No meio desta trapalhada em que se transformou a crise
política, graças a uma intervenção absolutamente desastrada do Presidente da
República - não nas motivações nem nas razões apresentadas, mas na forma como a
mesma foi veiculada e, pior do que isso, na forma como o PR a quer desencadear
- foi estranho que Cavaco Silva, que pode estar a revelar alguma
intranquilidade e desespero, tenha divulgado hoje um comunicado, durante a
realização do debate parlamentar na Assembleia da República. Nesse comunicado o
PR dá conta das audiências hoje realizadas com os líderes do PSD, PS e CDS e
sublinhado de forma inequívoca que "os
líderes dos referidos partidos manifestaram a disponibilidade para iniciarem, o
mais brevemente possível, conversações com vista a um compromisso de salvação
nacional que permita a conclusão, com sucesso, do Programa de Assistência
Financeira e o regresso aos mercados" - algo que Seguro não assumiu hoje na Assembleia da
República de forma concreta - mas indo mais além admitindo que "as negociações entre os partidos devem
ser concluídas num prazo muito curto".
Neste momento e persistindo a confusão total e a baralhada
suscitada por uma proposta mal pensada, no seu desenho, tenho mais
interrogações que certezas:
- se falharem as negociações, o que vai decidir Cavaco? Dissolver
a Assembleia da República e nomear um governo presidencial? Não o pode fazer
porque o poder legislativo é essencial, pelo que a opção teria que passar pelo
amansar do parlamento o que me parece algo absolutamente perigoso e impossível
de considerar como adquirido…
- obrigar a Assembleia da República, demitindo neste caso
apenas do governo de coligação - já que a proposta que está em cima da mesa
decorre da recusa de Cavaco em aceitar a proposta que Passos lhe levou esta
semana - a apoiar um governo de
iniciativa presidencial até Junho de 2014, reunindo personagens afetas aos três
partidos do chamado arco da governação, sem garantias de que isso seja possível?
- chamar a si a responsabilidade, diretamente ou por via da tal
personalidade por si a indicar, de obtenção de um acordo político que possa
calendarizar a austeridade prevista, que garanta a realização de eleições
antecipadas até Setembro de 2014, por iniciativa do próprio Cavaco Silva?
- mas, e deixemo-nos de hipocrisias, como é que um governo de
iniciativa presidencial terá a legitimidade política para negociar diretamente
com a troika e assumir compromissos financeiros externos em nome de Portugal?
- quais as garantias de Cavaco de que PSD, PS e CDS aceitarão,
sem pestanejar, as imposições externas que vão transformar os partidos
políticos numa clara e perigosa desnecessidade em plena conjuntura de crise
profunda e, pior do que isso, vão transformar os partidos em meros
paus-mandados de um governo presidencial não legitimado pelo voto popular?
- finalmente, e se tudo isto falhar o que fará Cavaco Silva?
Vai portar-se como se nada se tivesse passado?