sexta-feira, julho 19, 2013

Será que eleições antecipadas vão resolver os nossos problemas numa realidade eleitoral dominada pelo PSD e PS? Fizermos um levantamento e cada um que tire as suas conclusões



Uma das questões que ultimamente mais preenchem espaço nos meios de comunicação social e mais ocupam os políticos da esquerda, tem a ver com o cenário de eleições antecipadas num país intervencionado e que depende, pelo menos até Junho de 2014, do dinheiro que a troika nos entrega em tranches antecedidas de polémicas avaliações. Polémica que tem a ver com a incerteza não propriamente quanto ao que delas poderia resultar em temos de mudança política em Portugal, nomeadamente da substituição do PSD pelo PS como partido mais votado, mas quanto à possibilidade desse pretendido desfecho eleitoral poder impor novas opções no âmbito da execução do memorando de entendimento e execução da austeridade.

Neste contexto recordo alguns aspetos importantes realizadas com as eleições legislativas para a Assembleia da República, realizadas entre 1976 e 2011, para que as pessoas, na medida do possível, possam perceber do que estamos a falar. Ressalvo - e isso é muito importante pois até ao momento temos apenas as eleições regionais nos Açores, em 2012, como referencia - que estas eleições autárquicas serão as primeiras, na Madeira e no Continente, depois da vigência do mandato do atual governo de coligação e da austeridade que o caracteriza e constitui a sua imagem de marca. No caso da Madeira serão as primeiras depois do programa de ajustamento financeiro em curso.

Em 1976 a esquerda foi a mais votada nas eleições para a Assembleia da República, repetindo o mesmo resultado nas eleições de 1979,1983,1985,1995,1999, 2005 e 2009. A chamada direita foi a mais votada nas eleições de 1980, 1987, 1991, 2002 e 2011. Ou seja em 13 eleições realizadas até hoje para a Assembleia da República, a esquerda teve mais votos em sete delas contra seis da direita, a última das quais em 2011, que levou a atual coligação ao poder.

O somatório dos votos dos principais partidos concorrentes aos atos eleitorais, e com deputados eleitos, e que lograram representação parlamentar – os demais não contabilizei neste estudo - registou a seguinte evolução:

1976 - 5.004.289 votos

1979 - 5.621.580

1980 - 5.634.064

1983 - 5.364.517

1985 - 4.412.400

1987 - 5.054.413

1991 - 5.331.975

1995 - 5.638.971

1999 - 5.207.114

2002 - 5.276.335

2005 - 5.456.140

2009 - 5.327.266

2011 - 5.109.486

Passemos então à evolução dos eleitores votantes que revela indicadores preocupantes mas que enumeraremos mais adiante:

1976 - 5.484.461 (83,5%)

1979 - 6.007.453 (82,9%)

1980 - 6.026.395 (83,9%)

1983 - 5.484.461 (83,5%)

1985 - 5.798.929 (72,3%)

1987 - 5.676.358 (71,6%)

1991 - 5.735.431 (67,8%)

1995 - 5.904.854 (66,3%)

1999 - 5.363.906 (61,8%)

2002 – 5.433.924 (62,3%)

2005 – 5.713.640 (65,0%)

2009 – 5.683.967 (59,7%)

2011 – 5.588.594 (58,1%)

Constata-se que em 2011, nas eleições que levaram a atual coligação ao poder, a percentagem de votantes foi a mais baixa de sempre nas treze eleições para a Assembleia da República já realizadas. Em termos absolutos, e apesar de tudo, o número de eleitores participantes no ato eleitoral de 2011 foi ainda assim superior aos registados em 1976, 1983, 1999 e 2002. Assinale-se contudo que entre 1976 e 2011 o número de eleitores inscritos nos cadernos eleitorais aumentou em mais 3.059.466 eleitores!

