MP acusa Lena de pagar quase 2,4 milhões a Sócrates
A questão do negócio na Venezuela é uma das matérias centrais da acusação contra José Sócrates. Segundo o Ministério Público, o Grupo Lena terá pago quase 2,4 milhões de euros a José Sócrates para obter apoio privilegiado no concurso destinado à construção de habitação social na Venezuela. O antigo primeiro-ministro negou estas acusações no início do julgamento. Sócrates é um dos 21 arguidos da Operação Marquês e responde, entre outros crimes, por três crimes de corrupção, relacionados com alegados benefícios que terá recebido para favorecer o Grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o empreendimento algarvio de Vale do Lobo.
Sócrates critica tribunal e Ministério Público
Antes de abordar os factos da acusação, o antigo primeiro-ministro voltou também a contestar a forma como o processo tem sido conduzido. Sócrates apresentou-se novamente em tribunal sem advogado e rejeitou qualquer responsabilidade pelas sucessivas renúncias dos seus defensores. “A renúncia dos meus advogados foi decidida por eles”, afirmou, considerando uma “gravíssima injustiça” a sugestão de que essas decisões teriam sido preparadas ou encenadas. “Se acham que isto foi tudo preparado, encenado, estão enganados”, acrescentou. O antigo governante criticou ainda a alegada falta de tempo para preparar a defesa. “É impossível ter 10 dias de preparação da defesa”, afirmou, acusando a juíza de não conceder tempo suficiente aos arguidos. Sócrates defendeu que o direito a escolher advogado e a dispor de tempo para preparar a defesa são direitos fundamentais consagrados na Constituição.
Acusa tribunal de “assassinato de caráter”
Durante a sessão, José Sócrates voltou também a contestar a forma como foi conduzida a inquirição de Célia Tavares, testemunha que afirmou ter mantido uma relação com o antigo primeiro-ministro entre 2012 e 2014. A mulher confirmou em tribunal ter recebido envelopes com dinheiro entregues pelo motorista de Sócrates, João Perna, também arguido no processo.
O antigo primeiro-ministro classificou a sessão de 18 de junho como uma exposição pública da vida privada e falou num “assassinato de caráter”. “Eu ouvi o interrogatório com um sentimento de repugnância. A palavra é náusea”, afirmou. Para sustentar a sua crítica à exposição da vida privada em tribunal, Sócrates recorreu ainda ao filme alemão A Vida dos Outros, estabelecendo um paralelo entre a utilização da intimidade das pessoas pelo Estado e aquilo que considera estar a acontecer no seu processo.
“Já ninguém fala de corrupção”
À chegada ao Campus de Justiça, Sócrates tinha criticado também a cobertura mediática do julgamento, queixando-se de que as sessões retomadas em 1 de setembro não tinham recebido atenção suficiente. “Eu enfrento há 12 anos uma acusação falsa de corrupção. E agora já ninguém fala de corrupção”, afirmou. O antigo primeiro-ministro acusou ainda o jornalismo português de transformar a presunção de inocência numa “presunção de culpabilidade”. Referiu, em particular, o depoimento de três testemunhas ligadas ao júri do concurso do TGV, que, segundo Sócrates, terão sido unânimes em afirmar que as decisões foram tomadas livremente e sem pressões. Na sua interpretação, esses depoimentos não terão recebido cobertura porque seriam favoráveis à sua defesa.
Operação Marquês começou em tribunal em 2025
O inquérito da Operação Marquês foi aberto em 2013 e tornou-se conhecido dos arguidos em novembro de 2014. O Ministério Público encerrou a investigação em outubro de 2017, com a acusação de José Sócrates e outros arguidos. Após uma fase de instrução que durou mais de dois anos, o julgamento começou em 3 de julho de 2025, no Tribunal Central Criminal de Lisboa. José Sócrates e outros 20 arguidos respondem por alegados crimes de corrupção e outros crimes económico-financeiros. O julgamento prossegue com a audição de testemunhas (Sol)

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