I.O pequenote partido dos Verdes - que só existe
porque é uma criação do PCP e que anda a reboque dos comunistas, no quadro de
uma coligação eleitoral sem justificação e que apenas a entendo pelo facto do
PCP ter medo de dar a cara sozinho e da possibilidade do seu logotipo aparecer
isolado nos boletins de voto - resolveu apresentar uma moção de censura, a que
regimentalmente tem direito, conquistando por essa via um raro protagonismo
mediático - a mesma treta do costume sobretudo por parte de algumas televisões
que começam a desesperar porque não conseguem derrubar o governo de coligação
ainda ano poder… - explicado pelo facto de ser o único grupo parlamentar da
esquerda – 2 deputados apenas… - que na Assembleia da República tem ao dispor
essa prerrogativa. Istro porque PS, PCP e Bloco já apresentaram moções de
censura, sistematicamente derrotadas pela maioria, cenário que voltará a
acontecer uma vez mais, e que disso não existam dúvidas.
Desde 1987 que os Verdes elegem 2 deputados à Assembleia da República
– o mínimo para que tenham estatuto de grupo parlamentar, o que em termos
regimentais lhes propicia outras prerrogativas que não teriam caso, por
exemplo, elegessem apenas um deputado – depois de terem substituído o MDP-CDE,
presumo que entretanto extinto, como parceiro privilegiado do PCP numa
coligação, a APU, que foi a primeira a ser criada pelos comunistas.
O problema é que o PCP, que por vezes tem a mania que estratégia
política e manhosice parlamentar é com ele, permitiu que o "filhote" Verdes tomasse uma iniciativa política
absolutamente errada, temporalmente desajustada, dada a conjuntura presente e
politicamente patética, porque vai uma vez mais isolar a esquerda para um lado,
com 98 deputados em 250, fragilizando o seu espaço de manobra e a sua
capacidade política de persuasão. Desde logo porque seria de supor, até porque
a isso recomendaria o bom senso, seria expectável que aguardassem o epílogo
deste processo negocial em curso ou que se reservassem para perceber se o
governo de coligação, ele próprio, se sentiria obrigado ou não a apresentar uma
moção de confiança, iniciativa que estava em discussão no seio da maioria. Por
outro lado, e sempre me referi a isso, o CDS de Portas, independentemente das
guerras que tenha com o PSD no quadro da coligação nunca, repito, nunca votará
a favor da minoria de esquerda, muito menos ainda se disso resultasse a queda
deste governo e desta coligação. Se assim fosse, o CDS já teria feito há muito
tempo a apologia das eleições antecipadas.
Por isso, julgo que esta moção de censura do "filhote" do PCP, e que será hoje votada, corre o risco de
revelar-se mais uma asneira política dos comunistas, mas com isso nada tenho a
ver, e que terá o seguinte desfecho em termos de votação: PS contra a moção de censura, como sempre referi, não apenas porque
receia que a abstenção fosse aproveitada, futuramente, em termos sociais,
políticos e eleitorais, pela esquerda mais radical, tal como votam contra PCP e
Bloco, que tal como os socialistas não podem apresentar mais moções de censura
nesta sessão legislativa. Isto além dos dois deputados verdes que obviamente votarão
a favor da sua própria iniciativa. Temos assim 98 deputados a favor da censura,
caso todos marquem presença, contra 132 deputados que votarão contra a moção, caso
a maioria mobilize todos os seus deputados. Pergunto-como é que o PR pode dizer
que este governo de coligação não tem uma base parlamentar de apoio
suficientemente consistente e quantitativamente suficiente?
Esse é, em meu entender, dada a presente conjuntura de intervenção externa no
nosso país, o problema crucial desta crise.
Julgo não ser exagerado afirmar que estamos perante uma iniciativa
política e parlamentar que servirá para reforçar o ânimo do governo de
coligação, já que os 132 deputados da maioria - a oposição fica-se pelos 98 -
votarão solidamente contra aquela iniciativa, o que naturalmente suscitará uma
pressão reforçada junto do Presidente da República que repensará qualquer
atitude que venha a adotar e que possa ser comparada a um afrontamento ao atual
quadro parlamentar. E tudo isto perante os olhares atentos dos nossos credores
esfomeados e de uma Alemanha tão do agrado da presente maioria governativa
nacional mas que se está borrifando para o que nos possa ou não acontecer. E
tudo isto se passou com um Passos, provocatoriamente, a recusar qualquer
hipótese de demissão, dando claramente a entender aos portugueses que neste
momento não existe outra alternativa que não seja a continuidade deste governo.
Bem ao estilo do patético "ou nós ou o caos", mas
reconhecidamente com alguma razão.
Portanto, com tiros no pé destes,
certamente que o PCP e seu filhote serão da maior utilidade para a coligação e
para os seus argumentos políticos de continuidade num quadro de remodelação que
desconfio Cavaco acabará por aceitar.
II. Passos assumiu há dias na Assembleia da
República ter proposto a realização conjunta da 8 e da 9 avaliações e que tinha
recomendado à tróica que o PS tivesse oportunidade de participar nas
negociações onde será discutido o complexo e problemático processo da chamada
reforma do estado, mais concretamente da redução da despesa pública, deixando
subentender que teme, como é evidente, o descalabro da situação social e o
agravamento da contestação pública que começa a roçar os limites da
preocupação, num país onde se não fossem os chamados subsídios de natureza
social, cerca de 48 por cento da população estaria na pobreza. Uma vergonha.
À
primeira vista pareceu trata-se de uma potencial rasteira política ao PS - que
sempre recusou os cortes na despesa, nos moldes propostos por este governo de
coligação desesperado e cada vez mais entalado - mas acabou por revelar-se
também uma iniciativa demonstrativa do desespero de um primeiro-ministro que se
comportou sempre de forma autoritária e arrogante na sua relação política, quer
com o PS, enquanto maior partido da oposição, quer mesmo com o seu parceiro da
coligação, o CDS. Aliás não passou despercebida a contenção de Passos e Portas
em relação ao PS e a forma menos radicalizada de Seguro no tratamento da
situação política por ocasião do último debate parlamentar, sinal de que havia
uma espécie de compasso de espera até ver.
Contudo,
e sabendo-se que Seguro se move num autêntico ninho de vespas, isso não é
garantia de estabilidade em termos do discurso político dos socialistas. Assim
como não se entende por que razão Passos confunde corte da despesa pública com
austeridade, quando é sabido que uma coisa é a necessidade de mantermos a
austeridade para estabilizarmos as nossas contas públicas e começarmos a
reduzir o défice público, outra andar por aí de olhos vendados e tesoura em
riste, cortando a eito, sem critérios, sem fundamentos, sem razoabilidade, sem
lógica e sem justificação plausível. O que está em causa é isso mesmo. O resto é música que nem sequer nos consegue
alegrar….