quinta-feira, julho 04, 2013

Opinião: Ópera bufa



"Paulo Portas foi o principal penalizado por esta espécie de crise política à portuguesa - mais depressa chamaria a tudo o que se passou de ópera bufa protagonizada por garotos irresponsáveis e medíocres - que custou à Europa, segundo as previsões dos especialistas, quase o que nos custou o BPN. Estamos a falar de 6 a 7 mil milhões de euros, incluindo prejuízos bolsistas da banca e agravamento do endividamento do país devido ao aumento das taxas de juro. Um escândalo. Acredito que Portas terá decidido sair do governo de coligação, onde era 3ª figura e mais tarde foi promovido a 2ª figura, depois da saída de Gaspar, porque percebeu que, devido ao ricochete causado pela sua demissão - curiosamente quando Gaspar abandonou o executivo os juros quase que nem pestanejaram... - deixou de ter condições pessoais e políticas para manter-se no lugar e, mais do que isso, deixou de ter condições para ser olhado pelos parceiros europeus, sobretudo esses, da mesma forma que o faziam antes deste estranho episódio da demissão.
Portas ao fazer o que fez, da forma como fez, independentemente de poder ter razões de queixa da forma como foi tratado pelo PSD e por Passos, acaba por ser o grande responsável por esta instabilidade política. Não deu uma palavra prévia aos seus colegas da direção do CDS, ignorou qual a opinião dos órgãos dirigentes do CDS relativamente á sua decisão, causou um turbilhão imenso nas bolsas que custaram mais de 7 mil milhões de euros ao país, deixou de ter condições para manter-se no governo e, em última instancia, de ter condições para continuar a liderar o CDS. Aliás penso que portas nos reservará uma surpresa qualquer no congresso deste fim-de-semana.
Esta espécie de crise à portuguesa é uma vergonha. E estou completamente à vontade porque tenho mantido em relação a este governo de coligação, particularmente em relação a Passos e a Gaspar, uma opinião crítica que reafirmo e mantenho, por tudo o que eles fizeram ao país, aos portugueses, aos idosos, aos jovens, aos desempregados, etc.
Tenho, uma vez mais criticar o patético Gaspar, não só por não ter a noção da realidade do país que foi construindo com a sua política radical e falhada de austeridade criminosa e de roubo dos salários – por isso, o que se passou num supermercado foi, felizmente para ele, um mero episódio comparativamente ao que poderia ter acontecido ali, naquele momento - mas também pela forma como se demitiu sem esquecer a absurda e patética carta com recados, inclusive sobre técnicas de liderança. Imagine-se, o funcionário bancário Gaspar a falar de liderança o que por si só, demonstra bem o carácter de quem se foi embora, e felizmente que o fez. O que critico nele é a falta de honestidade e a ausência de integridade num indivíduo que andou nestes dois anos a pressionar, indevida e desonestamente, Passos Coelho com intoleráveis pedidos de demissão, ao que se soube duas ou três vezes, como se se divertisse em alternar um alegado frete no exercício das funções governativas que exercia com uma criminosa dependência face aos capitalistas europeus, aos seus patrões da banca europeia e aos alemães tão do seu agrado. Nem sei mesmo - pela postura adotada, pela arrogância, pelo autoconvencimento idiota, pelo pedantismo evidenciado, pela mania de superioridade e pela falsa auréola de uma competência que nunca teve e que se revelou exatamente o contrário - se Gaspar terá nascido ou não, temporalmente tarde demais...
