Escreve o Sol que "uma ministra polémica, uma carta amaldiçoada, briefings interrompidos e a demissão 'irrevogável' de Portas, que chocou os seus amigos. Houve medo, na maioria. E também jogo e pressões, de todo o lado.
Fim-de-semana: A saída de Gaspar
Paulo Portas tinha viagem marcada para o Bahrein no sábado. Não seguiu, porém, sem falar com o primeiro-ministro: a conversa era sobre Vítor Gaspar, que iria sair do Governo na segunda-feira, depois do fecho dos mercados. Passos disse-lhe que pretendia substituí-lo por Maria Luís Albuquerque.
Há dois meses que Portas sabia que Vítor Gaspar ia embora. Pensou até que pudesse ser na saída de Relvas, mas não havia ainda Orçamento, nem extensão das maturidades, nem sequer estava fechada a sétima avaliação. Esperou, mas entretanto foi deixando conselhos de que a saída devia ser aproveitada para corporizar a prometida mudança de ciclo. O nome de Maria Luís não cumpria o requisito – Portas disse isso a Passos, mas sem ultimato. O primeiro-ministro reagiu como sempre: sinalizou que ouviu, sem mais.
Portas seguiu, então, viagem. Do Bahrein, soube das notícias da TSF que davam conta do incómodo da troika com a revisão intercalar, as cedências na Educação e os atrasos na reforma do Estado. E soube da carta de Gaspar aos deputados, criticando as medidas do PS para a economia que acabaram por ser aprovadas.
No Governo, estas notícias espalharam a desconfiança: teria sido Gaspar a dar novo sinal de impaciência?
Segunda-feira: briefing, desilusão e maldição
A desconfiança já marcava o dia-a-dia do Governo. E entrou pelo primeiro briefing diário adentro. O tema da estreia era a notícia do dia: Teixeira dos Santos desmentira Maria Luís Albuquerque quanto à ausência de informações sobre as swaps na pasta entregue pelo Governo anterior. Para mais, um comunicado de Gaspar, no domingo, confirmara globalmente o que dissera o ex-ministro. O PS acusou então a ainda secretaria de Estado de mentir ao Parlamento e ela foi ao briefing precisamente para esclarecer o caso.
Lá dentro, além do amontoado de jornalistas, havia assessores vários. Dois de São Bento, dois de Poiares Maduro (que organizavam) e um do MNE. Maria Luís responderia habilmente à pergunta difícil: se Gaspar soube e ela não, Gaspar não lhe disse a ela? Sem o dizer, ficou nas entrelinhas que a resposta era um não – e uma responsabilização do ministro. Os assessores presentes assentiram na habilidade.
Por esta altura, quando aterrava em Lisboa, Portas recebeu um sms de Passos – que lhe tinha tentado ligar durante a viagem: o nome de Maria Luís ia avançar e a saída de Gaspar estava iminente. Eram 4 da tarde quando a TSF largou a bomba. Com uma expectativa: o sucessor de Gaspar seria Paulo Macedo – o homem que Portas aconselhara a Passos, por o achar equidistante e competente.
Em quinze minutos, vieram os estilhaços: a oficialização de que era mesmo Maria Luís Albuquerque. No Parlamento, os deputados do PSD e do CDS passaram da euforia ao balde de água fria, nesse quarto de hora. Era, afinal, a diferença entre convencer o país de que alguma coisa estava a mudar e a perspectiva de que o ciclo negativo iria continuar.
Os recados de Gaspar
Poucos minutos depois, Gaspar mandava divulgar a sua carta de demissão ao primeiro-ministro – que tem uma mão-cheia de recados para Portas, por ter posto em causa o Orçamento de 2013 e obrigado a reabrir a sétima avaliação da troika. Para Passos, seguia um alerta: “Tem o fardo da liderança”, deve aproveitar a demissão para garantir a coesão interna e... manter o essencial intocado. Pelo meio, houve um tímido reconhecimento de erros: falhanço de metas nominais, com o afundar da conjuntura interna.
Nessa noite, Portas tinha Conselho Nacional do CDS para aprovar as 103 coligações com o PSD nas autárquicas. Lá dentro, disse a algumas pessoas que não estava convencido com o nome da sucessora de Gaspar – mas sem nunca dramatizar. Entretanto, já tinha assentido à recondução de Paulo Núncio como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Mas, à saída da reunião, recebeu informações adicionais: todos (quase todos) os comentadores tinham arrasado a escolha de Passos. E uma notícia com origem em S. Bento justificava Maria Luís com a necessidade de manter o rumo de Gaspar. Portas começou a desesperar.
Terça-feira: demissão e crise iminente
Na terça-feira, à hora de almoço, Portas voltou a S. Bento. A conversa correu muito mal, assim que Portas reiterou a sua oposição a Maria Luís e fincou pé numa inversão de rumo. O ponto era que tinha de se fazer face à troika, sem perder tempo. Passos reagiu mal e a tensão foi enorme. Tudo acabou com Portas a dizer que teria de pensar no assunto. Chegou ao MNE furioso – e daí ao comunicado de demissão “irrevogável” foi um passo.
O caso era definitivamente pessoal. Desde a polémica da TSU, em Outubro, que a desconfiança mútua se tornara clara e irreversível. Portas sentia-se desrespeitado a cada passo, como líder de um dos partidos da coligação; Passos e o seu núcleo de mais fiéis ficaram sempre na certeza de que Portas faria tudo para se salvar da parte difícil da governação. Por duas vezes, tudo esteve para estourar. E por muitas mais as discussões entre os respectivos gabinetes foram de surdos.
