sexta-feira, novembro 05, 2010

Já não há bancos estrangeiros nos leilões de dívida portuguesa...

Garante o Jornal I num texto do jornalista Bruno Faria Lopes, que “a pressão sobre a dívida pública portuguesa atingiu ontem um novo recorde desde o arranque da zona euro, aumentando a probabilidade de Portugal ter de recorrer à ajuda de emergência europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Portugal ainda consegue financiamento nos mercados de obrigações, mas fontes do sector financeiro confirmam ao i que esta procura é assegurada quase exclusivamente pela banca portuguesa - o país não só arrisca suportar juros acima da "linha da vida" de 7% definida pelo ministro das Finanças, como pode ficar sem financiadores no momento em que o Banco Central Europeu apertar a concessão de liquidez de emergência aos bancos nacionais. "À medida que nos aproximamos do final do ano é possível que os bancos portugueses tenham de enfrentar critérios mais restritivos por parte do BCE, como prazos mais curtos e maior exigência nas garantias prestadas", explica Paulo Soares Pinho, professor na Universidade Nova de Lisboa e consultor na área da banca. "Se os bancos nacionais, que são quem assegura a maior parte do financiamento da dívida pública, perderem a capacidade e o interesse, a pergunta é: quem irá comprar?", junta. Outra fonte do sector financeiro confirma ao i: "Nos nossos leilões de dívida pública já quase não aparecem bancos estrangeiros." Ontem parte da pressão dos mercados nasceu do anúncio por parte de dois grandes investidores institucionais de que retiraram alguns dos chamados países periféricos da zona euro da sua lista de alvos de investimento. O fundo soberano da Noruega - o segundo maior do mundo, que gere mais de duas vezes o valor do PIB português - avisou sobre a dívida espanhola, e alguns fundos russos, que também investem os lucros do petróleo, removeram Espanha e Irlanda da sua lista. Portugal, que integra o grupo dos periféricos endividados, sofreu por tabela: os juros da dívida a dez anos chegaram a tocar o recorde (desde 2002) de 6,8% e fecharam nos 6,65%. Portugal paga mais 4,26 pontos percentuais que a Alemanha para se financiar a dez anos - seis vezes mais que em Janeiro. Nas maturidades mais curtas a pressão foi também notória, um mau sinal sobre a desconfiança dos mercados. O impacto chegou ao governo, que ontem se multiplicou em declarações a agências e jornais internacionais para tentar acalmar os ânimos. Carlos Costa Pina, secretário de Estado do Tesouro, afirmou que Portugal está a diversificar investidores e considera os laços com a China de "prioridade estratégica" - uma tentativa de explorar em termos de imagem a visita do presidente Hu Jintao ao país, já amanhã, e a compra anunciada de dívida portuguesa por parte dos chineses. A pressão, contudo, diminuiu muito pouco - como referiu ontem o FMI, os mercados já estão a apostar quase 100% na falência do país. Portugal tem mais de 40 mil milhões para pedir no próximo ano, entre repagamento de dívida vencida e financiamento do défice. Ao mesmo tempo enfrenta uma provável recessão económica que fará subir o peso da dívida pública e dos juros no PIB. "Este facto poderá ditar uma revisão em baixa do rating da República em 2011", aponta Soares de Pinho. Tal revisão soma-se à limitação do papel da banca portuguesa na compra de dívida e à subida dos juros para valores insustentáveis. As fontes de pressão são muitas e difíceis de travar. Nos últimos dias, o plano alemão de mudança do mecanismo de emergência europeu para casos como a Grécia tem sido a maior razão - a Alemanha lidera a ideia de partilhar a factura de uma falência com os credores, abrindo campo para uma reestruturação da dívida, em vez de ter os contribuintes europeus a passar um cheque em branco. "A preocupação de base no mercado é o mecanismo proposto, que está a afastar investidores avessos ao risco", disse um analista do Credit Agricole à Reuters. Mas há outros factores relevantes - Portugal não conseguiu descolar em 2010 do grupo de países em apuros orçamentais. "O governo perdeu credibilidade nos mercados com a execução orçamental em 2010 e o drama da aprovação do Orçamento mostrou que não há uma moldura política capaz de assegurar a execução em 2011", aponta Soares de Pinho. "Agora não vejo outra hipótese que não seja o recurso a ajuda externa”.

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