Segundo o jornalista do Jornal I, Filipe Paiva Cardoso, “no 3.º trimestre
foram destruídos 404 mil empregos com horários acima de 11 horas/semana e
criados 465 mil postos de menos de 10 horas. Perto de um milhão de portugueses
trabalhava dez ou menos horas por semana no terceiro trimestre de 2013, um
universo que disparou para o dobro de Junho para Setembro, meses em que o total
de trabalhadores com empregos de uma a 10 horas semanais passou de 450 mil para
915 mil. É nestes empregos que reside assim a recuperação do mercado do
trabalho que o governo tanto saudou recentemente. Do segundo para o terceiro
trimestre do ano, o total de desempregados caiu 50 mil pessoas, o que permitiu
ao governo apresentar uma quebra do desemprego de 16,4% para 15,6%. Contudo,
nos empregos que exigem mais de 10 horas por semana só houve destruição de
postos de trabalho: nos três meses entre o final de Junho e o final de Setembro
perderam-se 403,2 mil postos de trabalho que 11 ou mais horas semanais. O
aparecimento de mais 464,8 mil trabalhos com horários até 10 horas semanais
anulou assim o efeito que aquele ritmo de destruição de empregos teria na taxa
de desemprego, conseguindo mesmo baixá-la, servindo também para o governo
apresentar os números como sinal do sucesso do programa de ajustamento que
superou as piores previsões. Caso juntemos o total de de- sempregados a este
grupo de trabalhadores que não conseguem empregos com horários que permitam um
salário decente, encontramos 32,5% da população activa residente em Portugal -
839 mil desempregados e 915 mil trabalhadores com não mais de 10 horas por
semana, sobre 5,39 milhões de população activa. No segundo trimestre deste ano,
a taxa estava nos 24,8% - 886 mil desempregados e 450 mil empregados com não
mais de 10 horas de trabalho (leia-se, remuneração) por semana. Trata-se de um
efeito que se sente em todos os terceiros trimestres de um ano. Já em 2012
ocorreu o mesmo, com um salto temporário para mais de 900 mil trabalhadores com
horários de uma a 10 horas por semana. É um dos efeitos dos empregos sazonais e
em 2012 levou a que do terceiro para o quarto trimestre o desemprego voltasse a
disparar, de 870 mil para 924 mil desempregados. Mas quando se dá este efeito
de regresso à "normalidade" no quarto trimestre, os valores acabam
por ficar aquém do que existia antes da explosão dos empregos de uma a 10
horas. Ainda em 2012, e do segundo para o quarto trimestre, acabaram por
desaparecer 204 mil empregos com horários acima das 11 horas semanais. Trata-se
assim de mais um indício que aconselha precaução na análise do mercado de
trabalho e foi relembrado por Ricardo Pais Mamede, professor do ISCTE e
ex-director do Gabinete de Estratégia e Estudos da Economia”