Não podemos viver uma espécie de censura moderna em que as pessoas só sabem, só conhecem e só debatem os assuntos mais polémicos, os assuntos muitas vezes de pequenos incidentes, os assuntos de pequenos episódios, e deixar aquilo que é mais importante muitas vezes escondido em notas de rodapé, ou mesmo omitido dos grandes espaços de veicular a informação e comentar a informação», disse Luís Montenegro, no Pontal, em meados de agosto.
Não estamos na cabeça do primeiro-ministro e não sabemos o que ele entende exatamente por «censura moderna» ou «assuntos de pequenos episódios», mas uma coisa que sabemos: há uma espécie de ‘lei da rolha’ no Governo liderado por Luís Montenegro, um controlo férreo da comunicação, depois de demasiadas tentativas que se transformaram em erros, intensificados por Luís Neves, o ministro da Administração Interna, e por um desastrado e desastroso sentido de oportunidade que teve o ministro como protagonista, mas em que todo o Governo participou – e ainda esta semana, no Parlamento, foi visível o nervosismo que as intervenções do ministro provocam no PSD, apesar da igualmente visível contenção de danos.
O SOL sabe que não há um, mas vários ministros que, depois de terem entrevistas pré-agendadas com diversos órgãos de informação, acabaram por não as fazer porque não receberam luz verde da central de comunicação, rigorosamente controlada pelo gabinete do primeiro-ministro e que reúne com frequência para dar essas indicações – há declarações pontuais, mas não há entrevistas de fundo. O Governo quer comunicar nos seus termos, tentando, tanto quanto possível, controlar a informação, quando não controla o primeiro-ministro fica abespinhado, sendo que nunca foi político para muita conversa.
O primeiro-ministro não dá uma entrevista formal a uma televisão ou rádio, aos jornais nunca deu há mais de um ano, a última foi em junho de 2025, a Paulo Dentinho, da RTP, numa passagem por Bruxelas para participar no Conselho Europeu. Num dos picos do ‘Caso Spinumviva’ e em plena crise política, deu uma entrevista a Sandra Felgueiras, da TVI/CNN Portugal, a partir do Palácio de São Bento, em março de 2025, e um pouco mais tarde, depois das eleições legislativas de maio de 2025, foi entrevistado por Natália de Carvalho, da Antena 1, em julho. A primeira entrevista como primeiro-ministro foi ao Jornal da Noite da SIC, em outubro de 2024, na altura em que se discutia o OE2025 e o PS ameaçava votar contra, acabou por se abster. Temos então que os dedos de uma mão bastam para enumerar as grandes entrevistas de Luís Montenegro como primeiro-ministro.
Curiosamente, não correu bem
«Curiosamente, o primeiro dia de aulas naquela altura era uma festa», podemos ler num post publicado nas redes sociais do Governo e em que vemos uma fotografia do primeiro-ministro, em pequeno, a propósito do primeiro dia de aulas. Os anos transformaram o comentário numa piada, é que se para o pequeno Luís o dia era «de reencontro engraçado e desejado», o arranque do ano letivo, para o primeiro-ministro e para o Governo que lidera foi tudo menos «engraçado» – e por certo que uma nova comissão parlamentar de inquérito sobre o que aconteceu com os resultados dos exames de acesso ao ensino superior, proposta pelo Bloco de Esquerda e que o PS decidiu esta semana viabilizar, não é o «desejado».
Sabemos que as assessorias de alguns gabinetes ministeriais resistiram ao pedido do gabinete do primeiro-ministro, e considerações em surdina alertaram para a possibilidade do «ridículo». «Numa reação mais epidérmica, podemos considerar a iniciativa como ridícula», disse-nos Alda Magalhães Telles, consultora de Comunicação, que logo nos alertou para o recurso ao news peg, o gancho noticioso, que permite relacionar acontecimentos que estão na ordem do dia com questões mais amplas ou mesmo mais antigas. Neste caso, o Governo faz uma colagem ao tema, o arranque do ano letivo, o regresso à escola, «mas sem qualquer conteúdo ou com conteúdos irrelevantes», diz-nos a especialista. «O Governo é responsável pela Educação, se quer entrar no tema tem de entrar de forma séria», acrescenta, ainda, mesmo que perceba a tentativa de «humanização» dos membros do Governo, ao lembrar que eles também foram crianças, que são cidadãos comuns, no entanto, enfatiza, «os ministros não são cidadãos comuns» e «esta personalização gratuita dos ministros é pura propaganda, sem nenhum conteúdo».
A politóloga Susana Rogeiro Nina complementa esta reflexão: «Parece-me que estamos perante uma tendência de desintermediação da comunicação política que não é exclusivamente portuguesa, mas que a comunicação de Donald Trump tornou particularmente visível. As redes sociais permitem aos governos comunicar de forma muito mais rápida e direta, escolher o momento e o formato da mensagem e chegar a públicos que não são necessariamente os mesmos dos meios de comunicação tradicionais», e acrescenta: «Há também uma adaptação da linguagem e dos conteúdos a audiências diferentes. A comunicação tende a ser mais visual, imediata, personalizada e próxima do quotidiano, o que permite chegar a segmentos do eleitorado com padrões de consumo de informação distintos dos daqueles que acompanham regularmente a imprensa, a televisão ou a rádio. Isso é relevante junto de públicos mais jovens, que estão mais afastados dos media tradicionais, mas também de segmentos do eleitorado que tendem a ter menor confiança nesses meios de informação».
Para a politóloga há uma crescente aposta do Governo liderado por Luís Montenegro numa «comunicação mais direta e personalizada», ainda assim, «não diria que estamos perante uma reprodução ipsis verbis do modelo de Trump [...] diria antes que se insere numa tendência mais ampla que Trump levou particularmente longe: reduzir a dependência dos gatekeepers tradicionais e privilegiar canais nos quais o próprio ator político controla muito mais diretamente a produção e a distribuição da mensagem».
O pior ministro da Educação
Do outro lado da barricada estão os partidos da Oposição – tanto o Chega, com o foco no ministro da Administração Interna, como o PS, a escolher como alvo o ministro da Educação – e usam as mesmas fórmulas de comunicação/propaganda do Governo. Eurico Brilhante Dias, o líder da bancada parlamentar dos socialistas, escolheu as palavras para dizer que Fernando Alexandre «provavelmente candidata-se a ser o pior ministro da Educação desde o 25 de Abril», depois de um grupo de pais da zona de Lisboa ter denunciado que os filhos ficaram sem colocação em nenhuma escola pública. É uma acusação que corre em paralelo, mas não se confunde, com outra polémica que também rebentou este mês: os últimos resultados do PISA, que mostram os alunos portugueses a recuar a níveis equivalentes aos de há 20 anos e que já levaram o Parlamento a chamar Fernando Alexandre e o seu antecessor, João Costa, para dar explicações.
Quanto ao jornalismo, fez o seu caminho e não há boas notícias. O ano letivo de 2026/2027 arrancou com milhares de horários de professores por preencher – a Fenprof falava em 2.650 a nível nacional a poucos dias do arranque, mais de metade só na Grande Lisboa, e o próprio Fernando Alexandre reconheceu ainda existirem cerca de dois mil por preencher, com maior incidência em Lisboa e Setúbal –, alunos sem vaga garantida na escola pública em zonas de maior pressão demográfica, apesar do aumento do número de alunos por sala de aula, num cenário que sindicatos e diretores escolares consideraram «difícil», um arranque de ano escolar igual aos outros, curiosamente (Sol, texto da jornalista Ana Maria Simões)

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