terça-feira, julho 23, 2013

Opinião: A montanha pariu uma ratazana



Temos que ser sérios na apreciação à fantochada em que transformaram um processo de negociação, já em si mesmo faz-de-conta, que se prolongaram durante uma semana alimentadas por um suspense da treta para enganar os mais desatentos. E a seriedade de uma análise isenta a tudo o que se passou implica, desde logo, que se ressalve que só uma pessoa absolutamente distraída e distante dos vícios e das diatribes da política portuguesa é que imaginaria que PSD e PS alguma vez se entenderiam, até por causa da dimensão da radicalização política hoje existente, mesmo com um cenário eleitoral em 2014 "oferecido" pelo Presidente aos socialistas, para fúria e incómodo do PSD.
Ao tomarmos conhecimento que o PSD de Passos, entre outros itens, queria obrigar o PS não só a apoiar o orçamento de estado para 2014, que todos sabemos corre o risco de ser um perigoso rastilho de instabilidade social, bem como e também a apoiar o polémico corte da despesa pública, da ordem dos 5 mil milhões de euros, que vai enfurecer os cidadãos, com consequências imprevisíveis, percebemos que fomos todos bem comidos pelas patéticas nomenclaturas que se apoderaram dos nossos principais partidos, conspurcando-os e retirando-lhes credibilidade popular. Pior ficamos quando constatamos que o PSD, dando vagos sinais de concordar com eleições antecipadas em 2014 (na realidade sabemos que o PSD ficou furioso com essa sugestão de Cavaco Silva, embora não o tenha assumido publicamente) condicionava o seu apoio a esse cenário caso o PS se comprometesse a aprovar antes disso, o orçamento de estado para 2015. Ou seja, o PSD de Passos queria impor aos socialistas, como moeda de troca das eleições em 2014, a aprovação de um Orçamento de estado destinado a um governo que apenas sairia dessas eleições antecipadas, a realizar depois dessa aprovação. Que descaramento, este de haver partidos a pretender impor a um governo ainda nem sequer eleito, por dependendo de eleições, um orçamento de estado que todos sabemos nunca seria executado por este governo de Lisboa ainda no poder.
Mas quando constatamos que um dos parceiros das negociações, o PS, se sentou à mesa com o propósito de impor as ideias e propostas constantes da moção de estratégia que Seguro levou ao Congresso, reclamando eleições antecipadas antes de Junho de 2014, data da saída da troika do país e do fim do programa de ajustamento, como defendeu Cavaco Silva, facilmente percebemos que os socialistas, responsáveis pela falência do país queriam tudo menos um acordo. Mais. O PS chega a referir no seu documento., com, todo o descaramento, que quer governar com maioria absoluta, o que, por si só, clarifica o estado de espírito de um PS, qual manta de retalhos, a braços com pressões negativas sobre um líder fraco que temeu pela sua sobrevivência na liderança socialista. Ou seja, estivemos todos "presos" por uma farsa monumental, já que se a coligação pretendeu claramente obrigar o PS a um entendimento que a mantivesse no poder num quadro de previsível instabilidade social crescente e que poderá ter consequências graves, até para o próprio Cavaco Silva, porque a decisão por ele anunciada no domingo é claramente de defesa da maioria o que eleva ainda mais a sua cumplicidade com a coligação, diga o Presidente o quer disser.
Apesar de pensar que Cavaco Silva, no atual contexto político, poderá não ter muitas alternativas ao seu dispor, não deixo de sublinhar que o Presidente, diga o que disser no sentido da recusa eleições antecipadas – cenário que PSD e CDS temiam, porque sabem antecipadamente qual seria o desfecho eleitoral… - não é adivinho nem me consta que se dedique a misturar política com futurologia. Dizer que as eleições não são uma solução para os nossos problemas será sempre e apenas uma opinião pessoa. Por isso, e sem querer especular, a minha dúvida é saber se, em vez do governo da coligação PSD-CDS tivéssemos no seu lugar um governo socialista, também, com maioria absoluta, e a braços com uma situação política, social, económica e orçamental semelhante, se Cavaco Silva agiria da mesma maneira ou se em vez disso, teria dissolvido domingo o parlamento e convocado eleições legislativas antecipadas.
