sexta-feira, maio 14, 2010

Reportagem: "Ruptura gay"...

Lembram-se do mediático casal de lésbicas? Passados estes anos todos a "coisa" ficou preta e já estão separadas. O jornalista Mário David Campos, da Visão, publica na última edição um oportuni trabalho intitulado "Ruptura gay", que recomendo, em grande medida para se perceber a futilidade de certas encenações mediáticas:
"A vida do nosso mais famoso casal de lésbicas corre de despejo em despejo. Há quem as acuse de calotes – e a controvérsia já divide activistas. Mudanças de casa, de cidade, de empregos. A vida de Helena Paixão, 39 anos e Teresa Pires, 33, tem sido um corrupio desde aquele dia 1 de Fevereiro de 2006 em que subiram a escadaria da 7ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa. Vestidas de jeans e camisolas brancas, apadrinhadas pelo advogado que promoveu a causa no seu blogue, queriam fazer história: ser o primeiro par lésbico a casar em Portugal. Não sucedeu nessa altura, mas talvez o consigam em breve – a lei está para promulgação pelo Presidente da República. Desde então, Helena e Teresa – na companhia de Marisa, 16 anos, filha da primeira, e agora também com Beatriz, 10 anos, filha da segunda, e ambas fruto de relacionamentos heterossexuais anteriores – já viveram em quase metade do País. Por «descriminação e intolerância», como se queixam? Ou por «não pagarem renda», como alega quem as acolheu?O mais recente capítulo aconteceu em Paredes de Coura. Paula Silva conheceu-as depois de «um mal-entendido na escola», que envolveu os filhos. Seguiu-se «uma conversa franca». Assunto resolvido, tornaram-se amigas. Paula ouviu a história: o casal estava de saída de uma casa no Taboão, depois de uma estada curta em Vascões, no mesmo concelho. Sensibilizou-se com as dificuldades por que passavam, ambas desempregadas e a viverem com 450 euros do rendimento social de inserção de cada uma e da pensão de alimentos da filha de Teresa.«A custo», Paula convenceu a mãe, Jaquelina Rodrigues, a alugar-lhes uma casa, no lugar de Lamamá, conforme conta a própria à VISÃO. Sem contrato de arrendamento, acordaram «um empréstimo pelos primeiros dois meses». A coisa azedou rapidamente. De cada visita ao local, Jaquelina pelava-se com o que via. «Tudo sujo, desarrumado, uma porcaria», explica Paula. A amizade e as conversas prolongadas deram lugar a mensagens de telemóvel, enviadas por Teresa e Helena, em tom por vezes ameaçador – como a VISÃO testemunhou.Paula contratou advogado e pondera agora avançar com uma acção judicial queixando-se também das «contas de luz e água que ficaram por pagar e de algumas coisas que desapareceram». Teresa Pires afirma que não trouxe nada que não fosse seu e garante até ter feito obras «na canalização».As acusações de discriminação feitas por Teresa e Helena aos jornais não caíram bem em Paredes de Coura. Joaquim Lopes, presidente da Junta, é o porta-voz desse mal-estar: «Eram provocadoras e mal-educadas». O autarca não embarca na versão das «coitadinhas»: «Helena e Teresa, diz, «foram várias vezes chamadas ao Centro de Emprego e nunca apareceram».Leonor Areal – realizadora que recebeu uma menção honrosa no DocLisboa 2006 com o documentário Fora da Lei, que conta a história de Teresa e Helena – surpreende-se com este tipo de queixas. «Apesar de um pouco rudes, nunca as vi serem mal-educadas. Têm o mundo contra elas mas são consistentes no discurso ético», sublinha Leonor. Recorda como o casal lésbico foi recebido «com uma coroa de flores à porta de casa» em Oiã, Oliveira do Bairro, depois da tentativa frustrada de casamento. Alguns dias depois, a realizadora ainda ouviu o estrondo que os vizinhos faziam no prédio. «Parecia que aquilo vinha tudo abaixo», relembra. A pressão foi de tal ordem que deixaram a casa, denunciando a «homofobia e intolerância».No prédio a versão adiantada à VISÃO é outra, – embora ninguém dê a cara: «barulho», «maus modos» e, «noites de sexo, tipo canal Playboy», são razões apresentadas para a hostilidade.
Estala o verniz
Seguiu-se a Grande Lisboa. A rede activista envolveu-se e conseguiu a primeira casa para o casal. A senhoria, que pediu para não ser identificada, não queria saber da orientação sexual do casal – «os cheques não têm sexo», disse à VISÃO. Mais uma vez, a renda deixou de ser paga. A senhoria não conseguiu que assinassem um contrato de arrendamento, numa rara altura em que Teresa e Helena trabalhavam num call center. A ordem de despejo veio com a polícia.Leonor Areal contrapõe com uma «invasão da habitação», o «corte da água», a alteração «para o dobro» do valor da renda e a «recusa em passar recibo». João Louça, do grupo Panteras Rosa e amigo do casal, estranha os timings dos despejos: «Sempre após uma exposição mediática».Depois de uma passagem curta por Almada, o casal regressou ao Norte. Em Braga, viveu o período mais calmo, um ano, numa casa emprestada por um membro do Panteras Rosa.O certo é que, de bandeira dos movimentos que lutam pelo casamento gay, Helena e Teresa tornaram-se numa fonte de guerra entre grupos activistas. Sérgio Vitorino, dirigente do Panteras Rosa, critica a ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero). «Nunca esconderam o receio», diz, «de que o processo judicial avançado por Helena e Teresa se transformasse num empecilho para o processo político». Atribui ainda à ILGA, presidida por Paulo Côrte-Real, um «bloqueio institucional» a todo o tipo de ajuda ao casal. Côrte-Real responde: «São acusações completamente absurdas». Mas admite: «A nossa opção, até por ser mais pedagógica, era e é a via política».Teresa e Helena estão, desde Fevereiro, a viver no Alentejo. Teresa diz que o casal não se arrepende de nada. «Voltávamos a fazer tudo outra vez. Contribuímos para a mudança de mentalidades e das leis do País. Já valeu a pena».

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