sexta-feira, julho 19, 2013

Opinião: E se Cvaaco Silva falhar?



No meio desta trapalhada em que se transformou a crise política, na sequência da intervenção do Presidente da República a desafiar os partidos do chamado arco da governação – iniciativa correta nas intenções e na sua conceção teórica, mas que surgiu demasiado tarde, e corre o risco de também esbarrar com as dificuldades decorrentes da radicalização política – tornam-se agora urgentes decisões rápidas que recoloquem o país nos trilhos da normalidade entretanto alterada. Não me parece que o país possa ficar mais tempo refém das habilidades da coligação, que tudo fará para sobreviver no poder, ou das diatribes e contradições de um PS que quer negociar ao mesmo tempo, à direita e à esquerda, como se fosse uma espécie de epicentro da nossa política, aproveitando este processo para lavar ainda mais as suas responsabilidades, quer pelo momento em que nos encontramos, quer pelo facto de ser o partido mais diretamente associado à falência do país, à austeridade e à troika.
Depois do comunicado divulgado durante o recente debate parlamentar sobre o Estado da Nação – iniciativa que entendi como uma deliberada mensagem presidencial dirigida aos partidos, mas que serviu para domesticar o radicalismo dos respetivos discursos políticos – e que foi olhado como uma espécie de alerta aos líderes partidários de que a sua paciência estava a esgotar-se e que havia um prazo limite para um acordo, a verdade é que o presidente precisa de tranquilizar rapidamente o país e a vida política nacional.
Não podemos prolongar esta instabilidade por mias tempo, tal como não é recomendável que se alimente esta incerteza. Não podemos assistir, impávidos e impotentes, à ameaça de uma manipulação mafiosa por parte dos especuladores e dos mercados, refletida no aumento das taxas de juro e no crescimento do nosso próprio endividamento. Essencialmente, não podemos continuar a dar do país uma imagem e incerteza, apesar de dotado de uma Assembleia da República na plenitude das suas funções, com uma maioria parlamentar de 132 deputados e que não pode ficar condicionada às pressões, habilidades ou mais ou menos capacidade de manipulação e de obtenção de espaço mediático por parte da oposição de esquerda, a braços com a sua impotência política.
Depois de ter revelado que, na sequência de encontros mantidos com os líderes do PSD, PS e CDS estes terão manifestado a disponibilidade para conversações, "com vista a um compromisso de salvação nacional que permita a conclusão, com sucesso, do Programa de Assistência Financeira e o regresso aos mercados", Cavaco precisa agora de soluções urgentes e de assumir o controlo da situação, pelo que a antecipação a visita às Selvagens foi exemplo.
Neste momento, de dúvida, confusão e baralhada, não existem indicadores seguros de que será alcançado um acordo nos termos pretendidos por Cavaco Silva – porque no fundo é isso que está em causa – pelo que é normal que sejam mais as interrogações que as certezas, sobretudo quanto ao que fará o Presidente se este processo negocial falhar:
- Dissolver a Assembleia da República, convocar eleições e manter este governo em funções de gestão?
- Nomear um governo presidencial constituído por personalidade conotadas com vários quadrantes ideológicos, mas precisando de assegurar o apoio da Assembleia da República, porque o poder legislativo é essencial, a um governo não partidário, num quadro parlamentar de hostilidade que pode não se circunscrever à esquerda? Lembro que um cenário destes implicaria que fosse o primeiro-ministro a demitir-se, hipótese que o próprio coloca de lado, salvo se o PSD a isso obrigasse. Não acredito que a opção por um governo de iniciativa presidencial, até Junho de 2014, não implicasse um acordo político de realização de eleições legislativas antecipadas, em Setembro de 2014.
Deixando-nos de hipocrisias, como é que um governo de iniciativa presidencial teria a legitimidade política para negociar diretamente com a troika, por exemplo, cortes na despesa do estado da ordem dos 4,7 mil milhões de euros, e assumir compromissos financeiros externos em nome de Portugal? O PS que está contra esses cortes propostos pelo atual governo, calar-se-ia perante um governo de iniciativa presidencial que se propusesse fazer o mesmo? Além disso, temo que um governo de iniciativa presidencial, mesmo a reboque de uma espécie de acordo parlamentar previamente negociado – mas que seria sempre muito instável – fosse acusado de pretender reduzir o espaço de intervenção dos partidos políticos e de transformá-los numa "desnecessidade" em plena democracia. Um risco que existiu na Itália e que explica a derrota copiosa do tecnocrata Monti.
Que garantias tem hoje Cavaco Silva – dia que se prevê marcado por movimentações partidárias importantes - de que PSD, PS e CDS aceitarão um acordo nos termos pretendidos? Esta é, de facto a grande questão que hoje se coloca ao Presidente.
Finalmente, e se tudo isto falhar, o que fará Cavaco Silva, que opções terá em cima da mesa? Vai negociar com o governo de coligação a sua continuidade em funções com uma remodelação porventura maior do que a proposta por Passos?
Partindo do pressuposto que o acordo não corresponderá ao esperado pelo Presidente e não havendo razões políticas profundas para uma atitude mais radicalizada por parte de Cavaco Silva, a que se junta o facto das sondagens até hoje publicadas, não garantirem qualquer alternativa consistente e estabilizada, acho que a proposta de remodelação de Passos Coelho, eventualmente com alguns novos ajustamentos, acabará por ser aceite. O que não invalida que o Presidente possa ter canais de diálogo com o PS ou até assumir compromissos políticos concretos, por exemplo não abdicando da realização de eleições legislativas antecipadas, provavelmente em Setembro de 2014, depois da troika abandonar o país e terminar o programa de ajustamento em curso. Ressalvando que não acredito que Cavaco aceite o ónus de despoletar uma crise política de desfecho imprevisível – e as autárquicas demonstrarão que o PS está longe, muito longe, dos cenários eleitorais híper-vitoriosos que lhe vaticinam - concluo citando o próprio Presidente, por via do prefácio do livro “Roteiros VI”, de 9 de Março de 2012, destacando a seguinte passagem na expectativa de que ajude a perceber melhor o que poderá estar subjacente a este estranho processo político em curso: 

