quarta-feira, agosto 05, 2009

Opinião: "O “glamor” da hipocrisia e da boçalidade"

"O actual regime parlamentar tem sido desolador. Pela improdutividade, pelo descontrole do seu próprio funcionamento e pelos abusos a que tem dado origem. Quando um governo do PSD substituiu um do PS este foi acusado de “delapidar Erário Público, quase levando o país à bancarrota e obrigando os contribuintes a renovados sacrifícios”. Logo ouvimos um coro de protestos do PS acusando o Governo de irresponsabilidade porque isso iria “diminuir a confiança do povo e de eventuais investidores nacionais e estrangeiros”. Depois, invertido o cenário, assistimos ao PS a acusar o PSD de “delapidar o Erário Público quase levando o país à bancarrota e obrigando a renovados sacrifícios”. Já não se falou no prejuízo de “diminuir a confiança do povo e de eventuais investidores nacionais e estrangeiros”. Partilham entre si, afinal, a ambição e o objectivo de lutar, alternadamente, por “delapidar o Erário e levar o país à bancarrota”… Para nossa infelicidade ambos os partidos, com a complacência dos outros, conseguiram satisfazer plenamente esse objectivo. Assistimos, já com indiferença, aos políticos fazerem promessas mirabolantes durante as campanhas eleitorais para depois de eleitos as esquecerem e fazerem precisamente o contrário do prometido. Na vida civil chama-se a isso “publicidade enganosa”, o que é ilegal e os prevaricadores, se não tiverem “cunhas”, são habitualmente punidos. Ao político, como não é responsável, tudo é permitido. É inimputável, o que para o comum dos cidadãos não é um adjectivo lisonjeiro. Quase nunca vemos da parte de qualquer grupo parlamentar, a vontade de aproveitar uma ideia que lhe seja sugerida por um opositor. São irresponsável e invariavelmente chumbadas, quantas vezes com prejuízo do país, só porque não partiram da bancada da maioria! Assistimos frequentemente a longos e inúteis debates, por questões quantas vezes fúteis, em que uma bancada ou o governo propõe determinada lei que já tinha sido proposta pela agora oposição e que esta longamente debate a inconveniência de tal legislação que, num passado recente, tinha ela própria proposto aos deputados! As lutas partidárias tornaram-se tão estéreis e ridículas como as partidas de futebol, onde imperam o clubismo, o dinheiro, obscuros interesses económicos e não o interesse desportivo. As Assembleias transformaram-se também em campos desportivos, onde imperam os interesses pessoais e partidários em detrimento dos interesses dos cidadãos e do país. Os locais que deveriam ser as catedrais da democracia, onde deveriam acontecer os debates de ideias e as propostas de soluções para o país, estão transformados em campos de batalha onde os adversários políticos se comportam como inimigos, sem dignidade, sem compostura e sem respeito. Assistimos, atónitos, a berros, insultos, obscenidades e ameaças de agressão. É a glorificação da taberna. Na linguagem. No comportamento. E no estilo. Consideram-se, eles próprios, a elite do País e acham-se no direito, para além do ordenado, a regalias, acumulações, subvenções, viagens, etc., etc. Um espectáculo revelador do nível a que chegou a política em Portugal. As despesas orçamentadas com a Assembleia da República, para 2009, são de 184.308.359 euros (37 milhões de contos). Esta despesa significa 801.340 euros (160.654 contos) por deputado! Com a ALR da Madeira as despesas foram de 16.975.300 euros (3,4 milhões de contos) significando 361.176 euros (72.409 contos) por deputado! Segundo o Orçamento Regional dos Açores de 2009 a verba atribuída à ALRAA é de 11.917 829,99 euros (2,389 milhões de contos). Este enorme desperdício significa um custo de 209.084 euros (41.917 contos) por deputado! Fora as escandalosas subvenções vitalícias conseguidas, não pelo mérito ou pelo trabalho, mas unicamente por estarem sentados, escassas semanas durante o ano – para nossa sorte a maioria em silêncio – durante apenas doze anos, em subserviente fidelidade ao chefe do partido. Isto quando se exige ao vulgar cidadão que trabalhe, pelo menos, até aos 65 anos e totalize, pelo menos, 36 anos de trabalho efectivo. Somando as despesas das 3 Assembleias Legislativas temos um desperdício de cerca de 43 milhões de contos para permitir que um restritíssimo grupo de cidadãos, na sua grande maioria improdutivos, engorde as suas contas bancárias, viaje muito, se agrida, se insulte e se deleite a vociferar obscenidades. Quantas creches, quantas escolas, quantos lares de 3ª idade e quantos Centros de Saúde se poderiam construir anualmente com tamanho desperdício. Quantas bolsas de estudo, até em Harvard, Yale ou Oxford, poderiam ser concedidas para formar as verdadeiras elites do País. Afirmam todos estar na política para lutar pela justiça social e pela defesa dos direitos dos mais desfavorecidos, mas escondem, calam e são permissivos com os abusos, com as regalias injustamente auferidas e até com as fraudes cometidas. É afinal, com muitos V.Ex.as pelo meio, a “glamourização” da hipocrisia e da boçalidade. É para alimentar este “circo” e outras “festas” que, de uma forma também ela obscena, se congelam os salários e pensões, se aumentam os impostos, se fecham escolas, maternidades e serviços de urgência. É para o legitimar que se pretende impor o voto obrigatório, tentando encobrir o profundo descontentamento e desilusão do eleitorado para com uma classe política que pelo seu comportamento abusivo e irresponsável, levou ao descrédito nos partidos e nas instituições políticas do país. Diz-se que a política desperta paixões. Em Portugal, simplesmente, mete nojo" (por Carlos Falcão, Correio dos Açores)

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