terça-feira, julho 23, 2013

Opinião: "Não está tudo como dantes"

Cavaco fez o que se esperava e disse que o atual Governo se mantém. Veremos se Passos mantém a remodelação que queria fazer antes do discurso do Presidente, ou se muda de ideias e propõe nomes diferentes. Seja como for, e segundo nos informou o Chefe do Estado, o Executivo deverá apresentar uma moção de confiança ao Parlamento. É o mínimo que pode fazer, como escrevi há duas semanas , é uma obrigação da maioria e um gesto de decência democrática indispensável, de repor o Parlamento como centro da vida política.
Ainda assim, o Governo fica frágil e terá de trabalhar muito, já não digo para recuperar a confiança, pois essa há muito a perdeu, mas, pelo menos, a fim de parecer um governo unido e sem brechas. A cena de Portas foi má de mais, como todos os momentos que se seguiram à demissão de Vítor Gaspar, incluindo a célebre tomada de posse de Maria Luís Albuquerque.
Pessoalmente não acredito que os tempos sejam de molde a propiciar esse reforço. Basta ver os desafios políticos, em termos de cortes orçamentais, que aí vêm. Como já muitas vezes disse, este Governo não tem rumo, não sabe o que quer; e o pior é que a própria Europa e, de um modo geral, a troika também não. Bem podem prometer um novo ciclo, com prioridade à Economia e ao emprego. Como se sabe, isso não depende das palavras, nem do facto de se querer.
Poder-se-ia pensar que o PS teria uma alternativa consistente. Mas a avaliar pelas palavras de António José Seguro também não é o caso. Pode ter boas intenções, mas não creio que tenha capacidade e possibilidade de levar essas intenções à prática, nomeadamente quando diz que porá fim à política de austeridade. François Hollande também o prometeu em França e não conseguiu... não será o nosso PS a descobrir como se faz. Enquanto a troika estiver em Portugal, por isso mesmo; depois de a troika partir, porque as condições não vão ser melhores, pelo menos substancialmente.
Por vezes tendemos a esquecer as origens da crise. Ela é velha de muitos anos, aqui e na Europa, onde não há crescimento digno desse nome e onde a confiança dos cidadãos dos governos está a diluir-se cada vez mais.
A falta de confiança no Governo, a desconfiança na oposição e a própria falta de confiança na Europa deixa-nos a todos com um sentimento estranho. Não é o fim do mundo, e havemos de sobreviver. Mas à medida que os laços entre os eleitores e os eleitos vão sendo quebrados, mais perigosos se tornam os desfechos políticos. Tal como temia, uma parte da campanha eleitoral já aí anda, e todos os partidos se concentram agora a recriminar os outros. A demagogia anda à solta. E apesar de Cavaco se ter centrado nos pontos positivos do que se passou esta semana (ainda assim houve pontos em que os partidos acordaram e recomendou ao Governo que ouvisse mais o PS e os parceiros sociais), temo que a radicalização estéril seja cada vez maior " (texto de Henrique Monteiro, Expresso com a devida vénia)