Hoje, talvez ainda estejamos aqui por causa de uma única decisão tomada por um homem no meio de alguns minutos de caos absoluto. Em 27 de outubro de 1962, data que muitos historiadores chamam de “Sábado Negro”, o mundo chegou perigosamente perto de uma guerra nuclear. A Crise dos Mísseis em Cuba estava no seu ponto mais crítico, e Estados Unidos e União Soviética pareciam prontos para se atacar a qualquer momento. Enquanto isso, nas profundezas do Atlântico, o submarino soviético B-59 navegava praticamente às cegas, cercado e sem comunicação com Moscou.
Dentro daquele casco de ferro, a situação era desesperadora. O ar-condicionado havia parado de funcionar em pleno calor tropical, a temperatura subiu de forma insuportável e o ar começou a faltar. O dióxido de carbono aumentava, os marinheiros mal conseguiam respirar e, sem notícias do mundo exterior havia dias, muitos acreditavam que a Terceira Guerra Mundial já tinha começado.
Então vieram as explosões.
Na superfície, navios da Marinha dos Estados Unidos haviam localizado o submarino e começaram a lançar cargas de profundidade de treinamento. Para os americanos, eram apenas sinais de aviso, uma forma de obrigar os soviéticos a emergirem e se identificarem. Mas, lá embaixo, presos no escuro e sem comunicação, os russos não tinham como saber disso. Cada impacto fazia o metal ranger, os equipamentos tremerem e os homens se agarrarem ao que podiam.
O capitão Valentin Savitski perdeu o controle. Exausto, sufocado e convencido de que a União Soviética já estava sob ataque, ordenou a preparação da chamada “arma especial”: um torpedo com ogiva nuclear. Se fosse lançado, poderia destruir a frota americana acima deles e iniciar uma resposta nuclear em cadeia, com consequências impossíveis de imaginar. Mas havia uma regra no protocolo soviético: para disparar aquele torpedo, era necessária a aprovação unânime dos três oficiais mais importantes a bordo.
O capitão disse sim. O comissário político também disse sim. O desastre estava a uma única assinatura de distância. Todas as atenções se voltaram para o terceiro homem: Vasili Arkhipov.
Tudo ao redor pressionava Arkhipov a ceder. As explosões continuavam, o capitão gritava, a tripulação estava em pânico e o mais fácil teria sido agir por medo, orgulho ou impulso. Mas ele manteve a cabeça fria. Observou os rostos suados ao seu redor, ouviu o barulho dos impactos do lado de fora e disse: não.
Arkhipov insistiu que eles precisavam emergir, tentar comunicação e confirmar se a guerra realmente havia começado antes de tomar uma decisão irreversível. O clima dentro da sala de controle ficou insuportável. Houve gritos, tensão e discussões duras. Mas ele não recuou. Sem a aprovação dele, o torpedo nuclear não seria lançado.
Depois de minutos que devem ter parecido uma eternidade, Arkhipov conseguiu convencer o capitão. O submarino subiu à superfície, encontrou os navios americanos e, após momentos de tensão extrema, a situação esfriou. Não houve ataque. Não houve guerra nuclear. O B-59 deu meia-volta e retornou para casa.
Quando voltaram à União Soviética, porém, ninguém os recebeu como heróis. Pelo contrário: a missão foi vista como um fracasso e uma humilhação por terem emergido diante do inimigo. Arkhipov continuou sua carreira militar discretamente e morreu em 1998, quase desconhecido pelo grande público.
Só décadas depois o mundo soube o que havia acontecido. Em 2002, durante uma conferência em Havana, documentos e relatos sobre o B-59 vieram à tona. Foi então que ficou claro o tamanho daquela decisão. Thomas Blanton, diretor do National Security Archive, resumiu tudo em uma frase: “Vasili Arkhipov salvou o mundo.” A lição que ele deixou é imensa. Coragem nem sempre é apertar o gatilho primeiro. Às vezes, coragem é ter maturidade para manter as mãos abaixadas quando todos ao redor estão exigindo destruição. Cada amanhecer, cada abraço e cada plano que fazemos hoje existem, em parte, porque em um submarino sufocante, no auge da tensão de 1962, um homem teve firmeza suficiente para dizer: não (fonte: Facebook, Enfim, História)

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