Relativamente às abstenções – importantes quando se discute a dimensão da real dimensão da representatividade dos governos, o que nada tem a ver com a legitimidade do poder eleito, dois conceitos diferentes - podemos confirmar a evolução constante deste quadro seguinte, quer em termos absolutos, quer em termos percentuais:

1976 – 1.081.206 (16,5%)

1979 – 1.241.893 (17,1%)

1980 – 1.152.628 (19,1%)

1983 – 1.665.369 (29,2%)

1985 – 2.226.237 (38,4%)

1987 – 2.254.310 (39,7%)

1991 – 2.726.431 (32,2%)

1995 – 3.001.754 (33,7%)

1999 – 3.309.916 (38,2%)

2002 – 3.283.025 (37,7%)

2005 – 3.072.122 (35,0%)

2009 – 3.830.355 (40,3%)

2011 – 4.035.539 (41,9%)

Constata-se que o recorde de abstenções foi alcançado, em termos quantitativos absolutos e percentuais, em 2011, ano em que a atual coligação chegou ao poder, distanciamento eleitoral que pode ter como explicação os acontecimentos que antecederam as eleições e que foram protagonizados pelo anterior governo socialista de José Sócrates, desde a falência do pais, passando pelo pedido de ajuda externa urgente e culminando com a negociação do memorando de ajustamento que abriu portas a uma austeridade absolutamente criminosa. O caricato é que o número de abstenções é superior aos resultados do PSD e do CDS juntos – 2.813.729 votos – superior ao somatório dos votos obtidos pelo PSD e PS – 3.727.910 votos – e é quase correspondente ao total dos votos dos três partidos mais votados em 2011, PSD, PS e CDS – 4.381.897 votos.

Outro aspeto curioso tem a ver com o facto do PSD e PS, partidos essenciais no sistema eleitoral e político português, continuarem a ser, considerando o somatório dos seus votos, os principais dominadores das opções dos eleitores. Comecemos pelo somatório dos votos e respetiva percentagem, considerando os partidos que alcançaram nos treze atos eleitorais ara a Assembleia da República, representação parlamentar:

1976 – 3.248.403 (59,3%), PS o mais votado

1979 – 4.361.416 (72,6%), PSD

1980 – 4.541.355 (75,4%), PSD

1983 – 3.616.113 (63,4%), PS

1985 – 2.936.539 (50,6%), PSD

1987 – 4.113.289 (72,5%), PSD

1991 – 4.573.075 (79,7%), PSD

1995 – 4.598.344 (77,9%), PS

1999 – 4.136.080 (94,7%), PS

2002 – 4.269.349 (78,0%), PSD

2005 – 4.241.573 (74,0%), PS

2009 – 3.730.903 (77,4%), PS

2011 – 3.725.538 (66,7%), PSD

Gostaria de referir que nesta anterior relação, os valores atribuídos ao PSD em 1979 e 1980 se reportam à coligação AD e que em 1980, os valores correspondentes o PS se reportam à coligação FRS. O que se consta nos valores acima referidos é que PS e PSD somaram juntos, em Junho de 2011, um dos valores mais baixos de sempre, superado apenas pelos registados por ambos os partidos nas eleições de 1976, 1983 e 1985. Mas a curiosidade é que desde 1987 até 2011, o total dos votos do PSD + PS foi o mais baixo de sempre em termos quantitativos. Em termos percentuais PSD e PS obtiveram em 2011 um valor apenas superado pelas percentagens de 1976, 1983 e 1985. Mas apesar de tudo, PSD e PS continuam a ter 3,7 milhões de votos desde 2009 apesar de terem mantido, entre 1987 e 2005 uma média de 4,43 milhões de votos o que ajuda a perceber a questão da rotatividade política em Portugal.

