“Há gente que se irrita com boas notícias e gente que embandeira em arco com pouca coisa. Termos entrado com o pé direito no regresso aos mercados da dívida causou muitas dores de cabeça e, nos casos mais graves, urticária. Mas também fez alguns partidários do Governo acreditarem que o povo ia cantar hossanas e aleluias.
A cada passo que damos rumo ao futuro mais se percebe que, com crise ou com bonança, não há maneira de mudar a mentalidade do "tuga" típico. Nem importa saber se o típico é político, jornalista, analista, comentador, médico, juiz, condutor da Carris, bancário, funcionário público, etc. É "tuga". Se favorece o Governo, que importa que nos favoreça a todos? Desvalorize-se.
Em abono da verdade, também é preciso dizer que houve muito "tuga" a aplaudir o que de todo não estava a perceber. Militantes da coligação rasgaram sorrisos pela simples razão de que entenderam de imediato que os seus partidos tinham, finalmente, encontrado um balão de oxigénio, mas não fazem a mínima ideia do que pode importar este sucesso para o bem de todos.
O regresso aos mercados não significa o fim imediato da austeridade. Não significa que vai haver imediatamente mais justiça fiscal. Não significa o aumento imediato do emprego. Não significa a melhoria imediata do bem-estar da maioria dos portugueses.
Significa que o primeiro passo para a recuperação económica do País está dado e que agora é preciso confirmar este regresso à estrada com mais operações de colocação de dívida a médio e longo prazo. E, depois do sucesso dos 2,5 mil milhões, as notícias fizeram acalmar a euforia. Nos mercados secundários, os juros estiveram a subir em quase todas as maturidades.
Regressar ao mercado não é o fim dos problemas nem garante um futuro de sucesso. Mas é absolutamente verdade que sem esse regresso seria impossível melhorar as condições para os bancos se financiarem no exterior e, com isso, aumentar o financiamento às empresas. E, com as empresas a aumentarem a sua capacidade de investimento, criar mais empregos. E, com mais empregos, aumentar o consumo interno. E, com mais consumo, descer a carga fiscal sem pôr em causa as necessárias receitas para o Estado cumprir as suas obrigações.
O "tuga" típico não perde tempo a tentar racionalizar o que tem resposta emocional. Analisa-se o jogo político-partidário da mesma forma que o jogo de futebol. A quem verdadeiramente interessa que o seu clube tenha ganho com um penálti inventado? A alegria está dependente da vitória, não da justiça” (texto de Paulo Baldaia, no DN de Lisboa, com a devida vénia)