domingo, novembro 21, 2010

Irlanda: "Uma ilha de sucesso que se afunda na crise"

"Edward Doran, de 20 anos, trabalha e estuda arduamente. É um designer talentoso e uma das suas ambições é criar uma empresa que eventualmente entre no mercado internacional. Mas até final do mês o seu futuro será decidido por forças que ultrapassam o seu controlo e que, aparentemente, vão também além do controlo do seu governo. É que a Irlanda está à beira da bancarrota. Alguns economistas acreditam que já lá está. Muito brevemente Edward irá também ter a confirmação de que as propinas do Instituto de Tecnologia de Tallaght, situado a sul de Dublin, vão aumentar para o dobro. O pai trabalha por conta própria na construção civil, o que recentemente se tornou sinónimo de ‘desempregado’. “No próximo ano a minha turma estará reduzida a metade”, diz Edward. “Até os professores aderiram às recentes manifestações estudantis contra os aumentos das propinas, porque este país vai acabar por ficar com muito pouca gente qualificada”, acrescenta. “Alguns dos meus amigos já foram para fora. Agora trabalham em bares em Espanha e na Austrália". As últimas semanas não têm sido fáceis para a Irlanda. A especulação sobre a necessidade de recorrer ao Fundo europeu de estabilização financeira para enfrentar a grave crise económica, que abala a nação desde 2008, empurrou os custos de empréstimo para um nível histórico, criando uma desconfiança dos investidores na retoma do país. Esta quarta-feira os títulos da dívida soberana com maturidade a 10 anos atingiram um máximo de 8,25%. Querendo isto dizer que nunca os investidores pediram tanto para comprar títulos do tesouro da Irlanda.
No instituto que Edward frequenta, a semana começou com um protesto dos trabalhadores da construção civil, que supostamente deveriam estar a trabalhar numa nova ala adjacente ao edifício principal do instituto. O seu patrão, Michel McNamara — dono da maior empresa de construção do país —, perdeu a totalidade do seu negócio por dívidas de €1,5 mil milhões, deixando todos os trabalhadores desempregados e com salários em atraso. Até agora as manifestações de trabalhadores e de estudantes têm sido pacíficas. Muitos deles dizem-se até chocados com as imagens televisivas da violência provocada pelos seus colegas ingleses nas ruas de Londres. No entanto, afirmam que o mesmo poderá brevemente ocorrer em Dublin.
A hora dos economistas
Os economistas são as celebridades do momento na Irlanda, e ninguém é mais famoso do que Morgan Kelly. As suas palavras trágicas são exaltadas por uma nação viciada em melancolia celta. Kelly, da University College of Dublin, foi alvo de gargalhada, desprezo e até ameaça, quando em 2007 previu que a bolha imobiliária estava a caminho de uma explosão catastrófica. Agora, o economista prevê um aumento maciço de hipotecas e uma rebelião popular violenta. Os primeiros sinais já são visíveis, afirma Kelly numa entrevista a um canal de televisão. “A ansiedade e falta de esperança da população está a dar origem ao desespero e à cólera que transformarão a política irlandesa num tipo de ‘Tea Party’ como o dos EUA, dando origem a uma nova extrema-direita anti-Europa”, acrescenta. O facto de Kelly, uma espécie de Medina Carreira irlandês, ter acertado nas previsões em 2007, significa que os seus avisos são agora levados a sério, mas no entanto ainda não há sinais de que os irlandeses se estejam a tornar racistas e extremistas. Imigrantes polacos, que ao chegarem em massa à Irlanda há menos de uma década, criaram um aumento de mais de 20% na classe ativa do país. Agora começam a ir embora sem grandes queixas sobre o modo como foram recebidos. A perda de mão de obra tem efeitos negativos na economia do país, mas a preocupação principal recai sobre o número de jovens irlandeses que se vê forçado a procurar emprego fora do país. Mark Ward, presidente da União de Estudantes de Tallaght, diz que há cerca de 1250 estudantes a deixar o país todos os meses. Um em cada cinco estudantes graduados procura emprego fora da Irlanda. A União de Estudantes Irlandeses estima que 150 mil irão emigrar nos próximos cinco anos. Mark, de 26 anos, licenciado em marketing, está convicto de que o Governo é o culpado pela situação, por financiar os bancos que “emprestavam quantias ridículas de dinheiro a amigos para investir em imobiliário”. Acrescenta que “os estudantes não deveriam de ter de pagar pelos erros do Governo e dos amigos banqueiros”. Mark acredita que “vai levar anos para resolver esta confusão”. “O futuro da minha geração está a ser destruído”, conclui. Tony Rock, coordenador de um projeto da organização de caridade St. Vincent de Paul, explica que durante a hora de almoço há crianças a pedir para levar comida para casa porque não têm nada para comer mais tarde. “É triste ver o ponto a que chegámos”, afirma. “Há dois anos o objetivo era acabar com os sem-abrigo até 2012, agora esse sonho está cada vez mais longe de se tornar realidade”, acrescenta. Na Capuchin Friary em Smithfield, pequenos-almoços são servidos todas as manhãs aos sem-abrigo e gente desfavorecida. “Todos os dias aparecem caras novas. Inicialmente têm vergonha de estar aqui, mas nós fazemos com que se sintam à vontade”, conta um dos voluntários.
John O’Reilly, um dos coordenadores do projeto, tem notado que muitas famílias dos prédios vizinhos começam agora a aparecer na fila para o pequeno-almoço. “Alguns deles têm dificuldades em pagar o empréstimo da casa e vêm aqui perguntar se lhes posso dar alguma comida para as crianças.” John acrescenta que nos anos anteriores distribuíam 150 pequenos-almoços, agora distribuem “450 pela manhã e mais 700 à hora de almoço”. Mas não são só os mais vulneráveis que sentem dificuldades. Greystones é uma vila costeira na província de Wicklow, habitada tradicionalmente por famílias abastadas, e terra natal de Sean FitzPatrick, o antigo presidente do agora nacionalizado Anglo Irish Bank. Dennis O’Brien e a mulher, Aisling, ambos arquitetos, reconhecem estar com dificuldades em pagar as mensalidades do empréstimo da casa. “É horrível, é como estar à espera que uma bomba-relógio expluda, mas sem saber quando”, diz Dennis. “Não acredito que haja alguém que tenha fé em nenhum político para resolver esta situação. Muita gente deixaria o país hoje mesmo se conseguisse vender as suas casas. Mas infelizmente nem isso podemos fazer”, afirma. “Basicamente estamos encurralados num ‘Titanic’ que está rapidamente a afundar-se”, conclui. Em dezembro, o Governo pretende apresentar um orçamento de Estado para 2011, com medidas de austeridade que irão provocar um corte de cerca de €15 mil milhões na despesa pública. Um valor a juntar-se aos €14,5 mil milhões anteriormente cortados.
Morgan Kelly veio já afirmar que os cortes na função pública são “um mero exercício de futilidade” quando comparados com €50 mil milhões para financiar a banca. “Qual é a lógica em redistribuir gastos, se o icebergue das perdas bancárias nos vai levar ao fundo de qualquer maneira?” O economista conclui com convicção que “nos próximos seis a sete anos, cada centavo de imposto pago por cidadãos irlandeses será para cobrir os gastos da banca
(pelo jornalista do Expresso, Paulo Nunes dos Santos, com a devida vénia)

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