quarta-feira, agosto 14, 2013

Opinião: (des) briefings…

Corre em Lisboa, junto dos meios ligados à comunicação bem como nalguns círculos próximos da maioria, que a palhaçada dos briefings - uma "descoberta" tardia deste governo de coligação mas uma demonstração de que a patética propaganda de Sócrates, que na realidade não passava de intoxicação da opinião pública portuguesa, afinal deixou seguidores e fez escola, sobretudo entre advogados-articulistas promovidos à pressão a uma espécie de jornalistas "made in China" ou consultores de imagem de governo "made in Vietnam" - que começou por ser diária e foi iniciada há pouco mais de um mês, já vai sofrer a primeira recauchutagem.
Percebe-se que assim seja. Desde logo pela incompetência demonstrada na organização, pela ausência de uma lógica política também necessariamente subjacente à mensagem e pelo amadorismo que chega a roçar o patético. Mas percebe-se também, e sobretudo, pela ineficácia da iniciativa que rapidamente se transformou no funeral, quase diário, da própria contra-informação governativa. A trapalhada com o caso dos “swaps”, a falta de credibilidade que entretanto a evolução do caso gerou, com a demissão de secretário de estado à mistura - ele que dois dias antes esteve num desses encontros a mostrar as garras aos jornalistas - foram a demonstração, uma parte dela apenas, do fracasso em que uma iniciativa importante se viu transformada por culpa própria.
Não se pode arranjar um indivíduo qualquer, com ar de "yuppie" de confraria, que supostamente andou a marrar anos para ter não sei quantos canudos debaixo do braço, mas de quem ninguém antes se lembrou, o que não deixa de ser estranho, resolver trazê-lo para Portugal, promove-lo a ministro, quando o governo de coligação dava sinais de degradação, de fragilidade, de descrédito e de ilegitimidade social e política, e pensar que só por isso, descobriram uma nova versão do caminho para a India.
Entregar um carro de bombeiros a um indivíduo que ninguém conhece e de quem poucos ouviram falar, importado de universidades europeias, sem qualquer experiência política e sem militância partidária conhecida, que nunca exerceu cargos políticos e não teve qualquer experiência governativa anterior e mandá-lo apagar um incêndio qualquer, quando o homem afinal nem carta de condução tem, no mínimo é ridículo.
É isso que tem acontecido com esta espécie de ministério da propaganda feito a martelo e muito à imagem da propaganda de Sócrates que só funcionou, aparentemente bem, enquanto as coisas não deram para o torto. Porque quando isso aconteceu, foi o descalabro. Sinceramente acho confrangedor tudo isto, todo este amadorismo deprimente, até porque este governo de coligação não tem espaço de manobra - e prepara-se para reduzi-lo ainda mais, depois de alguma folga conquistada nos últimos dois meses, por mais paradoxal que isso possa parecer – nem tempo para perder-se com questões que aparentemente seriam facilmente executadas e geridas.
Ou seja, o governo que pretendia, e bem, construir pontes com a comunicação social, rapidamente assumiu uma atitude, ora desconfiada, ora inconsistente, ora professoral e descabida não tardando muito para que fosse obrigado a ter que desmentir todos os dias notícias publicadas si próprio, com muita especulação à mistura, mas algumas delas pondo até em causa a honorabilidade de membros do governo de coligação, transformando assim os "briefings" governativos num quase pesadelo político, mais concretamente em algo que se limitava a ir a reboque dos acontecimentos externos, obrigando a cancelamentos à mistura e outros episódios pitorescos demonstrativos de que não se conseguem fabricar especialistas num domínio tão sensível e polémizável como o da comunicação política e da imagem institucional de um governo a braços com uma forte contestação social, só porque se acha que sim, por toque de magia.
Mas quem é afinal o principal porta-voz desses encontros com a comunicação social, alguns deles transmitidos de forma submissa e nunca vista em directos pelas televisões? Trata-se do Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, Pedro Lomba, licenciado, mestre e doutorando em Direito na Faculdade de Direito de Lisboa. Assistente na Faculdade de Direito de Lisboa, foi advogado em empresas privadas e assessor jurídico da Presidência do Conselho de Ministros. Foi colunista de vários órgãos de comunicação social nacionais e comentador na RTP-Norte. É autor de livros na área do direito. Experiência política ou governativa? Também não me consta que tenha tido qualquer experiência jornalística profissional ou que tenha ligações a quaisquer actividades no domínio da comunicação política...
O seu patrão apresenta um curriculo oficial que não o deixa muito longe. Poiares Maduro é Ministro-Adjunto e do Desenvolvimento Regional desde Abril de 2013. Foi professor de Direito no Instituto Universitário Europeu, em Florença, colaborou noutras universidades na área do direito, foi advogado geral entre 2003 e 2009 no Tribunal Europeu de Justiça no Luxemburgo. É Doutor em Direito pelo Instituto Universitário Europeu, ganhou o Prémio Objectivo Europa pela melhor tese de doutoramento no Instituto naquele ano, tendo sido galardoado em 2010 com o Prémio Gulbenkian de Ciência e agraciado com a Comenda da Ordem de Santiago da Espada pelo Presidente da República Portuguesa por mérito literário, científico e artístico (2006). Integrou um grupo de trabalho da Comissão Europeia que estudou o pluralismo dos média e a liberdade de informação. Pertenceu à Comissão Política de candidatura de Aníbal Cavaco Silva às eleições presidenciais de 2011.
Experiência política ou governativa? Zero. Experiência no domínio da comunicação social ou política? Idem. Palavras para quê...
Isto leva-me a uma outra questão, que não quero abordar hoje neste contexto, mas sobre a qual tenho falado a pessoas que me pedem opinião, e que se prende com o facto de haver alguns políticos que julgam que hoje se ganham eleições ou constroem imagens públicas graças ao “facebook”. Esqueçam. Uma esmagadora maioria dos eleitores dos escalões etários superiores não alinha nessas redes sociais e uma esmagadora maioria dos eleitores dos escalões etários mais jovens prescindem da política nas redes sociais, optando por outras alternativas e outras formas de comunicação e de partilha de informação. A ideia de que o “facebook” é hoje uma ferramenta decisiva no marketing eleitoral, nas estratégias partidárias ou na comunicação política é um tremendo erro que acaba por ter um custo político e eleitoral elevado. É uma ferramenta importante, muito barata e a utilizar, sim senhor, mas sem qualquer dependência ou hipervalorização. O contacto directo com as pessoas continua a ser a principal arma de um combate eleitoral, a par de uma inteligente e racional utilização da televisão. A “caixa” continua muito à frente da concorrência…
O mesmo acontece com a ideia peregrina de alguns especialistas (?)...na arte de que basta juntar meia-dúzia de pessoas a uma mesa, sacar duas ou três fotos, elaborar um press-release com muitas trivialidades e enviar tudo isso por correio electrónico para as redacções dos meios de comunicação, transformando-as em meras caixas-de-ressonância e aos jornalistas em "vuvuzelas" forçadas de partidos ou de candidaturas, que o dia está ganho! Pura ilusão.

Mas isso são outras conversas.