Há 36 anos, quando a Polónia procurava reconstruir a sua economia depois do fim do regime comunista, Lech Wałęsa lançou uma ambição que parecia difícil de concretizar: transformar o país num “novo Japão”. Em 1990, a Polónia tinha um PIB por habitante que representava pouco mais de um terço do japonês. Três décadas e meia depois, as previsões do Fundo Monetário Internacional colocam o país europeu à frente do Japão e praticamente ao mesmo nível de Espanha. A transformação resulta de reformas económicas, investimento estrangeiro, fundos europeus e uma indústria exportadora que fez da Polónia uma das economias mais dinâmicas da Europa.
Há 36 anos, quando a Polónia procurava reconstruir a sua economia depois do fim do regime comunista, Lech Wałęsa lançou uma ambição que parecia difícil de concretizar: transformar o país num “novo Japão”. Na altura, o Japão era uma das economias mais desenvolvidas do mundo, enquanto a Polónia enfrentava os desafios de uma transição profunda para a economia de mercado.
Agora, segundo o jornal espanhol ‘El Economista’, as mais recentes previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que a Polónia deverá ultrapassar o Japão em 2026 no PIB por habitante ajustado à paridade do poder de compra (PPC).
O indicador, que considera as diferenças de preços entre países, deverá atingir 60.051 dólares internacionais por habitante na Polónia, contra 59.712 no Japão.
Trata-se de uma comparação do valor da produção económica por pessoa, ajustada ao custo de vida, e não de uma medida direta dos salários ou do rendimento disponível das famílias.
Espanha pode ser a próxima economia ultrapassada
A aproximação à economia espanhola é igualmente significativa. Segundo as projeções do FMI citadas pelo jornal espanhol, o PIB por habitante ajustado à paridade do poder de compra deverá situar-se em 60.051 dólares internacionais na Polónia e 60.106 em Espanha, uma diferença de apenas 55. Em 2027, a Polónia poderá ultrapassar o país vizinho de Portugal, alcançando 63.638 dólares internacionais por habitante, contra 62.518 em Espanha.
A tendência poderá prolongar-se nos anos seguintes. Para 2031, o FMI projeta valores de 76.239 dólares internacionais na Polónia e 69.994 em Espanha. Embora estas projeções estejam sujeitas a revisões, mostram a rapidez com que a economia polaca se tem aproximado dos níveis de desenvolvimento da Europa Ocidental.
Como conseguiu a Polónia transformar a sua economia?
A transformação começou depois de 1989, com o abandono do modelo de planeamento central e a abertura ao investimento privado e estrangeiro. A privatização de empresas, a liberalização económica e a integração nas cadeias industriais europeias criaram condições para um crescimento sustentado.
A adesão à União Europeia, em 2004, foi outro momento decisivo. Desde então, a Polónia recebeu cerca de 160 mil milhões de euros em transferências líquidas de fundos europeus, segundo dados citados pelo estratega Jeremie Peloso, da BCA Research.
Estes recursos ajudaram a financiar infraestruturas, modernizar transportes e melhorar as condições para a instalação de empresas. Um dos exemplos mais visíveis está na rede de autoestradas e vias rápidas, que passou de algumas centenas de quilómetros para mais de cinco mil.
A melhoria das infraestruturas, associada a custos de produção competitivos e à proximidade da Alemanha, tornou o país particularmente atrativo para a indústria europeia.
Das fábricas aos centros tecnológicos
A Polónia tornou-se uma importante plataforma industrial e exportadora, acolhendo operações de grupos como a Siemens, a Bosch e a ABB. As exportações, que representavam cerca de 33% do PIB em 2004, chegaram a atingir 63% em 2023, segundo os dados apresentados pelo El Economista. Mas a transformação económica não se ficou pela indústria tradicional.
O país ganhou importância na produção de baterias, camiões e autocarros elétricos, ao mesmo tempo que desenvolveu atividades ligadas aos serviços empresariais e às tecnologias de informação.
Cerca de meio milhão de pessoas trabalham atualmente em serviços como contabilidade, gestão administrativa e apoio informático. Empresas como Google, Microsoft, Intel, Samsung e IBM estabeleceram centros de investigação e desenvolvimento no país, enquanto o investimento em centros de dados continua a aumentar.
A evolução tem permitido à Polónia passar progressivamente de atividades de produção de menor custo para setores de maior valor acrescentado, incluindo engenharia e análise de dados.
Um crescimento superior a 3,5% durante 25 anos
Para Marieke Blom, economista-chefe do ING, a Polónia é um dos casos de sucesso económico menos reconhecidos da Europa. Segundo a especialista, o crescimento médio anual do PIB ultrapassou 3,5% nos últimos 25 anos, um desempenho particularmente relevante para um país com cerca de 38 milhões de habitantes. A produtividade por hora trabalhada duplicou entre 2000 e 2024, enquanto a participação no mercado de trabalho aumentou significativamente.
A economista destaca também a qualidade da educação, lembrando que os estudantes polacos de 15 anos apresentam resultados superiores à média da OCDE nos testes PISA. Esta evolução poderá ajudar a compensar um dos principais desafios do país: o envelhecimento da população e a futura redução da força de trabalho.
O que pode travar o milagre polaco?
Apesar do crescimento, a economia polaca enfrenta desafios importantes. O envelhecimento demográfico, a necessidade de continuar a aumentar a produtividade e a dependência das exportações europeias poderão condicionar o desempenho futuro.
A evolução económica também dependerá da capacidade para atrair investimento, desenvolver atividades de maior valor acrescentado e manter a competitividade industrial. Ainda assim, a trajetória das últimas décadas transformou profundamente a posição do país na Europa. Segundo a BCA Research, o PIB real da Polónia mais do que duplicou desde a adesão à União Europeia, tornando-a atualmente a sexta maior economia europeia quando medida em paridade do poder de compra.
A comparação com o Japão e Espanha é, por isso, mais do que uma curiosidade estatística. É o reflexo de uma transformação económica que levou a Polónia de uma posição periférica, no início da década de 1990, para o grupo das economias europeias com maior peso industrial e crescente capacidade tecnológica.
Trinta e seis anos depois, a ambição de Lech Wałęsa deixou de parecer uma promessa distante. Pelo menos numa das principais medidas de desenvolvimento económico, a Polónia conseguiu alcançar e ultrapassar o país que escolheu como exemplo (Executive Digest, texto do jornalista Francisco Laranjeira)


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