sexta-feira, setembro 25, 2026

Terra ultrapassa sete dos nove limites considerados seguros para a vida: cientistas alertam para mudanças irreversíveis

O conceito de “limites planetários”, estabelecido em 2009, procura identificar as condições ambientais necessárias para proporcionar um “espaço operacional seguro para a humanidade”. Os sistemas naturais dos quais depende a vida humana deterioraram-se para os piores níveis alguma vez registados, com sete dos nove chamados “limites planetários” já ultrapassados em níveis recorde. Cientistas alertam que está a aumentar o risco de alterações de grande escala, persistentes e potencialmente irreversíveis no planeta.

A conclusão consta da mais recente avaliação à saúde do planeta, citada pelo The Guardian, realizada por uma coligação de 60 cientistas sob a coordenação do Potsdam Institute for Climate Impact Research. O conceito de “limites planetários”, estabelecido em 2009, procura identificar as condições ambientais necessárias para proporcionar um “espaço operacional seguro para a humanidade”. Dos nove indicadores analisados, sete encontram-se atualmente fora desse espaço considerado seguro: alterações climáticas, integridade da biosfera, alterações no uso dos solos, mudanças na água doce, modificação dos fluxos biogeoquímicos, introdução de novas entidades no ambiente e acidificação dos oceanos, que ultrapassou pela primeira vez o limite no ano passado.

Apenas duas áreas — a destruição do ozono estratosférico e a concentração de aerossóis atmosféricos — registaram melhorias durante a última década. Os investigadores ressalvam, contudo, que os aerossóis, que podem contribuir para a poluição atmosférica, continuam a representar um problema em várias regiões.

“A margem para erro está a diminuir”

Boris Sakschewski, principal autor do relatório, considera que o diagnóstico é inequívoco: a pressão está a aumentar em todos os limites planetários que já se encontram fora da zona considerada segura. Segundo o investigador, esta situação significa que está a aumentar o risco de mudanças persistentes, de grande escala e potencialmente irreversíveis, ao mesmo tempo que diminui a margem disponível para responder aos problemas.

Apesar do agravamento, os cientistas defendem que ainda existem conhecimento e capacidade para inverter a trajetória. Johan Rockström, cientista climático e coautor do relatório, considera essencial acelerar as medidas destinadas a recuperar condições seguras nos diferentes limites planetários, tanto para proteger vidas como para garantir condições de prosperidade no futuro.

Florestas e oceanos podem estar a perder capacidade de proteção

A relativa estabilidade do clima e dos recursos naturais durante os últimos 10 mil anos permitiu o desenvolvimento da civilização humana, fornecendo de forma sustentável alimentos, abrigo e condições de vida. O relatório alerta, porém, que esse equilíbrio está a ser profundamente alterado.

Entre as principais pressões estão a libertação de grandes quantidades de poluição responsável pelo aquecimento do planeta através da utilização de combustíveis fósseis, a acumulação de outros poluentes, como os plásticos, e a destruição e fragmentação de habitats, incluindo florestas e zonas húmidas, para dar lugar à agricultura e às áreas urbanas.

Segundo o The Guardian, o relatório alerta ainda que a capacidade das paisagens e das massas de água para absorver estes impactes e funcionar como proteção perante o agravamento das alterações climáticas está a enfraquecer e poderá ter sido significativamente sobrestimada.

Florestas e oceanos têm absorvido enormes quantidades do dióxido de carbono libertado pela atividade humana, mas começam a surgir sinais de fragilidade nesses sistemas naturais. Um dos exemplos apontados é a floresta amazónica, que poderá atingir um ponto crítico e transformar-se numa savana, cenário que teria consequências graves para a estabilidade climática, a segurança alimentar e hídrica e a saúde humana em todo o mundo.

Cientistas dizem que crises não podem ser vistas separadamente

O relatório surge depois de uma sucessão de fenómenos meteorológicos extremos. No último ano, o Paquistão foi atingido por grandes inundações, enquanto 2026 ficou marcado por temperaturas e incêndios recorde na Europa, pelo verão mais quente alguma vez registado nos Estados Unidos e por uma inundação devastadora na fronteira entre o Tibete e o Nepal. Os oceanos também atingiram novos recordes de temperatura.

“Estas não são emergências separadas”, afirmou Hindou Oumarou Ibrahim, presidente da Planetary Guardians, uma coligação que reúne cientistas, líderes empresariais e ativistas. A responsável considera que os dados da avaliação de 2026 confirmam aquilo que comunidades diretamente afetadas pelas alterações ambientais já observam no terreno. O relatório foi divulgado esta segunda-feira pouco depois do início da Climate Week, em Nova Iorque, que reúne políticos, líderes empresariais e ativistas antes da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Apesar da dimensão do encontro, Helen Clarkson, presidente executiva do Climate Group, alertou para aquilo que descreveu como um nível sem precedentes de “green-hushing”, referindo que muitas empresas estarão presentes, mas procuram fazê-lo com pouca visibilidade. Para Clarkson, depois de um verão marcado por tragédias relacionadas com as alterações climáticas, este deveria ser precisamente o momento de falar mais sobre o problema. “O mundo está à beira do abismo e as pessoas procuram mudança”, afirmou (Executive Digest)

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