sexta-feira, outubro 23, 2026

Pensão média de velhice paga apenas cinco meses de lar em Portugal

Uma vaga em quarto duplo numa residência sénior custa, em média, 1.717 euros por mês, quase duas vezes e meia a pensão média de velhice. Famílias recorrem às poupanças, à ajuda dos filhos e ao arrendamento ou venda de imóveis para pagar os cuidados. A pensão média de velhice em Portugal, de 691,31 euros mensais, permite pagar apenas cerca de cinco meses e meio de alojamento numa residência sénior em quarto duplo. O valor fica muito abaixo da mensalidade média de 1.717 euros, obrigando muitas famílias a mobilizar poupanças, dividir despesas entre familiares ou procurar rendimentos através do arrendamento e da venda de imóveis para assegurar os cuidados aos idosos.

Os valores resultam do cruzamento dos dados de agosto da Segurança Social sobre pensões de velhice com o 4.º Retrato das Residências Sénior em Portugal, elaborado pela Via Senior e pela BA&N Research Unit a que o 24notícias teve acesso. O cálculo considera os 14 pagamentos anuais da pensão e as 12 mensalidades cobradas pelas instituições, mas, mesmo com os dois pagamentos adicionais, o rendimento anual continua longe de cobrir o custo da estadia.

Uma vaga em quarto duplo, a modalidade mais frequente nas instituições analisadas, custa em média 1.717 euros por mês. Ao longo de um ano, são 20.604 euros, enquanto 14 pagamentos de uma pensão de 691,31 euros totalizam cerca de 9.678 euros. A diferença ultrapassa os 10.900 euros anuais, sem contar com eventuais despesas adicionais.

O esforço financeiro varia consoante o tipo de alojamento. Num quarto individual, a pensão média permite pagar aproximadamente cinco mensalidades. Num quarto triplo, partilhado com outras duas pessoas, o rendimento chega para cerca de seis meses e meio, segundo os cálculos apresentados no estudo.

A diferença entre o rendimento dos idosos e os preços praticados pelas residências obriga as famílias a procurar soluções complementares. Além das poupanças dos próprios, os filhos e outros familiares contribuem frequentemente para as mensalidades, repartindo os encargos entre vários elementos do agregado familiar.

Orçamentos definidos acabam por ser ultrapassados

A dificuldade em encontrar uma residência compatível com os rendimentos disponíveis também se reflete nas decisões das famílias. Segundo o 1.º Barómetro da Procura de Residências Sénior em Portugal, 52% das famílias que procuraram uma vaga com um orçamento máximo de 1.500 euros por mês e conseguiram concretizar a colocação acabaram por pagar acima desse limite.

Os dados indicam ainda que nove em cada dez pedidos de alojamento registados pela Via Senior em 2025 tinham um orçamento máximo de 2.000 euros mensais. A diferença entre os valores que as famílias conseguem suportar e os preços praticados limita a escolha e pode obrigar à procura de instituições mais afastadas da área de residência habitual.

Perante a dificuldade em cobrir as mensalidades, algumas famílias ponderam rentabilizar os imóveis dos idosos, através do arrendamento ou da venda. A utilização desse património procura compensar a diferença entre as pensões e os encargos com os cuidados, embora dependa da existência de imóveis disponíveis e da situação patrimonial de cada família.

Falta de vagas agrava pressão sobre as famílias

A dificuldade financeira junta-se à falta de disponibilidade nas instituições. De acordo com o 4.º Retrato das Residências Sénior em Portugal, 70% das residências participantes no estudo tinham uma taxa de ocupação de 100% e 69% mantinham listas de espera.

O tempo para encontrar uma solução é igualmente reduzido: metade das colocações concretiza-se em menos de 15 dias e 87% no prazo de um mês. A procura surge muitas vezes após um agravamento do estado de saúde ou uma perda de autonomia, quando a família já não consegue assegurar os cuidados necessários em casa. A combinação entre preços elevados, escassez de vagas e decisões urgentes reduz a margem para comparar instituições e avaliar alternativas. O estudo aponta, por isso, para a importância de antecipar a procura, permitindo às famílias analisar os serviços, os custos e as condições de alojamento antes de surgir uma situação de emergência (Lusa)

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