quarta-feira, setembro 23, 2026

Mais Liberdade: Portugal e o rácio da dívida pública

Portugal tem reduzido de forma significativa o rácio da dívida pública face ao PIB nos últimos anos, uma trajetória que deveria ser motivo de satisfação. Contudo, uma análise mais atenta mostra que essa redução tem sido explicada, sobretudo desde 2023, pela evolução da inflação. Isto acontece porque o rácio da dívida pública resulta da divisão entre o valor da dívida e o PIB (a riqueza produzida pelo país num ano). Quando o PIB aumenta, seja porque a economia produz mais bens e serviços (crescimento económico real), seja porque os preços sobem (inflação), o rácio da dívida tende a descer, mesmo que o valor da dívida em si não mude. Ou seja, tanto o crescimento real da economia como a inflação "diluem" o peso da dívida, ao tornar o país nominalmente mais rico. A isto somam-se ainda outros efeitos, nomeadamente o efeito do saldo orçamental de cada ano: um défice tende a aumentar a dívida, enquanto um excedente contribui para a reduzir.

Entre 2017 e 2019, era o crescimento económico o principal motor da redução da dívida pública. Em 2017 e 2018, por exemplo, o efeito do PIB real contribuiu com -4 pontos percentuais para a queda do rácio, face a apenas -2 pp do efeito da inflação. Em 2020, a pandemia inverteu esta tendência: a quebra da atividade económica fez com que o efeito do PIB real passasse a contribuir com +10 pp para o aumento da dívida, aos quais se juntaram +11 pp de "outros efeitos" (sobretudo o défice orçamental), disparando o peso da dívida na economia portuguesa. Com a retoma pós-pandemia, o padrão voltou a inverter-se. Em 2022, o crescimento económico ainda foi o principal responsável pela redução da dívida, com o efeito do PIB real a contribuir com -9 pp, contra -7 pp do efeito da inflação. A partir de 2023, porém, é a inflação que passa a liderar: -8 pp em 2023, -5 pp em 2024 e -4 pp em 2025, sempre acima do contributo do crescimento real do PIB, que se fixou em -3 pp, -2 pp e -2 pp nesses três anos, respetivamente. Esta mudança é relevante porque o efeito da inflação tende a esbater-se à medida que os preços estabilizam, o que pode tornar mais difícil sustentar o atual ritmo de redução da dívida pública nos próximos anos, caso o crescimento económico não ganhe maior peso no processo (Mais Liberdade, Mais Factos)

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