"São mulheres de meia-idade, com um trabalho que muita gente menospreza e ninguém escolhe como carreira, segundo elas próprias admitem. Tiveram vidas difíceis, com histórias de famílias pobres, abandono escolar precoce, adolescências passadas em fábricas e noutros lugares onde não deviam estar, violência de muitos tipos. Algures no seu percurso, conseguiram um emprego desagradável e mal pago (500 euros por mês, em média), mas que julgavam seguro: fazer limpezas ao serviço do Estado. Continuava a ser uma vida difícil, mas pelo menos era estável. Além de não poderem ser despedidas, tinham direito a segurança social e assistência médica, benefícios que muitos trabalhadores do sector privado invejavam. Até que chegou a crise, e com ela a troika e a exigência súbita de despedir empregados do Estado. Há anos que dura, e em 2014, de um momento para o outro, o Ministério das Finanças viu-se obrigado a despedir 15 mil funcionários. Ao que parece, nem hesitou quando se tratou de incluir os mais mal pagos de todos: seiscentas mulheres que limpavam repartições de Finanças pelo país. O responsável que no governo se ocupa da reorganização administrativa explicou que o trabalho de limpezas, sendo pouco qualificado, era daqueles que tipicamente podia ser feito por empresas externas. No meio de tanto drama no país envolvendo gente de nível sócio cultural elevado, ninguém terá pensado que aquelas funcionárias despedidas pudessem vir a constituir um problema. Qual não foi a surpresa quando, de repente, elas se organizaram e começaram a protestar em frente ao Ministério das Finanças. A polícia grega, que ainda conserva velhos hábitos da ditadura, reprimiu-as com força excessiva e a Amnistia Internacional denunciou. Entretanto, o tribunal onde reclamaram a restituição do emprego também lhes deu razão. O caso podia ter ficado por aí, não fosse a publicidade que recebera - e que fez com que os ministros se sentissem coibidos de ceder, para não ficarem mal vistos perante à troika. Em lugar de readmitir as mulheres, como lhe fora ordenado, o governo recorreu de decisão judicial. E para evitar novo revés fê-lo diretamente no Supremo Tribunal grego - cujos juízes ele próprio nomeia. O resultado é praticamente garantido, a não ser que as eleições deste mês levem a uma mudança de governo. Como aliás se espera.
Um abanão ao representante do FMI
Os protestos das ex-funcionárias do Ministério das Finanças duram há meses e tornaram-se uma causa popular na Grécia, com direito a um símbolo que toda a gente reconhece: a luva de borracha vermelha. Já houve cenas caricatas, como aquela em que se vê Poul Thomsen, o homem do FMI no país, aterrorizado dentro de um carro que as mulheres abanam com alegria. O processo administrativo concebido para restituir à precariedade os funcionários gregos soa-nos familiar. Nem lhe falta a passagem por uma alegada 'mobilidade' - uma estadia no limbo antes de cair em definitivo na situação em que não se tem emprego. Igualmente presente, o ressentimento de pessoas que não conseguiram tornar-se funcionários do Estado, e que apontam o facto de as mulheres terem conseguido aqueles empregos apenas porque alguém que elas conheciam, ou que conhecia alguém que elas conheciam, conhecia um deputado ou outro responsável. Era assim que durante décadas se fazia na Grécia: empregos por votos. Praticavam esse sistema tanto o Pasok (socialista) como o outro principal partido, a Nova Democracia (de direita), atualmente no poder. O Syriza, de extrema-esquerda e neste momento o favorito nas sondagens, promete devolver o emprego às mulheres da limpeza mas diz que vai passar a fazer as coisas de outra maneira. Muitas delas dizem que já votaram em vários partidos. Agora vão votar nesse. Só querem que as deixem regressar ao trabalho. Se o governo de facto mudar, as hipóteses de vitória no Supremo Tribunal aumentam. As eleições são a 25 de janeiro, a decisão judicial a 24 de fevereiro" (texto do jornalista do Expresso, Luís M. Faria, com a devida vénia)
Um abanão ao representante do FMI
Os protestos das ex-funcionárias do Ministério das Finanças duram há meses e tornaram-se uma causa popular na Grécia, com direito a um símbolo que toda a gente reconhece: a luva de borracha vermelha. Já houve cenas caricatas, como aquela em que se vê Poul Thomsen, o homem do FMI no país, aterrorizado dentro de um carro que as mulheres abanam com alegria. O processo administrativo concebido para restituir à precariedade os funcionários gregos soa-nos familiar. Nem lhe falta a passagem por uma alegada 'mobilidade' - uma estadia no limbo antes de cair em definitivo na situação em que não se tem emprego. Igualmente presente, o ressentimento de pessoas que não conseguiram tornar-se funcionários do Estado, e que apontam o facto de as mulheres terem conseguido aqueles empregos apenas porque alguém que elas conheciam, ou que conhecia alguém que elas conheciam, conhecia um deputado ou outro responsável. Era assim que durante décadas se fazia na Grécia: empregos por votos. Praticavam esse sistema tanto o Pasok (socialista) como o outro principal partido, a Nova Democracia (de direita), atualmente no poder. O Syriza, de extrema-esquerda e neste momento o favorito nas sondagens, promete devolver o emprego às mulheres da limpeza mas diz que vai passar a fazer as coisas de outra maneira. Muitas delas dizem que já votaram em vários partidos. Agora vão votar nesse. Só querem que as deixem regressar ao trabalho. Se o governo de facto mudar, as hipóteses de vitória no Supremo Tribunal aumentam. As eleições são a 25 de janeiro, a decisão judicial a 24 de fevereiro" (texto do jornalista do Expresso, Luís M. Faria, com a devida vénia)
