Sempre que a República se lembra dos Açores,
tropeça nalguma trapalhada para nos prejudicar.
Está nos livros que a luta pela Autonomia nunca
foi pêra doce, sendo encarada como uma esmola concedida pelo Terreiro do Paço,
em vez de um direito soberano de quem vive e constrói o Atlântico todos os
dias. Enquanto a República mantiver esta postura de arrogância centralista, o
pacto constitucional continuará falhado.
Quis o Presidente da República, António José
Seguro, comemorar o Dia de Portugal, por estes dias, na ilha Terceira, para
relevar os 50 anos da Autonomia dos Açores, mas começou mal.
Primeiro, aprovou um programa cerimonioso,
essencialmente político e de afirmação militar, sem chamar à festa os
populares.
Depois, cometeu um erro de palmatória ao convidar apenas os líderes dos grupos parlamentares da Assembleia Regional, corrigindo à última da hora com convites a todos os deputados.
Estes são apenas sinais da forma como o tratamento
dos assuntos autonómicos são encarados pela República, a que se soma a
descarada discriminação pelos governos centrais dos últimos anos (os
agricultores das Regiões Autónomas já nem são portugueses).
O centralismo lisboeta continua a tratar os Açores
e a Madeira como colónias esquecidas, mascarando a negligência crónica com uma
retórica vazia de solidariedade institucional.
Os governos de António Costa foram um desastre
para as Autonomias, como já tinham sido os de Sócrates e Passos. O de
Montenegro vai pelo mesmo caminho, com ministros que desconhecem o papel das
Autonomias no contexto nacional, como ainda agora se viu com a polémica das
Lajes e com o famigerado subsídio de mobilidade.
Décadas após a consagração da Autonomia
Constitucional, a relação entre a República e o Arquipélago permanece
profundamente desequilibrada, marcada por uma mentalidade paternalista que
sufoca o desenvolvimento das nove ilhas.
O poder central tem um histórico impressionante em
esvaziar as competências regionais de forma sistemática, decidindo sobre o mar
açoriano sem respeitar os órgãos de governo próprio, enchendo-nos de burocracia
como a monstruosa plataforma do subsídio de mobilidade, sempre com a
condescendência guardiã do Tribunal Constitucional (sem qualquer representação
das Regiões Autónomas), que é frequentemente usado para travar leis das
Assembleias Legislativas Regionais.
Até nas suas próprias infraestruturas básicas em
solo açoriano a República falha, com tudo a cair de podre, agravado pela demora
na revisão de modelos de solidariedade obsoletos, como é a actual Lei de
Finanças Regionais.
Lisboa só
se lembra dos Açores para usar a sua centralidade geopolítica atlântica, como
ainda agora aconteceu com a Base das Lajes.
Enquanto o Terreiro do Paço se pavoneia nos salões
da diplomacia internacional à custa da centralidade atlântica do arquipélago, o
povo açoriano é reduzido a um mero espectador. Um espectador que tolera os
riscos geopolíticos de uma infraestrutura militar vital na ilha Terceira, mas
que colhe apenas as migalhas económicas e ambientais de acordos bilaterais
obsoletos.
Décadas de atividade militar deixaram um rasto de
passivos ambientais e solos contaminados na Praia da Vitória, um problema que o
Estado central arrasta com negligência burocrática crónica nas comissões
bilaterais.
A redução do contingente militar norte-americano
asfixiou a economia local da Terceira, mas a República foi incapaz de exigir
contrapartidas financeiras, científicas ou tecnológicas robustas que
beneficiassem o ecossistema de inovação dos Açores
A Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento
(FLAD), criada na década de 80 como contrapartida direta pela utilização do
solo açoriano, mantém a sua sede e o grosso do seu investimento cultural e
académico em Lisboa, privando o Arquipélago do retorno legítimo do seu próprio
território.
Criada para ser o retorno do uso das Lajes, a FLAD
tornou-se um clube de elite que até se dá ao luxo de recusar a falar com o
parlamento dos Açores.
Ainda agora promoveu, em Oeiras, a "FLAD
International Cup", uma disputa de futebol americano entre equipas dos EUA
e de Portugal (!). Foi para isto que cedemos solo açoriano aos EUA?!
Os Açores não podem continuar a ser o escudo e a
moeda de troca com que Portugal compra a sua relevância na NATO e em
Washington.
Exigir a revisão urgente e justa do Acordo de
Cooperação e Defesa (e por arrasto a FLAD) não é um ato de insubordinação
regional, mas sim um imperativo ético.
A tolerância açoriana esgotou-se: o chão é da
Terceira, o risco é das ilhas, mas o proveito político continua fechado nos
ministérios de Lisboa.
Esperamos que António José Seguro se lembre disto
amanhã na Terceira.
E nos ajude a corrigir, como prometeu em campanha
nos Açores, "a demasiada desconfiança do poder central em relação às
capacidades das periferias".
Pode ser que Montenegro e a sua equipa aprendam alguma coisa nos Açores, esquecida que ficou a anunciada Cimeira, prometida há quase um ano, entre a República e as Regiões Autónomas... (texto do jornalista Osvaldo Cabral, Junho 2026, Açoriano Oriental, Diário Insular, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)
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