A Europa reúne alguns dos melhores sistemas de pensões do mundo, mas a capacidade de garantir o pagamento das reformas a longo prazo continua a suscitar preocupações. A Europa reúne alguns dos melhores sistemas de pensões do mundo, mas a capacidade de garantir o pagamento das reformas a longo prazo continua a suscitar preocupações. Portugal ocupa o 13.º lugar entre os 19 países europeus avaliados no índice global de 2026, com 67,3 pontos em 100. Embora obtenha uma pontuação de 80,1 na adequação das pensões, o país regista apenas 41,5 pontos na sustentabilidade, revelando um dos principais desafios que se colocam ao futuro do sistema.
Os Países Baixos lideram a classificação mundial pelo quarto ano consecutivo, com 85,8 pontos, seguidos da Dinamarca, com 84,1, e da Islândia, com 84. Os três países europeus são os únicos do continente a alcançar a classificação máxima, A, no Marsh CFA Institute Global Pension Index (MCGPI). Singapura, Israel e Austrália completam o grupo dos sistemas mais bem classificados a nível mundial. O índice compara 55 sistemas de rendimento na reforma, abrangendo 66% da população mundial. A avaliação assenta em três dimensões principais: a adequação dos rendimentos proporcionados aos pensionistas, a sustentabilidade financeira dos sistemas e a integridade, que inclui a qualidade da governação e dos mecanismos de proteção.
A classificação geral depende do equilíbrio entre estes fatores. Um sistema pode proporcionar benefícios elevados, mas continuar vulnerável se não conseguir assegurar o financiamento necessário para os manter ao longo do tempo.
Portugal fica a meio da tabela europeia, com fragilidades no financiamento futuro
Na comparação europeia, Portugal surge com 67,3 pontos e classificação B, atrás de países como a Alemanha, a Bélgica, a Irlanda, a França e o Reino Unido, mas à frente da Croácia, de Espanha, da Polónia, de Itália, da Áustria e da Turquia.
A pontuação portuguesa revela uma diferença expressiva entre a adequação e a sustentabilidade. O país obtém 80,1 pontos na primeira dimensão, mas apenas 41,5 na segunda. Esta discrepância indica que, embora o sistema apresente resultados favoráveis na capacidade de proporcionar rendimentos na reforma, a sua sustentabilidade a longo prazo constitui uma área mais vulnerável.
O resultado não significa, por si só, que as pensões em Portugal venham necessariamente a diminuir. O índice compara sistemas com base em diferentes indicadores e identifica riscos e aspetos a melhorar, não apresentando uma previsão concreta para os valores das futuras reformas portuguesas.
A posição de Portugal insere-se numa preocupação mais abrangente. Vários países europeus conseguem assegurar prestações consideradas adequadas, mas enfrentam dificuldades para garantir que os sistemas continuam financeiramente viáveis nas próximas décadas.
Países Baixos lideram o ranking mundial das pensões
Os Países Baixos alcançaram 85,8 pontos em 100, mantendo a liderança mundial pelo quarto ano consecutivo. O relatório destaca a combinação entre uma pensão estatal que proporciona uma base de rendimento, regimes profissionais complementares que abrangem a maioria dos trabalhadores e um volume significativo de ativos de pensões investidos.
A regulamentação, a governação e a proteção dos participantes também contribuem para a classificação. Segundo o relatório, estes elementos ajudam a reforçar a confiança no sistema e a apoiar o pagamento dos benefícios futuros.
Apesar da liderança, os Países Baixos estão a reformar o modelo de pensões profissionais. O país está a passar de um sistema baseado em benefícios prometidos, geralmente relacionados com o salário e os anos de trabalho, para um modelo assente em contas individuais, mais diretamente associado às contribuições e aos resultados dos investimentos.