Se atendermos aos mandatos conseguidos por PSD e PS na Assembleia da República, o predomínio dos dois partidos é evidente, como facilmente podemos constatar – os valores percentuais indicados tem como referencia o total de deputados eleitos:

1976 – 180 (68,4%), PS o mais votado

1979 – 202 (80,8%), PSD

1980 – 208 (83,2%), PSD

1983 – 176 (70,4%), PS

1985 – 145 (58,0%), PSD

1987 – 208 (83,2%), PSD

1991 – 207 (90,0%), PSD

1995 – 200 (87,0%), PS

1999 – 196 (85,2%), PS

2002 – 201 (87,4%), PSD

2005 – 196 (85,2%), PS

2009 – 178 (77,4%), PS

2011 – 182 (79,1%), PSD 
Recordo que em 1976 a Assembleia da República tinha 263 deputados eleitos por diversos círculos existindo então uma curiosa particularidade: enquanto a Madeira elegeu 6 deputados num círculo único, os Açores elegeram 3 por Ponta Delgada, 2 por Angra do Heroísmo e 1 pela Horta. Só nas eleições de 1979 é que os Açores passaram a eleger deputados pela região, tal como a Madeira. Em 1979 a Assembleia da República passou a eleger 250 deputados que em 1991 passaram a 230 mandatos, os mesmos que foram eleitos em 2011.O quadro acima mostra que PSD e PS para além da hegemonia eleitoral em termos absolutos, mantêm sempre em média mais de 77 por cento dos deputados eleitos, pelo menos desse 1987. Provavelmente este facto será uma das razões que fundamentam as dúvidas de muitos sectores da sociedade portuguesa relativamente á possibilidade de um cenário de eleições antecipadas, mesmo que possam propiciar uma solução governativa alternativa estável e, mais do que isso, a garantia de que os eleitos adotariam uma política substancialmente diferente daquela que até hoje tem sido adotada, apesar de naturais nuances que pudessem ser introduzidas num país intervencionado, que perdeu a sua autoridade e que continua a ser comandado a partir do exterior.As pessoas precisam de perceber que independentemente da conjuntura interna, há dois partidos – PS e PSD – que mantem uma ascendência, quer em termos eleitorais, quer em termos de mandatos, como verificamos no texto anterior.Foi a seguinte a evolução eleitoral do PSD nas sucessivas eleições para a Assembleia da República, entre 1976 e 2011:
1976 - 1.336.697 votos, 24,4%

1979 - 2.719.280, 45,3%, concorreu no quadro da AD

1980 - 2.868.076, 47,6%, idem, morte de Sá Carneiro

1983 - 1.554.804, 27,2%

1985 - 1.732.228, 29,9%, Cavaco Silva na liderança

1987 - 2.850.784, 50,2, idem

1991 - 2.902.317, 50,6%, idem

1995 - 2.014.589, 34,1%

1999 - 1.750.158, 50,6%

2002 - 2.200.765, 40,2%, com Durão Barroso como líder

2005 - 1.653.261, 28,8%

2009 - 1.653.665, 29,1%

2011 - 2.159.181, 38,7%, com Passos Coelho

Verifica-se que o PSD, ressalvando o facto de ter concorrido em 1979 e 1980 no quadro da Aliança Democrática - Sá Carneiro, Freitas do Amaral do CDS e Ribeiro Teles do PPM - sem contar com estes dois atos eleitorais os resultados eleitorais do PSD oscilaram entre o valor mais baixo, obtido em 1976 - convém ter presente que os eleitores inscritos nessa altura eram substancialmente inferiores aos atuais - e a maior votação, conseguida em 1991, com Cavaco Silva na liderança do partido. Que aliás foi igualmente responsável pelo segundo melhor resultado em 1987, excluindo, repito, os dois atos eleitorais em que o PSD concorreu no quadro da AD. 
Relativamente ao PS, foi a seguinte a evolução eleitoral nas eleições para a Assembleia da República:
1976 - 1.911.706 votos, 34,9%, com Mário Soares

