quarta-feira, julho 10, 2013

Opinião: PPP E EMBUSTES (I)



Esta semana, fiquei a saber, por um jornal nacional, que o PS local, na sua frenética disputa com o CDS regional na oposição, prometeu enviar mais uma patética carta, desta vez à Inspeção-Geral de Finanças (IGF), ao Presidente da República e à nova ministra das Finanças, sobre a situação das parcerias público-privadas rodoviárias da Madeira. Ressalvando que cartas anteriores que serviram de base a notícias encomendadas nunca chegaram aios destinatários, constatei que este anunciado documento - curiosamente urdido numa altura em que a bandalheira dos governos socialistas de Sócrates, responsáveis por dezenas de PPP ruinosas para o país, num legado de mais de 60 mil milhões de euros, foram denunciadas num contundente relatório de uma comissão de inquérito da Assembleia da República – não faz alusão a qualquer iniciativa tomada pelos socialistas locais contra essa patifaria socialista que faliu o país, nem contra esses contratos ruinosos do antigo governo socialista de Lisboa. Diz sim que se poderá estar na região perante “um caso sério de má governação e de impunidade” argumentando que os factos inventados relativamente à dimensão financeira “deveriam envergonhar todos aqueles que têm contribuído para a manutenção da ausência de vigilância e fiscalização ao Governo Regional”. Curioso branqueamento de responsabilidades…
Irrita-me o silêncio de quem, calando-se, corre o risco de ser acusado de anuir com esta estratégia de propaganda vil e ranhosa ou de não ter argumentos credíveis para a desmontar.
É preciso um monumental descaramento – ou talvez não, se atendermos à fonte da notícia… - para se prestar a estas bandalhices de branqueamento dos fatos e de responsabilidades políticas num domínio tão polémico como são as PPP. A patética carta fala de "uma negociação de modo a diminuir as rendas a pagar e assim contribuir para a redução da despesa, mas isto é no continente porque na Madeira a situação é manifestamente diferente, as parcerias madeirenses são um caso de polícia”, mas ignora, tal como o jornal que publicou a notícia, que o relatório divulgado na véspera pelo ministério das finanças, sobre a execução do programa de ajustamento na Madeira diz, a dado passo: "Salienta-se também o facto de a Região ter iniciado um processo de renegociação das duas PPP regionais de concessões rodoviárias, seguindo as grandes linhas da estratégia que está a ser adotada no contexto da renegociação das PPPs do Continente e tendo o apoio técnico da Unidade de Acompanhamento Técnico do Ministério das Finanças. Recomenda-se à Região acelerar ambos os processos pois podem permitir, no caso das privatizações, receitas relevantes e, no caso das PPP, reduções de despesas substanciais para a Região sem os custos económicos e sociais de outras medidas de consolidação orçamental". Sobre isto a notícia nada dizia
O relatório do Ministério das Finanças reportado ao 2º trimestre de 2012 – análise à execução do programa de ajustamento financeiro - escrevia claramente que a "Ernst & Young produziu dois relatórios que estudam os contratos de Parcerias Público Privadas da Região Autónoma da Madeira (Via litoral - Concessões Rodoviárias da Madeira, S.A. e Concessionária de Estradas Via Expresso da Madeira, S.A.)". Sobre isto a notícia nada dizia.
Um relatório posterior, da mesma entidade, mas reportado ao 1º trimestre de 2013, não deixa dúvidas: "A Região iniciou um processo de renegociação das duas PPP regionais de concessões rodoviárias, seguindo a estratégia que está a ser adotada no contexto da renegociação das PPPs do Continente (com exceção das medidas incidentes sobre as receitas de portagem) e apoiada tecnicamente pela Unidade Técnica de Apoio de Projetos (UTAP). Neste contexto, realizaram-se já duas rondas negociais com representantes das concessionárias, dos respetivos acionistas e das entidades financiadoras, onde foram apresentadas as propostas negociais do parceiro público (redução de custos de operação, redução ou eliminação dos encargos com grandes reparações e outros investimentos, redução da TIR acionista e revisão de rácios financeiros). Os objetivos de poupanças deverão permitir reduzir os encargos da Região com estas PPP em cerca de 20% a 30% por ano". Sobre isto a notícia nada dizia
Comecemos por enquadrar esta matéria – antes de culminarmos com algumas das 180 conclusões constantes do relatório da comissão de inquérito das PPP que funcionou na Assembleia da República e que irritou tanto o PS que nunca foi capaz de disfarçar o incómodo pela informação que consta daquele documento – com informações correspondentes ao reinado do anterior governo socialista de Sócrates:
- Em Abril de 2009 foram divulgados os resultados da Auditoria às PPP da Saúde, do Tribunal de Contas, tecendo duras críticas aos processos de constituição de PPP então em curso na área da saúde. Soube-se então que "uma das justificações para a derrapagem verificada em todos os processos de PPP passa pela decisão de implementar «um modelo de parceria complexo e sem paralelo no campo internacional, no âmbito de um Ministério que não possuía qualquer experiência prévia em PPP".
- Até 2042, os contribuintes portugueses teriam de pagar todos os anos uma média de 401 milhões de euros pela gestão clínica dos quatro hospitais de parceria público-privada. Falou-se muito das PPP rodoviárias. E destas?!
- O encargo líquido com as PPP atingiu 1,5 mil milhões de euros no final de 2011. Porquê? Porque o estado pagou investimentos da concessão Túnel do Marão para não comprometer as obras, pelo que os encargos líquidos para o estado com as parcerias público-privadas (PPP) rodoviárias ultrapassaram, no final de 2012, os 1.520 milhões de euros, mais 30% – ou 355 milhões de euros – do que os 1.165 milhões de euros de 2011.
Diria que casos de polícia seriam, por exemplo, conhecidas negociatas, entretanto frustradas por mudanças do governo em Lisboa ou pela contenção financeira noutras regiões, ou certas falências fraudulentas estranhamente mantidas em silêncio mas que deixaram muita gente com milhares de euros em dívidas a arder. Caso de polícia é não engaiolar aldrabões trasvestidos de empresários, ou reles amostras disso, que faturam e recebem dinheiro, não pagando depois aos fornecedores de serviços para o efeito contratados, os quais ficam a chupar no dedo, até porque os bandalhos não pagam nem mesmo quando condenados pelos tribunais a fazê-lo. Isso é que é caso de polícia, que nem a impunidade temporária devia servir de refúgio. Potenciais casos de polícia serão, porventura, e por exemplo, esforços feitos a reboque de candidaturas políticas, para que sejam mantidos certos tentáculos comerciais e abertas janelas para potenciais negociatas futuras, algo que só com a derrota eleitoral será banido.
A desonestidade expressa-se ainda no facto de ser deliberadamente escondido que na Madeira existem apenas 2 PPP rodoviárias - a Via Expresso e a Via Litoral - num universo de quase 60 PPP nacionais deixadas pelo governo socialista de Sócrates, o tal que faliu o país, chamou a troica e negociou a austeridade que estamos a pagar. A que se junta a veiculação de valores absolutamente falsos que revelam o carácter de quem assim se comporta porque contam como garantidas certas cumplicidades que deviam obrigatoriamente questionar o que lhes é vendido como "verdades". (LFM-JM)