A reforma procura responder às dificuldades de financiamento dos benefícios prometidos, agravadas por períodos de taxas de juro baixas. As regras de financiamento também chegaram a atrasar aumentos destinados a acompanhar a inflação. Além disso, os regimes profissionais tradicionais estavam menos adaptados aos trabalhadores que mudavam frequentemente de emprego ou passavam a trabalhar por conta própria.
A transição deverá estar concluída em 2028.
A Dinamarca ocupa o segundo lugar mundial, com 84,1 pontos, e a Islândia fecha o pódio, com 84. Seguem-se a Suécia, com 78,8 pontos, a Finlândia, com 77,6, e a Noruega, com 77. A Suíça, o Reino Unido, a França, a Irlanda, a Bélgica, a Alemanha e Portugal também integram o grupo de países europeus com classificações B ou B+, considerados sistemas com estruturas sólidas, embora com margem para melhorias.
Benefícios elevados não garantem sustentabilidade a longo prazo
A classificação muda quando são analisadas separadamente as diferentes dimensões do índice. O Kuwait apresenta a pontuação mais elevada na adequação, com 88,3 pontos, enquanto a Dinamarca lidera a sustentabilidade, com 84,8. A Finlândia obtém o melhor resultado no indicador de integridade.
A diferença entre estas dimensões ajuda a explicar as dificuldades de alguns dos maiores sistemas europeus. França, a segunda maior economia da União Europeia, alcança 85 pontos na adequação, mas apenas 49,3 na sustentabilidade. No índice global, obtém 70,3 pontos e a classificação B.
Em Espanha, o contraste é ainda mais acentuado. A quarta maior economia da União Europeia regista 83 pontos na adequação, mas apenas 33 na sustentabilidade. A classificação global é de 63,3 pontos, correspondente à nota C+.
A Áustria, a Itália e Espanha são apontadas como países europeus com vulnerabilidades significativas a longo prazo. Itália obtém 57,4 pontos no total, com 70,9 na adequação e apenas 27 na sustentabilidade. A Áustria regista 56,9 pontos, com 68,3 na adequação e 23,9 na sustentabilidade.
Na outra extremidade da classificação europeia está a Turquia, com 46,6 pontos e nota D. O país apresenta a pontuação mais baixa em recursos e financiamento entre os sistemas europeus avaliados, além de um resultado de apenas 29,4 pontos na sustentabilidade.
Envelhecimento da população pressiona os sistemas de pensões
A sustentabilidade das reformas enfrenta desafios crescentes em todo o mundo. As pessoas vivem, em média, mais anos, o que aumenta o período durante o qual recebem pensões. Ao mesmo tempo, a redução das taxas de natalidade significa que menos pessoas entram no mercado de trabalho para contribuir para o financiamento dos reformados.
Graham Pearce, responsável global pela área de regimes de benefícios definidos da Marsh, explicou à Euronews Business que “um dos principais desafios dos sistemas de pensões não financiados é o facto de se prever que o número de reformados em relação ao número de trabalhadores aumente significativamente nas próximas décadas”.
Nestes sistemas, as contribuições dos trabalhadores no ativo ajudam a pagar as pensões dos reformados atuais, em vez de serem investidas para financiar as próprias reformas futuras. Quando diminui o número de contribuintes em relação ao de pensionistas, aumenta a pressão sobre o equilíbrio financeiro do modelo.
Responsáveis de instituições financeiras europeias têm alertado para estas dificuldades. Em maio de 2026, Joachim Nagel, presidente do Bundesbank, afirmou ao Handelsblatt que associar a idade da reforma à esperança de vida, a partir de 2031, poderia ajudar a responder aos desafios do sistema alemão.
Nagel considerou também que o novo regime alemão de pensões privadas, previsto para o início de 2027, seria “um passo importante para reforçar o pilar de pensões financiadas”. Ainda assim, avisou que a medida não seria suficiente para resolver os problemas de sustentabilidade a longo prazo.