Aliás, na carta que fez divulgar, Gaspar esqueceu-se do essencial – lembro que escrevi neste espaço que estas demissões tinham na sua origem motivos que não tinham sido devidamente clarificados e que a verdade provavelmente nunca seria conhecida – como depois ficamos a saber pela notícia de um jornal que aqui recordo:
"Vítor Gaspar e a mulher viveram um autêntico pesadelo num supermercado. A história foi confirmada ao i por dois ex-membros do governo. Foi há duas semanas em Lisboa. O ministro das Finanças, que, a exemplo da grande maioria dos membros do governo, andava sempre com segurança pessoal, decidiu ir às compras com a mulher. Sozinhos, sem qualquer elemento da PSP. As compras no supermercado correm normalmente, sem sobressaltos. Mas a presença de um dos ministros mais odiados do governo no estabelecimento começou a correr de boca em boca. Os olhares silenciosos dos clientes ao casal não faziam prever qualquer reação mais desagradável ou violenta. Mas tudo mudou quando Vítor Gaspar e a mulher acabaram as compras e foram para a fila de uma das caixas. Um cliente mais exaltado fez um comentário alto, outro atirou um insulto e de um momento para o outro tudo ficou descontrolado. Os seguranças do supermercado foram alertados pelos gritos dos clientes e aproximaram-se do casal para evitar males maiores. Pagas as compras, Gaspar e a mulher dirigiram-se para a saída protegidos pelos seguranças, que não conseguiram evitar as cuspidelas de outros clientes, misturadas com insultos e tentativas de agressão. Mal chegou a casa, Vítor Gaspar telefonou a Pedro Passos Coelho. Por uma razão. Tinha chegado a hora de o primeiro-ministro acelerar a sua saída do governo. Como é sabido, o ministro das Finanças já tinha pedido a demissão duas vezes. Ficou por razões que fez questão de explicar na carta de demissão e que, em última análise, se prendiam com as negociações com a tróica e com o Eurogrupo. Era importante, de acordo com Gaspar, fechar a difícil sétima avaliação, garantir a tranche de 2 mil milhões de euros e a extensão das maturidades da dívida portuguesa aos fundos europeus por sete anos. Nesse telefonema, feito a poucos dias da reunião do Eurogrupo de 20 de Junho, em que ficou fechada a sétima avaliação, Vítor Gaspar fez questão de frisar que a sua decisão era irreversível e que a saída teria de ser rápida. Por todas as razões. Até pela família"
Portanto, satisfeito pela demissão de semelhante criatura, refugio-me no princípio de rei-morto, rei-posto. O legado de Gaspar salvo raríssimas exceções, é criminoso, a destruição do país está à vista de todos, a pobreza e a exclusão social estão em todos as esquinas, a emigração volta a bater recordes, atingindo em grande medida os nossos jovens, o desemprego é a maior vergonha deste país, a frustração e o drama dos jovens portugueses é o maior atestado de incompetência a um ministro que falhou todas as previsões, o roubo descarado dos salários por ele fomentado, tal como, e sobretudo, a roubalheira nas reformas e nas pensões, tudo isso é a demonstração da hipocrisia de um indivíduo sem dignidade. Impreparado para exercer funções públicas, e que só ascendeu a ministro pela conjugação do falhanço de outras escolhas e às descaradas imposições dos credores que queriam ver no lugar alguém que lhes desse garantias de que encheriam a pança.
Já em relação ao que se passou com Paulo Portas - e nem falo do CDS-Madeira que na sua ânsia de protagonismo, de ganhar espaço mediático com declarações pretensamente bombásticas e "vendáveis", acabou por ver-se envolvido numa contradição, dizendo e defendendo exatamente o contrário do que o CDS nacional defendia e queria... - começo por elogiar, coisa rara, a forma como Passos Coelho, independentemente de erros cometidos - e cometeu diversos e perigosos - na gestão de uma relação política complexa e difícil com o seu parceiro de coligação, geriu de forma brilhante o ricochete causado pelo anúncio da demissão de Portas do governo. Desde logo mantendo a agenda política, a que se junta a recusa da demissão que apenas precipitaria uma crise política que não pode rebentar apenas por causa das diatribes, dos amuos ou de uma decisão precipitada de uma pessoa (Portas), hoje perfeitamente comprovada. Depois, pela forma como politicamente "entalou" o CDS e mais concretamente Portas, responsabilizando-os pela crise política, caso fosse esse o desfecho de tudo o que se passou, o que ajuda a perceber a travagem do CDS e o recuo na sua voracidade crítica. Isto nada tem a ver com o facto de eu pensar que a solução agora encontrada, depois de dois anos de desencontros, não ter a consistência que seria desejável e de acreditar que novas crises neste relacionamento complicado podem surgir, pelo menos até ao orçamento de estado para 2014. Acredito que a proposta de orçamento de estado para o próximo ano, mais o tão falado programa de redução da despesa pública em cerca de 5 mil milhões de euros, serão dois acontecimentos que poderão ditar o nosso futuro e o futuro político do país" (LFM-JM)