1979 - 1.642.136, 27,3%

1980 - 1.673.279, 27,8%, concorreu no quadro da coligação FRS

1983 - 2.061.309, 36,1%, com Mário Soares

1985 - 1.204.311, 20,8%

1991 - 1.670.758, 29,1%

1995 - 2.583.755, 43,8%

1999 - 2.385.922, 44.1%, com Guterres em líder

2002 - 2.068.584,37,8%, idem

2005 - 2.588.312, 45,0%, com Sócrates em líder

2009 - 2.077.238, 36,6%, idem

2011 - 1.566.347, 28,1%, idem 
Excetuando as eleições de 1980, nas quais o PS concorreu no âmbito da Frente Socialista e Republicana, verifica-se que os resultados oscilam entre os 1.204.311 votos de 1985 e os 2.585.922 votos de 1995. Saliente-se contudo que entre 1995, quando o PS ultrapassou os 2 milhões de votos e 2011, quando Sócrates foi derrotado e afastado, o pior resultado foi exatamente o de 2011. No que diz respeito ao CDS, e ressalvando o facto de ter concorrido em 1979 e 1980 no quadro da AD, pelo que esses resultados não serão referenciados neste levantamento, foi a seguinte a evolução eleitoral dos centristas nas eleições para a Assembleia da República:
1976 - 877.494, 16%, com Lucas Pires

1985 - 577.580, 10,0%, idem

1987 - 251.987, 4,4%, Adriano Moreira

1991 - 254.317, 4,4%, Freitas do Amaral

1995 - 534.470, 9,0%, Manuel Monteiro

1999 - 451.643, 8,3%, Paulo Portas

2002 - 477.350, 8,7%, idem

2005 - 416.415, 7,3%, com Ribeiro e Castro

2009 - 592.778, 10,4%, com Paulo Portas

2011 - 653.888, 11,7,1%, idem 
Excetuando as eleições de 1979 e 1980, nas quais os centristas concorreram no quadro da antiga AD, constata-se que os resultados oscilaram entre os 877.494 votos de 1976, que apesar de tudo continuam a ser o melhor resultado do partido de sempre, e os votos de 1987 e 1991, com Adriano Moreira e Freitas do Amaral, que foram os piores resultados dado que o CDS foi autenticamente trucidado pela votação do PSD de Cavaco Silva. A votação do CDS em 2011 constituiu o 3º melhor resultado de sempre, superado apenas por 1976 e 1983, mas desde 1985 até hoje foi o melhor score obtido pelos centristas, facto que em certa medida tem estado presente nas atitudes tomadas por Paulo Portas.Finalmente - e considerando que o Bloco de Esquerda apenas surgiu no panorama político português em 2000, graças á fusão de vários pequenos partidos, nomeadamente UDP e PSR, entre outros - temos o PCP cuja evolução eleitoral desde 1976 foi a seguinte, ressalvando que os comunistas desde 1979 que concorre abrigado em coligações, primeiro a APU, com o MDP-CDE e depois a CDU, com os Verdes. Uma coligação que garante aos pequenos partidos que concorrem às eleições a reboque do PCP, entre 2 e 3 mandatos, como foi o caso do MDP em 1983 com 3 deputados, os mesmos que elegeu em 1985:
1976 - 786.701, 14,4%, com Álvaro Cunhal

1979 – 1.129.322, 13,8%, idem

1980 – 1.009.505, 16,8%, idem

1983 – 1.031.609, 18,1%, idem

1985 – 898.281, 15,5%, idem

1987 – 689.137, 15,4%, idem

1991 – 504.583, 8,8%, idem

1995 – 506.157, 8,6%, com Carlos Carvalhas

1999 – 487.058, 9,0%, idem

2002 – 379.670, 6,9%, idem

2005 – 433.243, 7,5%, com Jerónimo de Sousa

2009 – 446.279, 7,9%, idem

2011 – 441.147, 7,9%, idem

Como se verifica pelos resultados, o PCP conheceu o seu período áureo, em termos eleitorais, entre 1979 e 1983, onde conseguiu superar a barreira do 1 milhão de votos. Mas a partir de 1985 tem vindo a descer consecutivamente, estabilizando entre 2005 e 2011 nos pouco mais dos 400 mil votos. O pior resultado do PCP continua a ser o de 2002, com cerca de 380 mil votos. Depois da saída de Álvaro Cunhal da liderança dos comunistas, estes nunca mais ultrapassaram os 506 mil votos de 1995, com Carvalhas. LFM