sábado, setembro 12, 2026

Opinião: gostaram do Verão? E agora uma recessão?

Este Verão foi dos mais frenéticos para a política açoriana.

Os governantes andaram numa roda viva para finalizar o PRR e a oposição não quis ficar atrás, com o Chega a emitir nos últimos dois meses quase uma centena de comunicados e o PS, mais comedido, não chegou à meia centena.

Há que reconhecer que o cumprimento do PRR foi um sucesso, ao contrário do que esperavam os partidos da oposição, apesar de algumas obras, ainda inacabadas, serem agora finalizadas com o orçamento da Região, o que provocará mais pressão nas já frágeis finanças públicas.

O cumprimento do programa é importante, mas mais importante é a qualidade do investimento.

O PRR foi mal desenhado desde o início, pelo anterior governo, tendo o actual assumido o documento sem grandes reformulações.

Há um peso excessivo de investimento na administração pública, que vai gerar mais despesa, em detrimento do investimento produtivo, que gera valor acrescentado.

Chegados aqui, a grande questão que agora se coloca aos cidadãos é simples: em que medida todo este investimento se reflecte na carteira das famílias, na criação de riqueza em todas as ilhas e no desenvolvimento das empresas?

Encomendar viaturas e equipamentos para o sector da Saúde, quando as listas de espera continuam a engrossar, ou construir mais betão, que vai exigir mais despesas de manutenção, não é suficiente para corrigir os défices de produtividade com que somos confrontados em todos os sectores da vida pública.

O Governo de José Manuel Bolieiro já está a preparar o Plano e Orçamento para o próximo ano, provavelmente um dos mais difíceis de gerir, devido à escassez de receitas e aos maiores encargos da dívida.

Com efeito, é quase certo que vamos ter um agravamento dos encargos com os juros da dívida pública no próximo ano devido à inflação e consequente aumento das taxas.

Os Açores pagam hoje juros médios entre 2,8% e 4%, dependendo da operação, com um custo anual total entre 73 e 80,6 milhões de euros.

É verdade que uma parte da dívida está protegida por taxas fixas, mas outra parte relevante continua exposta às variações da Euribor.

No lado das receitas, o previsível abrandamento económico vai trazer menos dinheiro para os cofres públicos, a começar pela forte queda do turismo.

De Janeiro a Julho já perdemos cerca de 90 mil dormidas (27 mil turistas), uma quebra estrondosa, confirmando que, no final do ano, o impacto económico desta redução implicará a perda de mais de 150 milhões de euros na economia regional.

A estratégia desastrada do governo (com uma Visit Azores novamente à deriva, por baixa do seu Presidente) vai ter um impacto negativo no PIB regional e na algibeira dos cidadãos e empresas.

A agravar esta situação, o governo já veio confirmar que, no próximo ano, perderemos mais de 50 milhões de euros em receitas devido à estapafúrdia regra da capitação do IVA, imposta por uma lei de finanças regionais, cuja revisão Luís Montenegro engavetou.

Não admira que o Governo Regional esteja altamente pressionado com o próximo orçamento, avisando que vai recorrer à banca no próximo ano, para mais um endividamento de 160 milhões de euros, mas é muito previsível que não fique por aqui.

Quer tudo isto dizer que, passado o foguetório do PRR, vêm aí dias difíceis para toda a gente.

Vamos entrar na chamada época baixa, com uma forte diminuição no sector que nos traz mais riqueza, sendo muito provável que algumas unidades turísticas e de restauração tenham que rever a sua actividade no Inverno, falando-se já na possibilidade de assistirmos a uma onda de 'lay-off' ou na criação de uma linha de apoio para formação profissional, por parte do Governo Regional, para acomodar a tentação de extinguir postos de trabalho.

As famílias açorianas vão passar por um mau momento, a julgar pelos sinais que a economia regional nos vai dando já há algum tempo.

O Indicador da Actividade Económica dos Açores está em desaceleração em cadeia desde Janeiro deste ano, fixando-se neste momento nuns pífios 0,2%, o valor mais baixo de sempre em vários anos.

Mesmo com o PRR, a economia açoriana está a agonizar, a inflação a subir e se a  actividade económica continuar nesta continuada desaceleração, como se prevê nesta época baixa, bastam três meses seguidos em valores negativos para que seja declarada uma economia em recessão.

O pior disto tudo é que estamos em contraciclo com o resto do país, onde a economia cresce, à semelhança da Madeira, e sem os níveis preocupantes de endividamento em que continuamos atolados.

Alguma coisa de errado se está a passar nos Açores.

Receio que uma profunda reflexão, que se exige a todos os responsáveis da Região, esteja a passar ao lado, entretidos que estão todos com festas e comemorações dos 50 anos da Autonomia e dos 600 anos da descoberta dos Açores, olhando para o próprio umbigo. É a festa oficial desconectada com a vida real (texto do jornalista Osvaldo Cabral, Açoriano Oriental, Diário Insular, Portuguese Times (EUA), LusoPresse Montreal, Setembro 2026)

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