Menos palavras e mais atos. Foi assim, em linguagem escorreita e sem margem para duplas interpretações, que o Presidente António José Seguro inaugurou o capítulo dos avisos ao Governo na sua primeira visita oficial como Presidente da República. A deslocação à pequeníssima aldeia de Mourísia, no concelho de Arganil, que no verão passado ficou cercada pelas chamas, tinha uma dupla intenção: mostrar que a Presidência não será centralista (olhará para “Portugal inteiro”), e evidenciar que a palavra dos políticos tem consequência. É que Seguro, candidato, tinha ficado impressionado com aquela aldeia queimada a toda a volta e tinha prometido “não esquecer”.
Sem praticamente nenhuma margem para improvisos, chegou pontualmente, percorreu a aldeia no trilho destinado e escolheu bem as palavras que quis deixar no primeiro momento de comunicação com os jornalistas: “Muitos dos problemas que existem (e ali são muitos, desde o isolamento ao problema demográfico, passando pela falta de acesso a energia, rede móvel e apoios) exigem respostas da política. E quando se fazem promessas de apoio é importante que sejam concretizadas”, disse, anunciando que tinha ouvido do presidente da Câmara de Arganil que ainda havia apoios prometidos pelo Governo na sequência dos incêndios por concretizar. Primeiro recado. Depois, resumiria assim o que quer que seja a sua Presidência: “Serei um Presidente exigente para que as palavras possam valer e para que isso reconcilie os portugueses com as instituições.” Nem um primeiro-ministro-sombra, nem um Presidente que toma chá com o primeiro-ministro.
Era isso que os
eleitores mostravam querer nas sondagens publicadas antes das eleições e é isso
que os eleitores acreditam que vão ter no rescaldo da vitória esmagadora de
Seguro. O novo estudo feito pelo ICS/ISCTE para a SIC e o Expresso, com
trabalho de campo entre 27 de fevereiro e 8 de março, mostra que 46% dos
inquiridos acreditam que o socialista será mais interventivo do que o seu
antecessor, Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto 40% defendem que terá um nível de
intervenção semelhante.
Ainda assim, a
maior fatia de eleitorado (42%) acredita que Seguro dará prioridade a
“colaborar com o Governo” e só 32% preveem que a maior urgência do Presidente
da República será “obrigar o Governo a agir”. Por fim, 22% dos inquiridos
apontam a “fiscalização do Governo” como o tema a que o chefe de Estado se irá
entregar em primeiro lugar. No discurso da tomada de posse, na segunda-feira,
no Parlamento, Seguro prometeu ter uma “relação leal e profícua” com o
Executivo, reforçando que não será por ele que a legislatura não vai até ao fim
(“Tudo farei para estancar o frenesim eleitoral”, afirmou no Parlamento). A
ideia é oferecer estabilidade ao Governo em troca de reformas para que não se
desperdice a “oportunidade de ouro” de governar e legislar sem taticismos
eleitorais. Cooperação por um lado, exigência por outro.
Fazendo um
diagnóstico dramático do país (crescimento económico insuficiente,
desigualdades, pobreza, burocracia a mais, justiça lenta, saúde e habitação em
crise), Seguro decretou que só com “consensos” e “soluções duradouras” o “país
será viável”. O discurso foi aplaudido pelo Parlamento em peso, onde se
encontrava não só o Governo como as oposições, conselheiros de Estado, e altas
individualidades da política nacional, e é também isso que se vê na sondagem do
ICS/ISCTE, com os eleitores, da esquerda à direita, a fazerem uma avaliação
média positiva da atuação recente do Presidente eleito (que esteve em silêncio
desde a eleição até à posse). Numa escala em que zero é “muito negativo” e 10 é
“muito positivo”, os inquiridos atribuíram-lhe uma média de seis.
Como seria de
esperar, são os eleitores sociais-democratas que mais querem ver Seguro a dar a
mão ao executivo de Montenegro, também como forma de superar a falta de maioria
no Parlamento. “A opinião de que Seguro dará sobretudo importância à
colaboração com o Governo é mais comum entre os simpatizantes do PSD (56%) do
que dos do PS ou do Chega (34% em ambos os casos)”, lê-se no estudo.
A primeira prova
de para onde cairá Seguro será o pacote laboral. Respondendo aos jornalistas,
na Mourísia, Seguro evitou falar na ideia de veto (que anunciou na campanha),
pondo antes as fichas todas na ideia do regresso a negociações e de que haverá
um “acordo equilibrado” na concertação social. “Sou um homem de esperança”,
disse.
Do outro lado, o
PS quer um Presidente capaz de pôr um travão não só à lei laboral, mas a outras
aspirações do Governo. Essa vontade é visível nos 62% dos simpatizantes do PS
que acreditam que Seguro será mais interventivo que Marcelo. Entre os três maiores
partidos, os eleitores do Chega são os que têm menos expectativas em relação ao
Presidente. Menos de metade (43%) admite que Seguro será mais interventivo que
Marcelo e só 34% acham que a prioridade será a colaboração com o Governo.
Quanto à relação
entre Belém e São Bento, são quase tantos os inquiridos que defendem que será
boa (41%) como aqueles que dizem que “não será boa nem má” (39%). Sem surpresa,
a maioria dos simpatizantes do PSD (65%) sobe a fasquia. Cooperação exigente é a
promessa do novo estilo de Presidência.
FICHA TÉCNICA
Sondagem cujo
trabalho de campo decorreu entre os dias 27 de fevereiro e 8 de março de 2026.
Foi coordenada por uma equipa do Instituto de Ciências Sociais da Universidade
de Lisboa (ICS-ULisboa) e do ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa
(ISCTE-IUL), tendo o trabalho de campo sido realizado pela GfK Metris. O
universo da sondagem é constituído pelos indivíduos de ambos os sexos com idade
igual ou superior a 18 anos e capacidade eleitoral ativa, residentes em
Portugal Continental. Os respondentes foram selecionados através do método de
quotas, com base numa matriz que cruza as variáveis sexo, idade (4 grupos),
instrução (3 grupos), região (7 regiões NUTS II) e habitat/dimensão dos
agregados populacionais (5 grupos). A partir de uma matriz inicial de região e
habitat, foram selecionados aleatoriamente 100 pontos de amostragem, onde foram
realizadas as entrevistas de acordo com as quotas acima referidas.
A informação foi recolhida através de entrevista direta e pessoal na residência dos inquiridos, em sistema CAPI, e a intenção de voto recolhida através de simulação de voto em urna. Foram contactados 2778 lares elegíveis (com membros do agregado pertencentes ao universo) e obtidas 801 entrevistas válidas (taxa de resposta de 29%, taxa de cooperação de 46%). O trabalho de campo foi realizado por 39 entrevistadores, que receberam formação adequada às especificidades do estudo. Todos os resultados foram sujeitos a ponderação por pós-estratificação de acordo com a frequência de prática religiosa e a pertença a sindicatos ou associações profissionais dos cidadãos portugueses com 18 ou mais anos residentes no Continente, a partir dos dados da vaga mais recente do European Social Survey (Ronda 11). A margem de erro máxima associada a uma amostra aleatória simples de 801 inquiridos é de +/- 3,5%, com um nível de confiança de 95% (Expresso, um texto dos jornalistas Margarida Coutinho, Rita Dinis, Sofia Miguel Rosa e Nuno Botelho)

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