Li aqui que "D. José Policarpo pediu ontem que sejam denunciados "erros políticos". Bispos não param de criticar o executivo. Nunca a Igreja se pronunciou tanto sobre a situação do país. Nas últimas duas semanas têm-se sucedido críticas à política do governo: este ano, a crise, o desemprego e as medidas de austeridade marcaram as mensagens de Natal e de ano novo de mais de mais de 15 bispos portugueses. Exemplo da irritação da Igreja com o governo é a mensagem de D. Ilídio Leandro, bispo de Viseu, que afirmou que falta aos ricos e aos políticos de Portugal "coragem, audácia, justiça e solidariedade", criticando os que acumulam "privilégios" e "empregos fictícios". Já o bispo de Fátima alertou, na passagem de ano, para a "situação de emergência" que o país atravessa, pedindo "uma política capaz de vencer a sede de poder e a ganância". D. Januário Torgal, bispo das Forças Armadas, falou na "erosão da função social do Estado", garantindo que se está a assistir a "um ataque à vida em sociedade". Ontem foi a vez a de o cardeal patriarca de Lisboa deixar vários avisos aos governo e à Europa. Na homilia de ano novo que proferiu em Rio de Mouro (Sintra), D. José Policarpo disse que a mesma União Europeia que ganhou o Nobel da Paz deve perguntar a si mesma se a paz que está a viver é verdadeira. O cardeal acrescentou que Portugal é um país "a lutar corajosamente para vencer um período difícil da sua história" e apelou a que sejam denunciados, "com coragem e lucidez, erros sociais e políticos", pedindo ainda uma nova política para as famílias, que as proteja do desemprego e de "leis fiscais penalizadoras". Na mensagem, que recebeu o título "A mística da paz", o patriarca de Lisboa defendeu que seria "desejável" que as sociedades europeias, a atravessar "uma profunda crise civilização" lessem a mensagem de paz de Bento XVI – em que o Papa desafia a União Europeia, que ganhou o Prémio Nobel, a interrogar-se se a paz que conseguiu manter depois da segunda guerra mundial é "a paz perfeita ou se não há um longo caminho, nunca completamente percorrido, para a edificação da paz verdadeira". "A generosidade pessoal, a organização da sociedade, as estruturas políticas e económicas precisam de ser mobilizadas pela mística da paz", defendeu D. José Policarpo. lembrando que a paz "não é só a ausência de guerra". Citando João XXIII, o cardeal defendeu que paz implica "a construção de uma convivência humana baseada na verdade, na liberdade, no amor, na Justiça", na vitória sobre o individualismo e numa busca "pelo bem comum de toda a comunidade". Por isso, continuou, é necessário que as culturas de hoje, "inspiradas em critérios de poder ou de lucros em que os meios se tornam fins e os fins se transformam em meios sejam superadas". O cardeal apelou ainda a que se denuncie, "com lucidez e coragem, os erros sociais e políticos" que não dêem prioridade ao bem comum. "O mundo actual, particularmente o da política, necessita do apoio de um novo pensamento", defendeu o patriarca de Lisboa, acrescentando: "Somos um país a lutar corajosamente para vencer um período difícil da nossa história". D. José Policarpo criticou ainda as famílias de hoje, que usam "leis permissivas que não valorizam o aprofundamento de valores". E não deixou de criticar o Estado por não apoiar as famílias portuguesas – que se vêem a braços com "leis fiscais penalizadoras" –, por não estimular a natalidade e por não "evitar que o drama do desemprego se abata" sobre elas. "Para quando uma política de protecção à família?", questionou o cardeal-patriarca".