sexta-feira, janeiro 16, 2015

Madeira: o infortúnio das chamadas "altas problemáticas"

O meu amigo e antigo colega de Liceu, Mário Rodrigues, novo Presidente do SESARAM, esteve recentemente na RTP e em declarações que revelaram, uma vez mais, segurança e conhecimento da realidade do sector, abordou uma questão que considero preocupante e que estranhamente alguns partidos que usam a saúde, e as dificuldades existentes, como bandeiras pretensamente eleitorais ou armas de arremesso em guerras políticas da treta, não abordam.
Falo das chamadas "altas problemáticas". O que são as APs? Falamos de pessoas, na sua maioria idosas, que são "entregues" pelos familiares no Hospital em situação clínica de efectiva fragilidade, mas que depois recusam recolhê-los alegando que não têm condições financeiras para o fazer. Não sei se os incentivos que o IRS introduziu este ano vão alterar este lamentável estado de coisas. Também não duvido que o futuro governo da Madeira terá que abordar esta questão com coragem e deforma pragmática, por exemplo saber até que ponto os familiares que abandonam os seus idosos no Hospital podem continuar a ter acesso às suas reformas. A verdade é que no Hospital dos Marmeleiros há idosos, com mobilidade própria, e na casa dos sessenta anos, que foram ali "depositados" mas que acabam por constituir uma ajuda ao pessoal auxiliar que ali presta assistência aos idosos internados e acamados. O próprio Hospital, segundo me disseram, promove atividades diárias, durante a semana, para impedir que os idosos abandonados pelas famílias caiam numa situação de tédio ou de depressão perigosa.
Mário Rodrigues abordou o assunto com cuidado e com "pinças", como se costuma dizer. Mas revelou que há 73 camas no Hospital dos Marmeleiros que estão ocupadas por idosos em situação de AP. Alguns deles as famílias não os contactam há mais de um ano... Dramático é que os idosos nestas situações e que percebem a realidade em que se encontram, choram quando o assunto lhes é colocado. Sei que há profissionais da saúde que se emocionam com estas situações humanas absolutamente tristes. Já imaginou - e não aceito que existam razões para isso - pais abandonados pelos seus filhos por alegadamente não terem condições? Filhos que depois beneficiam e utilizam as respectivas pensões ou reformas. O assunto resolve-se encontrando, fora do Hospital, colocação para estas situações. Não sei até que ponto a Segurança Social está em condições - leia-se se possui disponibilidades de espaço nas estruturas que existem na Madeira - para impedir este triste espectáculo. Não estamos a falar de idosos em situações de doença extrema, de perda das faculdades, de perda de mobilidade, etc. Nada disso. Estamos a falar de pessoas que podiam (e deviam) ir ao Hospital e ser depois reintegradas nos agregados familiares respectivos.