A sessão evocativa dos 50 anos da Autonomia na Assembleia da República foi um bom momento de libertação de traumas reprimidos. A longa cerimónia evidenciou uma convergência institucional histórica quanto ao sucesso das Autonomias, mas expôs linhas de fratura ideológica sobre o ritmo e natureza do seu aprofundamento.
Os dois melhores discursos pertenceram aos Presidentes da Assembleia da República, Aguiar Branco, e da Assembleia Regional dos Açores, Luís Garcia. O primeiro pôs o dedo na ferida do centralismo "paternalista" e o segundo teve a coragem de denunciar as "feridas ainda não saradas" dos centralistas que estavam ali presentes, olhando, ironicamente, para Hugo Soares, o líder parlamentar do PSD, que protagonizou aquelas tristes cenas aquando da discussão do subsídio de mobilidade. De resto, a forma como alguns soberanos republicanos olham para as Autonomias ficou demonstrada com as ausências de Luís Montenegro e António José Seguro.
As juras de amor às Autonomias ganham mais contradição quando se assiste a um consenso sobre a urgência da revisão da Lei de Finanças Regionais, mas ninguém se insurge contra as manobras manhosas do Governo da República para empurrar a revisão para as calendas gregas com a nomeação de um grupo de trabalho sem sentido.
Pelo meio, ainda houve espaço para o delirante oportunismo de alguns partidos, que usaram o aniversário das Autonomias para exigir a regionalização do Continente!
Por outro lado, a efeméride deixou claro que a autonomia política já não é uma causa cívica; é, ainda, uma luta de interesses partidários.
Lisboa mantém a trela financeira curta porque sabe que o poder regional tende a deslumbrar-se com o betão e o clientelismo, enquanto as regiões gritam "lobo" e exigem independência orçamental para esconder as suas próprias incompetências de gestão.
Celebraram-se 50 anos de emancipação, mas o espetáculo no parlamento nacional provou que, tanto nas ilhas como em Lisboa, a maturidade política continua a ser uma miragem, sem que se tenha perspectivado o que serão as Autonomias nos próximos 50 anos.
Como alívio terapêutico, a catarse funcionou.
Quanto ao impacto nacional, ficou demonstrado com a ausência da transmissão da cerimónia nos canais nacionais, até do canal público. O que diz bem sobre a forma como os poderes continuam a olhar para os dois arquipélagos.
Mota Amaral tem razão: o centralismo não dorme!
***
MAIS POBRES - O aumento da população dos Açores, revelado pelo INE e SREA na semana passada, foi saudado por muitos, mas ninguém se lembrou que a proeza vai ter reflexos no PIB per capita da Região, que poderá ser revisto em baixa, à semelhança do nacional.
Por enquanto o INE pede prudência, aguardando novos valores actualizados, mas, segundo o jornal Público, há economistas que defendem que a revisão em alta da população vai trazer novos números, deixando o PIB per capita estagnado e "colocando em causa a ideia de que o bem-estar dos portugueses tem vindo a convergir com a média dos europeus".
Nós, nos Açores, que nos últimos 30 anos temos acompanhado a evolução do PIB nacional, mas sempre sem convergir (ao contrário da Madeira), imagine-se agora com uma revisão em baixa.
Se juntarmos a isso um provável ciclo de economia reprimida, com o fim do PRR e uma época baixa em forte queda no turismo, então teremos o caldo perfeito para continuarmos em contraciclo. Ou seja, sem riqueza suficiente para acompanharmos os outros (Texto do jornalista Osvaldo Cabral, Açoriano Oriental, Diário Insular, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal, Junho 2026)

Sem comentários:
Enviar um comentário