Pires de Lima furioso
Ao contrário do que acontecera nas duas ocasiões em que esteve para se demitir, desta vez Portas fez tudo sozinho. António Pires de Lima, por exemplo, não fazia ideia e ficou furioso. Os ministros do CDS souberam em cima da hora. Na bancada parlamentar, tomou-se conhecimento pelas notícias nos media – uns até pelos próprios jornalistas. João Almeida, que é porta-voz, estava numa comissão parlamentar e era patente a sua surpresa – tendo que ouvir a bloquista Ana Drago a dizer, de sorriso nos lábios, que o Governo estava a cair.
Passos Coelho, por seu lado, estava na sede do PSD, na rua de S. Caetano, em reunião de direcção. Pouco depois das 15h saiu da sala, ao telefone. Ficou boquiaberto com a demissão: Portas nunca lhe tinha colocado as coisas naqueles termos. Quando regressou, disse aos presentes o que se estava a passar e pediu-lhes reserva total.
O pior é que a posse de Maria Luís estava marcada para as 17h30. Passos tentou contactar o Presidente, mas este estava numa cerimónia pública.
Desencontro com o Presidente
O primeiro-ministro optou por não deixar recado em Belém, pois queria explicar tudo pessoalmente. Só que nessa altura já Cavaco Silva falava aos jornalistas, dizendo ter recebido garantias totais do primeiro-ministro de que Maria Luís nada tinha feito de errado nas swaps – e reiterando que a queda do Governo só podia ser ditada no Parlamento. Quando o Presidente da República soube de tudo, era tarde demais.
Passos foi para a posse em Belém, onde encontrou todo o ‘seu’ Governo e apenas um homem do CDS: Paulo Núncio, que ia ser reconduzido. A cerimónia foi como um velório sem corpo presente. Gaspar, de saída, cumprimentou especialmente Passos e Maria Luís.
Minutos antes, Passos e Cavaco tinham reunido a sós. O Presidente decidira prosseguir com a posse, de todo o modo: o Governo não podia deixar de ter ministra das Finanças. Mas achava tudo incompreensível – incluindo não ter sido avisado em tempo.
Enquanto decorria a cerimónia, os governantes do CDS estavam reunidos com Paulo Portas. Os ministros, os secretários de Estado e alguns dos deputados, como Nuno Magalhães e João Almeida, estavam todos surpreendidos e preocupadíssimos com os efeitos para o país – e com uma crise política prestes a cair em cima do CDS. Sem convencimento unânime, a ideia dominante era a de que a saída de todos eles do Governo seria o normal.
Passos voltava, entretanto, à S. Caetano, com um objectivo em mente: não iria demitir-se, nem dar pretexto algum a Portas para culpar o PSD_pela crise política. Faria tudo para recompor o quadro, incluindo tentar falar com Portas, e manter a deslocação a Berlim no dia seguinte, para garantir aos credores externos que queria manter o Governo de pé e prosseguir o rumo. Primeiro passo: convocou todos os ministros para uma rápida reunião de Governo, que se realizou com as presenças de Mota Soares e Assunção Cristas – quando já havia notícias a falar da saída de ambos.
Cavaco, Durão e banqueiros
Entretanto, Passos tentou ligar a Portas – que não o atendeu. Houve quem, nas 24 horas da indecisão, conseguisse falar-lhe três vezes, como Miguel Macedo. Paula Teixeira da Cruz perdeu uma chamada dele e, quando a retribuiu, já não o apanhou – só no dia seguinte o conseguiu.
Às 20h, Passos fez uma declaração ao país: não aceitara a demissão de Portas. E não falou de moção de confiança, como se antevia, só de serenidade. Até no CDS se reconheceu que a comunicação fora bem feita.
Os telefonemas não paravam em lado nenhum. Durão Barroso e Cavaco Silva falaram directamente com os dois líderes, procurando forçar um acordo. Os líderes dos maiores bancos ligaram para tantas pessoas quanto conseguiam, até para deputados, para saber informações e perceber como se podia recompor o quadro. Dirigentes do PSD e do CDS trocavam também mensagens e telefonemas, tentando perceber o que se tinha passado.
Quarta-feira: o pânico e o volte-face
Às oito da manhã, as rádios já davam a notícia: os juros da dívida a 10 anos subiam 100 pontos-base, tocando nos 8%. A bolsa entrava em minicrash, caindo 5%, penalizando muitíssimo a banca.
O futuro passava então pela sede do CDS, onde às 13h começaria a reunião decisiva. Os trabalhos parlamentares decorriam em serviços mínimos. Nos gabinetes dos ministérios, quase tudo parou. Os ministros não descolavam dos televisores, para saber quando saía fumo do Caldas.
Portas reconhece que falhou
A reunião não foi fácil para Portas. Começou por reconhecer ter falhado ao decidir sozinho, explicando as razões do seu desespero com Passos. As intervenções que se seguiram foram de discordância com a sua saída. Todos evitaram olhar para as horas anteriores – seria penoso para Portas e ninguém queria que o líder sentisse que o partido já não o queria. Menos ainda com o Congresso à porta, no fim-de-semana.
No final, sendo já claro que quase todos preferiam manter o CDS no Governo, mesmo com sacrifícios evidentes, levou-se uma hora a redigir os termos certos para a declaração que Luís Queiró (e não Portas, como se anunciara antes) faria ao país. Optaram por usar termos abertos, iguais aos de Passos, para tentar renegociar a coligação. Com dois sinais de abertura: o Congresso mantinha-se. E ninguém mais pediria demissão. O encontro Passos/Portas aconteceria a seguir, à chegada de Berlim do primeiro-ministro".