quarta-feira, março 11, 2026

Nota: a bagunça (?) política em São Vicente ou uma sucessão de tiros-nos-pés?

Não é muito difícil olhar para a realidade eleitoral em São Vicente e particularmente para o apoio ao Chega: nas autárquicas de 2025, o Chega obteve 1.705 votos para a Câmara Municipal contra 1.348 da coligação PSD-CDS. Globalmente o Chega elegeu 8 dos 15 membros da Assembleia Municipal (1.632 votos contra 1.385 da coligação PSD-CDS) a que se juntam os 3 presidentes das Juntas de Freguesia (1.679 votos para o Chega contra 1.425 votos da Coligação PSD-CDS). No caso das Assembleias de Freguesia, o Chega elegeu 15 dos 27 mandatos. Goste-se ou não a realidade é que a pior votação da coligação PSD-CDS, em 2025, registou-se na eleição para a Câmara Municipal de São Vicente, mas pelos vistos nada parece que ali aconteceu...

Nas presidenciais o candidato Ventura, líder do Chega, obteve 1.227 votos contra 523 votos de Seguro na 1ª volta da disputa. Já na 2ª volta das presidenciais, Ventura passou para 1.540 votos contra 1.316 de Seguro. O PSD-Madeira acha realmente, com toda a seriedade e franqueza, que tem condições para ir neste momento para um combate eleitoral autárquico, e de alimentar a intriga e a desestabilização nos bastidores, sem antes fazer as mudanças de protagonistas e outras que precisa? Vai apresentar-se ao eleitorado com as caras derrotadas de Outubro de 2025?

Mais. O PSD-Madeira acha que apesar das divergências entre o Presidente da Câmara - que obviamente confirmou toda a sua óbvia inexperiência política como seu principal "adversário", aliás como sempre antecipamos, embora eu admita que este episódio lhe sirva de lição política, sobretudo quanto à necessidade de ser politicamente assessorado, de forma competente e experimentada, o que não acontece neste momento, razão que porventura explica o acumular de erros políticos na gestão do Município - e os dois vereadores, a que se junta o anúncio do Presidente de que não se demitirá para provocar eleições intercalares - aliás isso teria de passar pela Assembleia Municipal, e por uma sucessão de votações contra ele e as suas propostas, o que não me parece plausível dada a ampla maioria de mandatos do Chega (11 eleitos contra 7 da oposição) - e da expectativa do eleitorado para que o Presidente eleito tenha tempo para cumprir promessas e mostrar o que vale, serão factores suficientes para as bases social-democratas invertam o sinal dado em Outubro-25 que propiciou ao PSD uma derrota eleitoral em toda a linha?

Lembremos a evolução eleitoral do PSD em São Vicente nas autárquicas (CM):

  • 2026 - coligação PSD-CDS, derrotada com 1.348 votos, 38,9% e  2 mandatos. Vitória do Chega, no seu primeiro ano a concorrer à edilidade vicentina e a alcançar a maioria absoluta e a totalidade das freguesias do município;
  • 2021 - coligação PSD-CDS, vencedora com 2.242 votos, 70,5% e a totalidade dos 5 mandatos
  • 2017 - PSD e CDS nem concorreram porque se colaram à UPSV, vencedora com 2.619 votos, 79,2% e a totalidade dos 5 mandatos
  • 2013 - PSD (ainda com João Jardim na liderança regional) perdeu com 1.136 votos, 30,9% e 1 mandato contra a vitória da lista de independentes surgida na sequência de divergências políticas e pessoais que naquele concelho nunca foram uma novidade
  • 2009 - vitória do PSD com 1.845 votos, 48,8% e 3 mandatos contra 1.273 votos votos, 33,7% e 2 mandatos do PS

Pergunto e insisto; acham mesmo que entre 2021 e 2025 não aconteceu nada? Alguém já se preocupou em saber - se é que não sabem mesmo, aliás desconfio que sempre souberam... - as causas da derrota eleitoral, em toda a linha, sofrida em 2025, que contrasta, por exemplo, com as regionais de 2023 (a coligação PSD-CDS foi a mais votada com 56,1% e 1.646 votos - o Chega na estreia eleitoral regional obteve 216 votos e 7,4%), com as regionais de 2024 (resultados mantiveram-se, neste ano apenas o PSD, com 1.324 votos e 46,8% - o Chega ficou-se pelos 242 votos, 8,6%) e com as regionais de 2025 que voltaram a dar ao PSD uma vitória com 1.556 votos, 51,6% - o Chega ficou-se pelos 143 votos, 4,7%?

Acham mesmo que nada aconteceu nas autárquicas de 2025? Acham mesmo que não é preciso mudar nada em São Vicente? Acham mesmo que a confiança mostrada pelos eleitores no Chega em Outubro, e reafirmada na votação em Ventura, repetidamente mostrada nas duas voltas das eleições presidenciais, são sinais que favorecem o PSD-Madeira naquele concelho nortenho? Acham mesmo que os eleitores do Chega em São Vicente são todos uns "reles fascistas" ou que em cinco ou seis meses mudam de opinião qual camaleão?

Acham mesmo que a confiança depositada no Presidente da Câmara eleito, apesar da sua inexperiência e de alguma incapacidade em antecipar acontecimentos previsíveis dada a "práxis" política no concelho, caiu toda por terra? Sejamos sérios, a política exige seriedade, pragmatismo e clarividência, sem colocar partidos reféns de disputas e ambições pessoais ou arrufos e espertezas saloias de grupos, que colocam uns contra os outros, alimentam falsas solidariedades pessoais ou apegos a "causas" ditas comuns mas que depois acabam por propiciar esperados desfechos eleitorais que todos preferem ignorar e atirar o lixo para debaixo do tapete sem fazerem o que lhes compete ou, em última instância, sejam obrigados a fazê-lo?

Talvez por ser um concelho ligado à minha infância, onde durante anos frequentemente ali passava várias temporadas com familiares, sigo com atenção o que acontece em São Vicente numa novela que promete coisas novas mas relativamente à qual não tenho a certeza nem de quem são os cowboys nem os índios, nem tão pouco sei se os cowboys serão os vencedores antecipados de um estranho braço-de-ferro que ali ocorre (LFM)

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