"Há quem tenha a ilusão de que o Presidente da República pode impor aos partidos, contra a vontade destes, a sua participação em governos de coligação, por vezes apelidados de «salvação nacional». O Presidente da República pode exercer a sua magistratura de influência para que sejam encontradas soluções governativas estáveis e coerentes, dentro dos limites que decorrem do estrito imperativo de imparcialidade no tratamento das diversas forças partidárias, compromisso que assumi perante os eleitores e do qual não me afastarei um milímetro. No entanto, mesmo admitindo que o Presidente, através de uma forte pressão, consiga alterar a posição e a estratégia de um partido, levando-o a aceitar, a contragosto, coligar-se com outro para formar governo, entendo que não o deve fazer. A solução de governo que daí resultaria, não correspondendo a uma autêntica vontade de coligação estável e duradoura, seria sempre artificial e precária, consumindo-se rapidamente em lutas internas e dando lugar a uma instabilidade política muito prejudicial ao País. Se um partido manifesta a posição firme de não querer coligar-se com outro, designadamente por este não lhe merecer confiança ou por com ele manter profundas divergências quanto ao rumo da governação, não poderão o empenhamento e a influência do Presidente, por maiores que sejam, criar condições de solidez e durabilidade governativa onde à partida não existem, como, aliás, a história da nossa democracia o demonstra à saciedade. Não tenho dúvidas de que seria isso que teria acontecido se, em outubro de 2009, tivesse forçado, para além do razoável, a constituição de um governo de coligação, contra a vontade inequívoca manifestada em privado e em público pelos partidos" (LFM-JM)