sábado, março 14, 2026

“¡Yo soy el Presidente!”: a nova vida de Maduro numa cela de três metros por dois

Uma pequena janela para o distante mundo lá fora, uma cama metálica e permissão para ir ao pátio três vezes por semana resumem o quotidiano do antigo chefe de Estado venezuelano na prisão nos Estados Unidos. À noite, Nicolás Maduro grita alto e bom som que foi feito refém dos Estados Unidos a 3 de janeiro. “¡Yo soy el Presidente!”. A vida atrás das grades do ex-Presidente da Venezuela no Centro de Detenção Metropolitano de Nova Iorque, um dos complexos penitenciários mais rigorosos dos Estados Unidos, é bastante mais estreita, enquanto espera voltar ao tribunal.

Acusado de conspiração por narcoterrorismo, conspiração de importação de cocaína e posse de dispositivos destrutivos, Maduro passou um dos invernos mais severos dos últimos anos na cidade que nunca dorme. E, como conta o jornal espanhol “ABC” numa reportagem publicada esta quinta-feira, “a queda de Nicolás Maduro já não se mede apenas em termos de poder, discursos ou controlo territorial, mede-se em poucos metros quadrados”.

O artigo explica que atrás de uma porta metálica, na cela que habita há mais de três meses, há apenas uma cama fixa à parede e, segundo fontes a par da sua situação, todas as noites uma voz que repete sem cessar: “Eu sou o Presidente da Venezuela! Digam ao meu país que fui sequestrado, que aqui somos maltratados!”. O relato destes gritos noturnos foi transmitido ao “ABC” pelos advogados de um dos reclusos, também venezuelano, que se encontra num módulo próximo.

A cadeia está localizada numa zona industrial de Brooklyn, junto à baía do rio Hudson. “É o inferno na terra”, explica Sam Mangel, consultor penitenciário que trabalhou durante anos com reclusos em centros federais, citado pelo “ABC”. “Está em condições de total abandono, com falta de financiamento, sem pessoal suficiente. É um lugar onde ninguém gostaria de passar um minuto sequer”, completa.

Naquele centro de detenção, Maduro e Cília Flores, a mulher do ex-Presidente venezuelano, aguardam julgamento ou sentença definitiva. Por ali já passaram outros nomes conhecidos, como o rapper Sean “Diddy” Combs; Ghislaine Maxwell, companheira do magnata pedófilo Jeffrey Epstein, sempre misturados com reclusos anónimos acusados de crimes federais graves.

Um porta-voz do Departamento Federal de Prisões (BOP) recusou-se a fornecer detalhes sobre a situação específica de Maduro. “Por motivos de segurança e privacidade, o BOP não revela as condições de detenção de nenhuma pessoa sob sua custódia”, afirmou. Mas, de acordo com o que o “ABC” diz serem fontes conhecedoras da sua situação, Maduro foi colocado na Unidade de Alojamento Especial, uma unidade de confinamento solitário, que visa promover um isolamento disciplinar, prevenir suicídios e proteger detidos em risco. E, na prática, implica confinamento quase permanente.

“A cela é um espaço reduzido, com cerca de três metros de comprimento por dois de largura, com uma cama metálica, um vaso sanitário, um lavatório e uma janela estreita por onde mal entra luz natural”, descreve o jornal. Os detidos podem sair três vezes por semana durante uma hora, sempre com algemas nos pés e nas mãos e escoltados por dois guardas e, durante esse tempo, podem tomar banho, usar o telefone, aceder ao email sob supervisão ou sair para um pequeno pátio ao ar livre cercado por grades.

A 5 de janeiro, Maduro compareceu perante o juiz Alvin Hellerstein, em Manhattan, identificou-se como “Presidente da República da Venezuela”, afirmou que estava “sequestrado” e que tinha sido capturado na sua casa em Caracas. O juiz respondeu que haveria “um momento e um lugar” para discutir a legalidade da sua captura e notificou-o dos seus direitos. Maduro declarou-se inocente e, desde então, encontra-se em prisão preventiva.

“Essa é, por enquanto, a condição de Nicolás Maduro em Brooklyn. Não a de um chefe de Estado rodeado de ministros, escoltas e câmaras, mas a de um acusado numa prisão preventiva, submetido a um regime de isolamento e à rotina rigorosa de um centro federal, à espera de um julgamento que pode demorar meses ou mesmo anos a realizar-se. Num edifício de betão em frente à baía de Nova Iorque, onde o poder já não decide horários nem abre portas e onde as noites não são encurtadas por decreto”, conclui a reportagem do “ABC” (Expresso, texto da jornalista Christiana Martins)

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