Repito, Cavaco Silva, ao manter o governo da atual maioria, tomou a decisão mais lógica depois do falhanço das negociações partidárias. A montanha acabou por parir uma ratazana. Ou seja, a esquerda vai continuar a berrar pelas esquinas, mas os 98 deputados que ela dispõe na Assembleia da República, nada conseguem politicamente contra os folgados 132 mandatos da coligação PSD-CDS. O PS, provavelmente, vai radicalizar ainda mais o seu discurso, fletindo mais para a esquerda que curiosamente criticou durante o processo negocial, tendência que será seguida por uma UGT que permanece identificada com a estratégia socialista. A Intersindical vai tentar marcar presença constante na rua – já ameaçou com nova greve geral - mesmo que daí não resulte qualquer efeito político concreto, continuando a fazer o que o PCP lhe mandar fazer. As confederações empresariais continuarão a reclamar medidas de crescimento da economia e redução dos impostos para aumentar o poder de compra interno, algo que todos concordam, sem abdicarem de uma postura crítica veiculada sempre com pouca convicção e ainda menor persistência. Mais do mesmo.
Obviamente que ninguém tem neste momento a certeza de que a estabilidade política no seio desta coligação esteja garantida, apesar de Cavaco Silva, na sua intervenção, ter desafiado PSD e CDS a se entenderem para cumprirem a Legislatura até ao fim, 2015. O passado mostra que há muita coisa em jogo e que, sobretudo no caso do CDS, o espectro de ameaça de erosão do partido e do seu líder continua a ser a grande preocupação, aliás como o mostram todas as sondagens publicadas.
Existem três acontecimentos até Outubro deste ano, que podem ser determinantes, para a estabilidade política e social do país, para o futuro dos portugueses e deste governo de coligação, cada vez mais enfraquecido aos olhos da opinião pública, podendo algum deles afetar a própria liderança de Portas no CDS, cujo congresso só se realiza depois das eleições.
O primeiro, sem uma cronologia rígida, são as autárquicas de 29 de Setembro, pois mesmo tratando-se de eleições dotadas de uma especificidade muito própria, a perspetiva de um cenário de derrota copiosa da maioria – desfecho no qual não acredito, sinceramente – pode enfraquecer tanto o governo de coligação como indiretamente o próprio Cavaco Silva. A pressão da esquerda e dos sindicatos tenderá a aumentar num quadro político destes.
O segundo facto tem a ver com a aprovação dos cortes da despesa pública da ordem dos 5 mil milhões de euros e que causarão uma mossa terrível na sociedade portuguesa, acentuando ainda mais a fragilidade social e aumentando os índices de pobreza das famílias e a falência das empresas. Tudo dependerá da postura dos cidadãos, habitualmente mais favoráveis ao come-e-cala do que a outras atitudes mais radicalizadas e muito menos adeptos de encenações montadas por partidos da oposição de esquerda e centrais sindicais submissas.
O terceiro facto tem a ver com o orçamento de estado para 2014 que será mais um instrumento de austeridade criminosa acrescida, de mais roubos de salários, pensões, reformas e cortes substanciais nos subsídios sociais. E nem sequer falo no novo pacote da função pública, na previsão de despedimento de milhares de funcionários públicos por via da mobilidade, etc.
Quero sublinhar que a primeira derrota política do PS e de Seguro, depois do fracasso das negociações, tem a ver com o facto de que, em situações normais, a possibilidade de realização eleições legislativas antecipadas em 2014 admitida por Cavaco Silva, dependerá agora apenas de fatores que não passam pelos socialistas – ao contrário do que estava em cima da mesa nas negociações fracassadas – o que implica que o PS deverá envolver-se mais intensamente na pressão sobre o governo e a maioria, provavelmente com o apoio de alguns sectores da comunicação social politicamente divergentes do atual governo onde os socialistas encontram terreno fértil de acolhimento.
Resta-nos saber quanto tempo mais vai durar esta coligação neste clima de lua-de-mel renovada, o que passa pela dimensão do impacto social e político negativo causado por medidas de mais austeridade anunciadas para os próximos meses e que vão abalar, muitas delas, os princípios constitucionais da democracia portuguesa e os alicerces da estrutura social do nosso país. O que nada tem a ver com a necessidade da despesa pública portuguesa ser debatida, repensada e adaptada a uma realidade orçamental que não pode continuar numa espiral deficitária constante, como se nada se tivesse passado nestes dois últimos anos. LFM-JM