Passadas,
ao que tudo indica - o Presidente da República culmina hoje os contatos com os
partidos, devendo aceitar a proposta da maioria parlamentar e dar posse a um
novo governo - as ondas de choque causadas por uma espécie de crise política,
que mais pareceu uma ópera bufa, que pôs a nu a mediocridade de alguns dos mais
conhecidos protagonistas da política nacional, parece-me evidente que os
cidadãos começam a perceber que o que se passou pode não ter passado de uma
jogada política de Portas, de alto risco, devidamente ponderada, mas que acabou
por lhe correu bem. Paradoxalmente.
O
alegado recuo de Portas irritou, naturalmente, não apenas a esquerda
partidária, que não se cansa de berrar em todas as esquinas a reclamar eleições
antecipadas, que nada vão resolver, mas também centrais sindicais submissas e
desacreditadas, que nunca foram capazes até hoje de conseguir rigorosamente
nada de positivo a favor dos trabalhadores, sobretudo em termos de suster o que
tem sido a política laboral, social e económica deste governo de coligação. No
caso dos funcionários públicos, principais vítimas da política de austeridade
absolutamente criminosa em curso, essa incompetência sindical no sector é ainda
mais lamentável e reforçadamente ineficaz. E tudo isto acontece apesar do
desgaste político e social dos partidos no poder. Contando com a
irreversibilidade da decisão de Portas, mas esquecendo que essa decisão sempre
se colocou, parece-me, num determinado contexto político-governativo,
entretanto alterado, a mudança de atitude, do líder do CDS, depois de um
complexo processo negocial, irritou também alguns comentadores televisivos, que
de independentes nada têm, e que se mostram sempre ávidos em ampliar cenários
transformando-os em desgraças políticas sem correspondência, depois, com a
realidade.
Parece-me
normal que se procure desvendar o que eventualmente se passou, apesar do silêncio de Portas, considerando para o efeito todos os factos
conhecidos, o passado político desta coligação e, atribuindo-lhes a importância
que realmente elas têm, determinadas situações recentes, iniciadas com a patética
demissão do ex-ministro Gaspar, não pela demissão em si mesma que nos encheu a
todos de satisfação e que não incomodou em nada os mercados que nem sequer reagiram,
mas pela forma desonesta e asquerosa como o indivíduo a geriu.
É
natural que o CDS - e só lamento que o PSD não o tenha feito antes -
aproveitando a saída de Gaspar, que José Miguel Júdice no fim-de-semana
classificou do Miguel de Vasconcelos da tróica e das banca europeia, tenha preconizado
uma mudança no radicalismo da austeridade criminosa que está a destruir o país
e os portugueses, a par do incremento de uma verdadeira política de dinamização
da atividade económica que não se compadece com palhaçadas, casos do supercrédito
fiscal e outras palermices do género, como se a propaganda por si só resolvesse
os nossos graves problemas. O que se passou, segundo foi noticiado, é que
Passos Coelho, noutro clamoroso erro político no quadro da gestão da coligação,
e que acabou por ser o rastilho desta trapalhada e desta espécie de crise, terá
avançado com a promoção a ministra da secretária de estado e sua antiga
professora na Universidade Lusófona, Maria Luís Albuquerque, sem ter comunicado
essa decisão ao seu parceiro de coligação e correndo o risco de ser acusado de feito
uma opção que garante a continuidade da política orçamental e da austeridade
que o CDS contestava. Aliás a moção de Portas ao Congresso do CDS falava por
si, embora isso não branqueie a sua solidariedade e partilha de
responsabilidade pelo legado destes dois anos de governação.
Outro
facto determinante foi a carta do ex-ministro Gaspar a Passos Coelho a qual, mais
do que o assumir de erros, do falhanço de previsões e do reconhecimento da incompetência
pessoal, continha insinuações e críticas diretas a Paulo Portas, particularmente
devido ao falhanço, na perspetiva do ex-ministro, da amplitude e dureza da chamada
reforma do estado que, pode-se deduzir, terá ficado aquém do pretendido por Gaspar
na sua fúria radical de austeridade sobre mais austeridade, de roubalheira de
salários, pensões e reformas sobre mais roubalheira de salários, pensões e
reformas. A continuidade desta política contestada por Portas e pelo CDS, na
figura de Maria Albuquerque, terá sido considerada uma provocação de Passos
Coelho e mais uma desvalorização do CDS, partido essencial para a maioria
absoluta parlamentar.
Mas
terá sido isso o rastilho da crise? Sim, mas não só.
Portas sabe que o PSD e Passos Coelho não querem eleições - o PSD
seria sempre dos dois partidos da coligação o que mais teria a perder – tal
como sabe que o CDS descarta esse desfecho; sabe que Cavaco Silva teria sempre grande
relutância em fomentar uma crise política;
sabe que o CDS figura nos últimos
lugares das sondagens, superando apenas o Bloco de Esquerda; sabe que ele próprio, Portas, é o líder político que nas sondagens aparece
mais em queda e em desgaste. Mas sabe também que a nova ministra das finanças
tinha a sua tomada de posse agendada, pelo que Portas deixou de ter espaço de
manobra suficiente para pressionar o PSD e Passos Coelho e provocar o
Presidente da República. Desesperado, optou por uma solução espalhafatosa,
radical, de demissão irrevogável, decisão que colocava em causa a continuidade
da coligação, pelo menos nos moldes até então vigentes. Teve contudo a
honestidade, é certo, de assumir a causa próxima da sua decisão, embora eu não
acredite que tivesse sido apenas esse o motivo da decisão. Havia um acumular de
divergências, de recados, de contradições, de hesitações e de situações
políticas graves e inaceitáveis - a pior das quais foi a declaração
absolutamente idiota de Passos Coelho, numa entrevista na TVI, de que Gaspar
era a 2ª figura do governo, desvalorizando e relegando o líder do seu parceiro
de coligação para o 3º plano - que antevia, mais cedo ou mais tarde, este
desfecho. Se fosse o contrário, duvido que o PSD não fizesse rigorosamente a
mesma coisa, ou até mesmo pior.
Apesar de ser classificada de decisão pessoal, para
justificar o facto de não ter contatado previamente os seus órgãos dirigentes
do CDS – é um facto que Portas não tinha mais tempo para isso, se a sua ideia fosse,
e acredito que era, a de tentar adiar a posse da nova ministra das finanças. O
problema é que Portas, e bastava ler o comunicado por ele divulgado, deu
claramente a entender duas coisas que não foram realçadas nem desenvolvidas
pela comunicação social - que preferiu divertir-se com outras tontices - nem
pelos comentadores televisivos que nesta espécie de crise tentaram ignorar
factos que não lhes serviam ao discurso político e ao desfecho pretendido (LFM-JM)