Também em maio, François Villeroy de Galhau, então governador do Banco de França, alertou, numa entrevista ao Le Figaro, para as consequências do financiamento da despesa pública através do défice. “Estamos a transferir o peso da dívida e das pensões para os nossos filhos”, afirmou.
Em setembro de 2026, a Comissão Europeia defendeu o reforço da poupança complementar às pensões públicas, alertando para a crescente pressão sobre os orçamentos públicos e para o risco de “demasiadas pessoas enfrentarem uma queda acentuada dos rendimentos quando se reformarem”.
Como podem os países proteger as pensões futuras?
O relatório defende que os governos terão de adaptar os sistemas de pensões ao aumento da longevidade e a percursos profissionais mais flexíveis. O objetivo é reforçar a sustentabilidade sem depender exclusivamente do aumento da idade da reforma ou da redução dos benefícios.
Segundo Graham Pearce, uma das opções consiste em aumentar as receitas através de impostos ou contribuições para a Segurança Social. Outra passa por permitir e incentivar que as pessoas que o desejem e tenham capacidade para o fazer continuem a trabalhar durante mais tempo, contribuindo também para as receitas fiscais.
O índice recomenda alargar a cobertura dos regimes privados de pensões aos trabalhadores por conta de outrem e aos trabalhadores independentes, melhorar a governação e a transparência dos planos privados e ajustar a idade da reforma ao aumento da esperança de vida saudável.
O documento defende ainda a criação de condições para que mais pessoas possam continuar a trabalhar em idades mais avançadas e, dessa forma, acumular poupanças durante mais tempo. Incentivar a poupança privada e reduzir as diferenças entre as pensões de homens e mulheres, bem como as desigualdades que afetam grupos minoritários, são outras das medidas propostas.
Uma das soluções passa também por reforçar os mecanismos de adesão automática a planos de pensões complementares. Estes regimes inscrevem os trabalhadores automaticamente, geralmente permitindo-lhes optar por sair. As contribuições são descontadas no salário, podem ser complementadas pela entidade empregadora e são investidas para gerar um rendimento adicional à pensão pública.
Trabalhadores mais jovens não devem assumir que terão pensões públicas mais baixas
Apesar das pressões identificadas, Pearce considera que os trabalhadores mais jovens não devem partir do princípio de que vão receber pensões públicas menos generosas nos próximos 10 a 20 anos. Na sua perspetiva, o reforço das poupanças investidas para a reforma, em complemento das pensões estatais, será importante para tornar os sistemas mais sustentáveis.
O responsável alerta, porém, para as consequências de não serem tomadas medidas nos países que apresentam benefícios elevados, mas resultados fracos na sustentabilidade. Referindo-se a sistemas como os de França e Espanha, afirmou que “sem medidas para melhorar a sustentabilidade dos sistemas públicos de pensões, como aumentar a idade da reforma ou introduzir numa fase inicial uma componente de financiamento prévio [investir dinheiro agora para ajudar a pagar as pensões futuras], os governos poderão acabar por enfrentar decisões difíceis à medida que os modelos existentes se tornem incomportáveis”.
Essas decisões poderão incluir a redução dos benefícios, acrescentou.
“Agir agora pode ajudar a preservar as expectativas de reforma dos trabalhadores atuais, evitando ao mesmo tempo transferir um encargo financeiro excessivo para as gerações futuras”, afirmou Pearce. O relatório conclui que os sistemas que definirem objetivos claros, reforçarem o financiamento e introduzirem maior flexibilidade poderão estar mais bem preparados para enfrentar as mudanças demográficas. A comparação de 2026 coloca, assim, uma questão central para a Europa: como manter pensões adequadas sem comprometer a capacidade de as financiar no futuro.
Portugal acompanha este desafio. A classificação global de 67,3 pontos coloca o país no 13.º lugar europeu, mas a diferença entre os resultados da adequação, de 80,1 pontos, e da sustentabilidade, de 41,5, evidencia a importância de garantir que a proteção dos pensionistas pode ser mantida a longo prazo (Executive Digest)

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