Estudo mostra "sinais relevantes de desgaste profissional". Coordenadora afirma que "o sentido de missão está lá". Jornalistas pedem melhores condições, com respostas organizacionais claras. De acordo com um estudo divulgado esta terça-feira, quase 80% dos jornalistas que participaram num estudo sobre ambientes de trabalho saudáveis já ponderaram abandonar a profissão, sobretudo por causa dos salários estagnados, falta de progressão na carreira e excesso de carga de trabalho. O relatório, desenvolvido pelo Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (Labpats), aponta também como motivos deste risco de abandono da profissão as dificuldades de conciliação da vida profissional e pessoal, assim como a falta de condições laborais. O estudo, que se centrou nos ambientes de trabalho, na saúde e no bem-estar dos jornalistas, diz que os dados recolhidos revelam sinais relevantes de “desgaste profissional e de fragilidade no ecossistema laboral”.
Embora muitos jornalistas continuem a atribuir significado ao seu trabalho, os resultados mostram “dificuldades persistentes” ao nível da remuneração, da organização do trabalho, da liderança, da comunicação interna, da saúde mental e da conciliação entre a vida profissional e pessoal.
Os autores sublinham que a elevada percentagem (79,5%) de participantes que já ponderaram deixar a profissão não deve ser lida como um dado isolado, mas como “expressão de um desequilíbrio entre exigência, reconhecimento, estabilidade, progressão e condições concretas de trabalho”.
Em declarações à Lusa, a coordenadora do estudo, Tânia Gaspar, lembrou que, apesar das dificuldades, os profissionais continuam a achar que o trabalho que fazem tem um impacto positivo na sociedade, o que mostra que “o sentido de missão está lá” e que é preciso olhar para ele. “É exatamente neste mundo de digitalização e ‘fake news’ que é fundamental, cada vez mais, haver espaço e tempo para um jornalismo que consiga ajudar as pessoas a distinguir as duas coisas [a verdade e a mentira, ou desinformação]”, afirmou a especialista.
A psicóloga sublinhou ainda que é preciso desenvolver cada vez mais o juízo crítico, sem ficar preso “à rigidez de um extremismo” e afirmou que “quanto mais as pessoas mais poderosas tiverem o poder nestes meios de informação digital, mais necessário vai ser haver alguém imparcial a validar a informação”. O estudo aponta para um “quadro misto”, com dimensões que funcionam como fatores de proteção, mas com “fragilidades importantes” nas áreas mais estruturais do trabalho.
O teletrabalho apresenta a avaliação mais positiva, seguido do envolvimento dos trabalhadores. Em sentido contrário, os recursos para a saúde pessoal, o compromisso da liderança, a ética e valores organizacionais e alguns indicadores do ambiente psicossocial merecem “atenção prioritária”. Pouco mais de um em cada quatro profissionais concordam que a organização se foca no bem-estar dos trabalhadores e tem políticas estratégicas para o promover, um dado que mostra que o bem-estar “ainda não é percecionado como uma prioridade suficientemente integrada” na cultura das organizações, refere o documento.
A liderança surge como uma “área crítica”, não apenas pela forma como organiza o trabalho, mas também pelo modo como comunica, reconhece, escuta e protege as equipas. No ambiente psicossocial, os especialistas destacam três sinais de alerta: só 20,9% dos participantes dizem ser informados com antecedência sobre decisões importantes; 31,7% dizem que os conflitos são resolvidos de forma justa e 32,2% entendem que a chefia oferece boas oportunidades de desenvolvimento.
Apesar deste contexto, o envolvimento profissional mantém valores relevantes: 52,3% dos profissionais dizem sentir-se motivados e ter prazer no seu trabalho; 50,3% sentem que o trabalho dá significado à sua vida e 59,2% dizem-se satisfeitos com o que fazem.
“O problema não parece estar na falta de ligação à profissão, mas nas condições em que ela é exercida”, consideram os autores do estudo. A organização do trabalho surge como uma das áreas mais sensíveis: 42,6% dos participantes trabalham por turnos e 36,9% trabalham entre 40 e 50 horas por semana. O trabalho durante mais de 50 horas/semana é uma realidade para 12,5%. Quanto às condições de trabalho, os profissionais sugerem o teletrabalho, horários mais flexíveis e semanas mais curtas, pedem respeito pelos horários de saída e menos pressão associada ao excesso de tarefas (Sapo)
Sem comentários:
Enviar um comentário