discurso de Passos Coelho do passado domingo é um dos mais veementes exemplos.
Confiamos que Duarte Freitas terá a determinação e a visão política de concretizar a promessa feita, colocar acima da disciplina e lealdade partidária os interesses açorianos. Mas não vai ser fácil enquanto Passos Coelho e seus companheiros na obra de arrastar o País para a miséria permanecerem no Terreiro do Paço, ao serviço do FMI e seus parceiros na agiotagem internacional. Todos sabemos que não há dinheiro, mas não falta quem, com conhecimento de causa e comprovado saber, diga que há outros caminhos.
Os açorianos tem que se unir numa frente a Lisboa e às suas políticas. Não é só a Autonomia que está em causa. É, também, os legítimos direitos dos açorianos, as conquistas feitas e a dignidade de vida. É um denominador comum que deve estar sempre presente nas lutas parlamentares e políticas que se advinham. Que cada um se mostre digno das responsabilidades que os açorianos lhes outorgaram".( texto de Gustavo Moura, Correio dos Açores, com a devida vénia)